Crítica | O Mistério do Número 17

estrelas 1,5

Confuso, abruto e truncado… essas seriam as palavras exatas com as quais eu definiria O Mistério do Número 17, filme odiado pelo próprio Alfred Hitchcock e por meio mundo de cinéfilos também. A película é a adaptação de um romance e de uma peça de Joseph Jefferson Farjeon, que também co-escreveu o roteiro do filme, e se passa em basicamente dois cenários; o primeiro numa casa sem moradores, e o segundo em externas, acompanhando uma perseguição aos bandidos que roubaram um valioso colar. Este último momento, a despeito de todas as suas falhas, é a melhor parte da obra, se é que podemos denominar assim.

Esse início de anos 30 não era um bom momento na carreira de Hitchcock. Após o fracasso de Ricos e Estranhos, o diretor teve que aceitar dois projetos do estúdio sem pensar muito a respeito, quase como uma espécie de compensação de lucros. O primeiro foi esse terrível Mistério do nº 17 e o outro foi o ótimo Valsas de Viena. No caso desse presente mistério, o diretor teve ideias interessantes, mas acabou executando-as de forma atrapalhada, o que tornou a primeira parte do filme caótica e a segunda parte um verdadeiro corpo estranho.

Assim como em Ricos e Estranhos, os primeiros minutos são pontuados apenas por ação. Uma ventania leva o chapéu de um homem que anda pela rua e somos levados a crer que ele encontrou a casa de nº17 por coincidência, que entrou nela apenas por curiosidade. Uma atmosfera parecida com a dos filmes de terror se instala, e todo o exagero típico dessas produções – o que de alguma forma também pode ser atribuído ao suspense – começa a aparecer.

Até a entrada do desconhecido na casa não há tanta estranheza assim, mas quando consideramos o conjunto de eventos posteriores, percebemos que o roteiro sofre de gigantescos problemas de verossimilhança. Hitchcock disse algumas vezes que não se preocupava nem um pouco em ser verossímil, mas os seus filmes da fase americana são tão bem amarrados e tudo acontece de forma tão plausível, que entendemos o por quê ele não se preocupava: simplesmente porque ele era verossímil sem fazer esforço, uma característica não encontrada com frequência em sua fase britânica. Tem coisas absurdas demais em O Mistério do Número 17, ações que normalmente não atribuiríamos a indivíduos com a composição psicológica dos personagens da obra.

A montagem é o motor da confusão, mais uma vez. O responsável por ela é A.C. Hammond, que, orientado por Hitchcock, tentou criar um complexo jogo de ângulos-surpresa, principalmente quando “o assassino e o assassinado” são peças do jogo de mistério, mas tudo o que vemos na tela é uma sequência atrapalhada de takes ligados por personagens assustados, sons de vento forte, portas batendo e planos de detalhe em coisas que não acrescentam absolutamente nada à história. Conforme os minutos avançam, esses planos diminuem e é nesse momento que passamos a aproveitar melhor o filme.

A perseguição é realmente a melhor sequência de O Mistério do Número 17. Hitchcock conseguiu criar com competência um jogo de acontecimentos duplos, que surpreendentemente recebem um bom trabalho de edição paralela e simultânea, mostrando-nos não apenas o que ocorre no ônibus, mas também o que acontece em diferentes pontos do trem. Uma pena que depois do desastre as coisas voltem a ficar ruins e o desfecho do filme seja pobre e absurdo.

O longa tem uma proposta muito interessante e sabemos que poderia ser bem melhor caso atropelos de montagem e ideias truncadas do roteiro não fossem levadas a cabo. Comparado a outras produções de Hitchcock, é uma obra que até vale a pena ser vista, especialmente pela ótima construção do suspense na sequência de perseguição, mas não pelo restante. Quem dera o filme fosse um curta metragem e essa fosse a sua única sequência!

  • Crítica originalmente publicada em 19 de janeiro de 2014. Revisada para republicação em 19/11/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

O Mistério do Número 17 (Number Seventeen) – UK, 1932
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Joseph Jefferson Farjeon, Alma Reville, Alfred Hitchcock, Rodney Ackland
Elenco: Leon M. Lion, Anne Grey, John Stuart, Donald Calthrop, Barry Jones, Ann Casson, Henry Caine, Garry Marsh
Duração: 63 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.