Crítica | O Monstro do Mar Revolto

Apesar de sua aparência grotesca, o polvo é um dos gênios do oceano, você sabia? No Aquário Nacional da Nova Zelândia, um funcionário deixou a tampa de um espaço aberta. O polvo Inky, uma das atrações do local, saiu, atravessou um corredor e adentrou por um cano sinuoso de 50 metros que desembocava no mar. A sua fuga foi apontada por estudiosos como um caso espetacular da natureza. Por conta de suas características “monstruosas”, o cefalópode já foi tema de diversos filmes assustadores, alguns realmente tensos, outros absolutamente de péssima qualidade dramática e estética. Em 1955, O Monstro do Mar Revolto foi lançado e assustou bastante gente em cinemas drive-in ao redor dos Estados Unidos. Era uma fase rentável para o horror ecológico e para as produções de invasões alienígenas, algumas das paranoias do pós-guerra.

Sob a direção de Robert Gordon, tive uma boa impressão desde o seu começo. Com um enquadramento fixo numa região onde as pedras servem de obstáculos para quebrar as ondas do mar rebelde, os créditos sobem pela tela, acompanhados de uma música forte. No enredo, dirigido com base no roteiro escrito por Harold Jacob Smith, inspirado numa história própria, construída em parceria com George Worthing Yates, a trama nos apresenta um polvo gigante que após ser contaminado por elementos radioativos, oriundos de testes com bombas atômicas, ataca o submarino comando por Pete Mathews (Kenneth Tobey), situação que cria o conflito que conduzirá a história, isto é, basicamente, a perseguição do estadunidense heroico em busca da ordem na sociedade após a eliminação do “inimigo”.

Os militares sob o comando de Matthews seguem numa saga nos padrões de uma grande guerra, tendo em mira destruir o monstro que começa a se articular em terra e aproxima-se de São Francisco, o que promete muita destruição. Dentre os integrantes do grupo, há a professora Lesley Joyce (Faith Domergue) e Dr. John Carter (Donald Curtis). Interessante observar o papel de destaque ofertado para uma mulher ainda nessa época, personagem bem diferente das donzelas em perigo diante do ataque de monstros selvagens em fúria. Ela é inteligente, coordena parte dos momentos importantes de pesquisa e sai do exclusivo lugar do personagem que precisa ser salvo por algum macho viril. Há, em determinados trechos, espaço para o “amor”, mas nada que desqualifique a presença da professora em cena.

Com Henry Freulich na direção de fotografia e Mischa Bakaleinikoff na condução sonora, O Monstro do Mar Revolto garante ao público imagens e sons envolventes. A cenografia e a direção de arte também cumprem as suas funções, mas sem nada de muito especial. O monstro que destrói a Golden Gate possui apenas seis tentáculos, detalhe que passa imperceptível diante do espectador, pois sempre que aparece está em constante movimento. O responsável por sua criação foi Ray Harryhausen, considerado um dos mestres dos efeitos especiais na época. Idealizador das criaturas de A Ilha Misteriosa, de 1961, uma das mais famosas traduções intersemióticas do livro homônimo de Julio Verne. O design de som de J. S. Westmoreland e os efeitos visuais de Jack Erickson colaboram com os demais aspectos da criatura em cena, divertida e insana em seus últimos ataques nas ruas de São Francisco.

Ao longo de seus 79 minutos, O Monstro do Mar Revolto é uma aventura bem superior aos filmes sobre polvos e lulas lançados posteriormente. A história, mais empolgante, os efeitos especiais datados causam maior envolvimento que as tentativas artificiais de uso indevido do CGI dentre muitos realizadores mais contemporâneos, além de outras qualidades, diferentes de outros exemplares esquecíveis. Oriunda dos testes atômicos realizados no Oceano Pacífico, a criatura do filme é parte das produções da época que retratavam os ataques alienígenas. Foi uma época de bastante paranoia e o cinema abordou esse tecido social com muito detalhismo e criatividade. Não estamos diante de um grandioso filme, mas podemos classificá-lo com uma produção que consegue algum destaque dentro do subgênero em questão: o horror ecológico.

O Monstro do Mar Revolto (It Came From Beneath The Sea/Estados Unidos, 1955)
Direção: Robert Gordon
Roteiro: Harold Jacob Smith, George Worthing Yates
Elenco: Kenneth Tobey, Donald Curtis, Faith Domergue, Ian Keith, Dean Maddox Jr., Chuck Griffiths, Harry Lauter
Duração:  79 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.