Único romance de Emily Brontë, que faleceu aos 30 anos no ano seguinte do lançamento e que foi originalmente publicado sob o pseudônimo Ellis Bell, O Morro dos Ventos Uivantes, que não fez sucesso imediato, é, hoje, considerado um dos grandes clássicos românticos da literatura inglesa, um épico sobre amor, vingança e preconceito que desafiou as convenções vitorianas da época e que continua, mesmo tanto tempo depois, oferecendo resistência à visões mais conservadoras sobre família, posição da mulher na sociedade e divisão de classes. Meu primeiro contato com a obra, para além do “ouvir falar”, foi indireto e deu-se há muitos anos com o fenomenal, mas pouco lembrado longa Escravos do Rancor, de 1954, produzido durante a fase mexicana do cineasta aragonês Luís Buñuel, seguido da provavelmente mais famosa adaptação do romance para o audiovisual, o filme de 1939 que carrega o título do livro capitaneado por William Wyler e protagonizado por Laurence Olivier e Merle Oberon, duas versões que são angustiantes e que evocam a desolação da alma como poucas, mas que empalidecem diante do que a autora consegue fazer em seu romance.
Para já lidar com o elefante na sala, não consegui gostar da estrutura utilizada por Brontë. Ela usa o artifício de enquadramento para nos apresentar ao Sr. Lockwood, inquilino de Thrushcross Grange que, em 1801, visita seu senhorio Heathcliff, em Wuthering Heights, sendo pessimamente recebido, mas tendo que pernoitar por lá em razão de uma nevasca. Isso o leva a ler os diários de Catherine Earnshaw e a ver seu fantasma, retornando doente à sua casa e sendo tratado por sua governanta Ellen “Nelly” Dean que trabalhara em Wuthering Heights e que, então, começa a contar o que acontecerá por lá há 30 anos. Os longos meandros labirínticos que a autora emprega cansam um pouco e levam a uma demora no engajamento completo do leitor, mesmo que os mistérios sobre Heathcliff e Catherine sejam inegavelmente interessantes. E, mesmo quando a história está em pleno andamento, o ritmo narrativo é cambaleante e por vezes repetitivo, com idas e vindas tanto espaciais quanto temporais que complicam desnecessariamente a progressão.
Dito isso, é absolutamente fascinante ver como Emily Brontë aborda o amor que, para mim, é o tema central de seu romance. E meu fascínio pelo que ela escreve vem do fato de ela lidar com o amor pelo metódico e expansivo uso da exclusão, ou seja, abordando todos os demais sentimentos e atitudes adjacentes e opostos ao amor para que o leitor, então, conclua o que é o amor. Brontë mergulha em paixão, obsessão, lealdade e saudade para mostrar que esses até podem ser aspectos do amor, mas eles são individual ou conjuntamente, insuficientes para caracterizar e dar sustentação ao amor. A mesma obsessão é também encarada como antítese do amor, assim como a raiva, o rancor, o preconceito, a vingança, a divisão de classes, a violência, o desdém e toda a constelação de sentimentos e atitudes corrosivos que perpassam cada página do romance, com a pegada gótica da autora na forma como ela vividamente constrói a desolação que é a região em que se passa sua história, com casarões caindo aos pedaços, ventanias incessantes, chuvas devastadoras e nevascas congelantes, transformando a natureza em manifestação dos horrores da alma humana.
Heathcliff é um homem amargo, endurecido por anos de preconceito racial e social que sofre por ser adotado e por ser encarado como de “raça diferente” daquela sancionada na região, com uma etnicidade para o personagem que o texto deixa indefinida, ora mencionando “cigano de pele escura”, ora Lascar (marinheiro do subcontinente indiano) e por vezes até mesmo um náufrago espanhol ou americano, algo que vejo como uma tentativa de autor de deixar muito claro o preconceito generalizado em relação a qualquer um que seja diferente e que tenha a coragem de almejar posições na vida mais altas do que a de servos. É o amor impossível de Heathcliff por Cathy, a Catherine Earnshaw cujo espírito o Sr. Lockwood vê no início, que serve de combustível para que Brontë promova a referida varredura e exploração de todos os sentimentos opostos ao amor para justamente “qualificar” o amor, algo que me deixou pessoalmente exaurido durante a leitura e que me fez imaginar como devia ser torturada – apesar de brilhante – a mente da jovem autora.
É também interessante notar que os dois narradores centrais – Lockwood e Nellie – especialmente a segunda, podem ser encarados como não confiáveis, cada um tendendo à natural subjetividade e parcialidade a partir de suas próprias experiências, o que empresta um ar de vilania à Heathcliff que precisa ser encarado como alguém bem mais complexo do que parece ser. E é desafiador notar que Brontë não se contenta em nos oferecer apenas esses dois pontos de vista, por vezes levando o leitor também para a mente de Heathcliff, Cathy e até mesmo de Isabella Linton, personagem tragicamente usada como marionete no plano de vingança de Heathcliff contra Edgar Linton, que se casa com Cathy. A multitude de nomes, relacionamentos, conexões familiares e conexões entre os habitantes de Thrushcross Grange e Wuthering Heights, no passado e no presente, trazem diversas outras camadas ao romance que acaba abordando uma quantidade grande de temas que, porém, decorrem do amor entre Heathcliff e Cathy, identificando-o, colorindo-o e mostrando que ele existe apesar de tudo e todos conspirarem contra.
Ler O Morro dos Ventos Uivantes é como caminhar por areia movediça, exigindo esforço hercúleo a cada movimento para acompanhar, sem afundar no desespero, esse épico duro, doente e física e mentalmente violento que faz de seus personagens verdadeiros avatares da dor e do desalento. Emily Brontë triunfou em seu único romance, legando ao mundo uma história imortal que não facilita absolutamente nada e obriga que os leitores caminhem pelo inóspito mundo de personagens intragáveis que ela cria para nos mostrar do que é feito o amor.
O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights – Reino Unido, 1847)
Autoria: Emily Brontë
Editora original: Thomas Cautley Newby
Data original de publicação: 24 de novembro de 1847
Editora no Brasil: Penguin-Companhia
Data de publicação no Brasil: 19 de julho de 2021
Tradução: Julia Romeu
Páginas: 464
