Crítica | O Morto do Pântano

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O Morto do Pântano, assim como o seu criador Eugênio Colonnese, é um marco clássico dos quadrinhos brasileiros. Criado no ano de 1967, na revista Mirza, Mulher Vampiro, da editora Jotaesse, o personagem deveria fazer um contraponto dramático às histórias de sedução e vampirismo protagonizadas pela anfitriã da publicação. Com este novo personagem, Colonnese pretendia colocar em cena o horror e a violência dentro de um cenário de crime e fugas, fazendo uma oposição à figura terrível de seu Morto lodoso com a inclinação mortal que ele apresentaria logo nas primeiras páginas do conto Sou… (para todos os efeitos, ele é um anti-herói!).

Caótico, cínico e, a partir da segunda história desse compilado (Erva Maldita!!!) cheio de humor, o Morto do Pântano diverte-se com seu “trabalho de morte“, vingando os injustiçados e punindo assassinos e bandidos que, por azar ou carma, entraram em seu território alagadiço. Numa lista de alvos composta por assassinos, ladrões e traficantes, o personagem vive perambulando por todo o seu domínio, decepando cabeças com a maior felicidade, fazendo piadas sobre o espanto dos criminosos que enfrenta e colocando uma ou outra reflexão maldosa para o leitor pensar. Se nós subtrairmos alguns erros no desenvolvimento dessas histórias, especialmente na finalização da maioria delas, teremos algo de interessante ou engraçado para ler e nos divertir, no sentido mais macabro possível.

Sou: o Morto do Pântano… (1967) é a primeiríssima história desse personagem, escrita por Luis Quevedo (ou, como assinaria depois, Luis Meri). Apesar de não ter realmente uma boa apresentação do Morto do Pântano — em termos de origem ou algo parecido –, a trama mostra de maneira bastante sombria um cenário abandonado, além de estabelecer um estranho diálogo com o leitor, piscadela metalinguística que ocorre nas sete histórias desse compilado. Aqui na estreia, dois ladrões com uma enorme fortuna fogem a toda velocidade, em uma noite de forte chuva. Tudo colabora para gerar medo, algo ainda mais intensificado na cena na mansão abandonada próxima ao pântano, com cada um dos bandidos tendo uma morte diferente, ao fim, numa das melhores sacadas dessa primeira história.

primeiras páginas de o morto do pântano

Em Erva Maldita!!! (1968) temos um grito de guerra conta… adivinhem só… a maconha! No conto, dois homens encontram uma bonita plantação de maconha perto do pântano e resolvem fazer a colheita da erva para poder vender. Mas o mato, claro, tinha dono: o Morto do Pântano. O fato de ler essa história 51 anos depois que ela foi escrita e ver a maneira como a erva é retratada aqui se torna algo bastante engraçado. O autor (Luis Meri) faz a total representação espantosa da época, colocando a erva como algo tão imensamente horrendo que só poderia ser o tipo de coisa que o Morto do Pântano teria em seu jardim. Eu ri demais aqui. A propósito, é justamente nessa trama que as piadas cínicas do Morto começam a aparecer, o que torna tudo ainda mais impagável.

Os Pernilongos! (1968) é a pior história de todo o compilado. Um mal arranjo de texto que fala de dois amantes combinando um assassinato. A trama é cheia de clichês e, exceto pelos pequenos momentos do Morto do Pântano, é difícil selecionar algo realmente bom aqui. Nem a arte de Colonnese ajuda muito. E para piorar, o pobre do protagonista só narra a história, que age mesmo são os tais pernilongos do título. Chato demais. Na sequência, porém, somos compensados pela hilária e maluca O Calhambeque Vermelho! (1968) que só pela cena final, do Morto tentando negociar a vida de um ladão pelo calhambeque, já valeria a pena.

Na reta final nós temos a excelente A Pequena Sílvia (1982), onde o Morto se encontra com uma bela menininha que o chama de vovô. Ela está procurando sua cachorrinha perdida no pântano e é salva, em dado momento, pelo macabro “vovô”. Depois, a quase-origem do Morto em Corpos Sem Cabeças Não Falam… (1985), que vale bastante pela ideia de mito e oralidade, mas não alça voo muito mais alto que isso não. Por fim, Mau Cheiro (1986), outra história de parceiros no crime onde o resultado não é positivo para nem um dos amiguinhos.

plano critico morto do pantano com dedo no nariz

Cheia de frases cínicas do Morto do Pântano e uma excelente e aterradora representação  do personagem pelo seu criador Eugênio Colonnese, essas histórias compiladas pela Opera Graphica, em 2005, nos dá uma boa dimensão sobre essa estranha figura dos quadrinhos brasileiros, sempre com seu afiado machado em punho, fazendo com que a justiça chegue para aqueles que acham que driblaram a lei com seus “crimes perfeitos”. Não há crime perfeito às margens do amado pântano do Morto. Sua grande coleção de cabeças decepadas é a prova disso.

O Morto do Pântano (Brasil, 1967 – 1986)
Coleção Opera Horror n°2 (Opera Graphica, 2005)
Roteiro: Luis Quevedo (Luis Meri), Osvaldo Talo, Reinaldo de Oliveira
Arte: Eugênio Colonnese
83 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.