Crítica | O Monstro do Circo

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Lon Chaney foi um ator que por seu imenso talento como maquiador, ficou conhecido como O Home das Mil Faces, tornando-se célebre por viver personagens trágicos e deformados, como o Fantasma da Ópera e o Corcunda de Notre Dame. Mas o que realmente fazia Chaney ser respeitado como ator era o seu grande talento em dar pungência às emoções de seus personagens através de puro trabalho corporal, sem nunca soar teatral. Assim sendo, é fácil notar o desafio que Chaney recebeu ao aceitar protagonizar O Monstro do Circo, onde vive um criminoso que passa a maior parte da obra fingindo não ter braços.

Dirigido por Tod Browning, O Monstro do Circo situa-se na velha Madrid, e acompanha Alonzo (Lon Chaney) um criminoso fugitivo, que se escondeu em uma trupe circense fingindo ser um homem sem braços, mas incrivelmente habilidoso com os pés, sendo capaz de atirar facas com precisão. Alonzo, entretanto, acaba se apaixonando por sua assistente e filha do dono do circo, Nanon (Joan Crawford), que nutre grande carinho por ele. Quando Malabar (Norman Kerry) o homem forte do circo também se apaixona por Nanon, Alonzo decide ir até às últimas consequências para proteger o seu segredo e ficar com a mulher que ama.

Baseado no romance escrito por Mary Robert Rinehart, o roteiro escrito por Tod Browning e Waldemar Young cria um triangulo amoroso bastante distorcido, ao fazer da mocinha vivida por Joan Crawford, em um de seus primeiros papéis no cinema, uma garota que tem fobia de braços masculinos, devido a aversão que sente de ser tocada. Assim, como em um bom thriller psicológico, vemos Alonzo manipulando a fobia da jovem, de modo a afastá-la de seu outro pretendente, manipulação que se torna mais intensa tendo em vista que o vilão de Chaney é um homem supostamente sem braços, e seu rival romântico vive da exposição de seus músculos.

O roteiro trabalha com muito subtexto, deixando muitas coisas para a imaginação do público. Nunca conhecemos detalhes do passado criminoso de Alonzo, a não ser a razão pela qual ele esconde os braços, que é para ocultar o seu polegar duplo (o que pode identificá-lo por crimes anteriores). Entretanto, nos são dados indícios o bastante para conjeturar sobre esse passado. Da mesma forma, o roteiro parece tratar a fobia de Nanon tanto como uma possível metáfora para a repressão sexual imposta pelo pai, como um possível reflexo da rotina de exibição e assédio a que a jovem é exposta em suas apresentações circenses. O roteiro nos dá espaço para tirar nossas próprias conclusões sobre as fobias de Nanon, ao não ser óbvio em suas metáforas, mas ainda mantendo a simplicidade. Não que Nanon tenha um arco próprio, pois Joan Crawford funciona mais como um colírio que impulsiona os outros personagens, mas há um contexto interessante em torno das fobias da personagem.

O diretor Tod Browning, mesmo contando com poucos cenários consegue dar um ar lúdico e assustador ao ambiente do circo. Ao mesmo tempo, o cineasta (que possui ele mesmo origens circenses) consegue criar uma atmosfera familiar entre os membros da trupe, um aspecto que aprimoraria poucos anos depois, ao dirigir a obra-prima Freaks (1932).

Há um tom de melodrama em O Monstro do Circo, mas não aponto isso como um defeito. O clima de tragédia iminente que perpassa todo o filme de Browning é palpável, à medida em que a paixão obsessiva de Alonzo por Nanon cresce cada vez mais descontrolada. Mérito deve ser dado ao roteiro pela construção do vilão, que mesmo retratando Alonzo como um homem mesquinho e cruel, consegue conferir humanidade ao personagem, o bastante para que o público consiga relacionar-se com ele.

Claro, isso não seria possível sem a fantástica atuação de Lon Chaney como o protagonista. A lascívia no rosto de Alonzo durante as cenas de apresentação em que o atirador arranca as peças de roupa de Nanon arremessando facas é perturbador, mas também sutil. Mas apesar deste aspecto sinistro, percebemos que o criminoso fica genuinamente tocado com as demonstrações de afeto e confiança da jovem assistente, mostrando alguma humanidade por trás de toda a vilania. Mas Chaney coloca definitivamente Alonzo em sua lista de grandes personagens, na angustiante passagem para o 3º ato, quando após descobrir que fez um terrível sacrifício em vão, vemos a sanidade deixando o homem diante dos nossos olhos, em um grande trabalho do “Homem de Mil Faces”, que não necessitava de maquiagem para merecer este título. Falando da parte mais prática do trabalho corporal de Chaney para o papel, o ator contou com a ajuda do artista performático Paul Desmuke, que de fato não tinha braços e cujas pernas e pés serviram de dublê para Chaney nas cenas em que Alonzo manipula armas e cigarros com os pés.

O Monstro do Circo é um thriller psicológico inquietante e maduro para o período, com reviravoltas perturbadoras e um vilão multifacetado muito bem defendido por Lon Chaney, que consegue nos revoltar e nos comover. Um bom flerte com o terror melodramático que tenciona a figura do “monstro”, tema que Tod Browning revisitaria com ainda mais pungência poucos anos depois com Freaks, mais uma vez tendo um circo como palco.

O Monstro do Circo (The Unknown), Estados Unidos, 1927.
Direção: Tod Browning
Roteiro: Tod Browning, Waldemar Young (Baseado em Romance de Mary Roberts Rinehart)
Elenco: Lon Chaney, Joan Crawford, Norman Kerry, Nick de Ruiz, John George, Frank Lanning, John St, Polis, Louise Emmons, Billy Seay, Julian Rivero.
Duração: 56 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.