Crítica | O Mulato, de Aluísio de Azevedo

Raimundo: homem de olhos azuis, no auge dos seus 26 anos de idade. Cabelos muito pretos e lustrosos. Pele morena e amulatada, mas fina. Dentes claros que reluziam a negrura de seu bigode. Pescoço largo e estatura alta, elegante, com sobrancelhas muito desenhadas no rosto. Gestos nobres, educados, sóbrios, despidos de pretensão. Falava em voz baixa. Vestia-se de bom gosto e amava as artes, em especial, a literatura. Essas são as características do protagonista de um dos primeiros romances naturalistas da literatura brasileira, O Mulato, publicado pelo maranhense Aluísio de Azevedo em 1881.

Quando lançado, o Brasil passava por reajustes em sua “ordem social”, contexto bem delineado nesta obra dividida em 19 capítulos. Nos romances de Aluísio de Azevedo, encontramos uma radiografia sociológica de cenas do cotidiano brasileiro em meados do Segundo Reinado e nos primeiros momentos de uma nação republicana, mergulhadas em suas contradições desde que era colônia europeia, saqueada cotidianamente. Graças ao seu posto de escritor, dramaturgo, ilustrador e cronista, o autor circulou por diversos espaços da sociedade e com a experiência, adquiriu a destreza ideal para flertar com as temáticas presentes em sua obra.

Na trama, somos envolvidos pelo que é contado pelo narrador que busca nos envolver com sua descrição cheia de detalhes sobre “o meio que tanto corrompe os seus habitantes”. Raimundo partiu para Lisboa desde pequeno, logo após a morte de Domingas, a sua mãe. Estudou, teve boa formação, voltou ao Brasil e passou um breve período no Rio de Janeiro, até que se deslocou para São Luís, tendo em vista retornar às suas origens.  É recepcionado bem pela família, em especial, por Manuel Pescada, o seu tutor. O problema é que diante da paixão que se estabelecerá entre ele e Ana Rosa, a sua prima, o preconceito vai “gritar” mais alto.

A paixão é mútua. O casal, no entanto, encontra três obstáculos: o pai da moça, homem que não aceita o relacionamento por motivos bem próximos ao da monstruosa avó Maria Bárbara, representação humana do racismo, além de Cônego Dias, padre que possui conexão com o passado de Raimundo e se tornou naturalmente um de seus inimigos velados. Toda essa trama tem ramificações bem mais complexas. No passado, José Pedro da Silva, pai de Raimundo, é um homem que fornece bastante atenção para o garoto e sua mãe, Domingas, ex-escrava de sua residência. Ao se casar com Quitéria, ele sequer imagina o ciúme que despertará na esposa, mulher cruel que manda açoitar Domingas, além de queimar as suas partes genitais. Assustado com o comportamento da esposa, José Pedro da Silva desloca-se com Raimundo e o deixa na casa de seu irmão, em São Luís.

Ao retornar, pega a sua esposa em adultério com o Padre Diogo (Cônego Dias) e num ato de fúria, mata Quitéria. Como para ambos a situação se oferta como um escândalo, há o estabelecimento de um pacto de cumplicidade. Mais adiante, no entanto, depois que tudo parecia resolvido e amenizado, Silva é tocaiado e morto covardemente por uma ação do padre. Raimundo sequer conhece a história. É em seu retorno que o cenário começara a se desenhar, pois em sua busca constante por respostas, acaba mexendo em segredos que para muitas pessoas que gravitam em torno de sua existência, era melhor ficar bem enterrado. Assim, a história transita para o seu desfecho que já indica a presença do trágico.

Com ressonâncias de Émile Zola, Aluísio de Azevedo deixa minar em seu enredo, tópicos como a abolição da escravatura, os papeis desempenhados pela igreja na política e no bojo da sociedade, as manifestações naturalistas/realistas nas artes, reflexo dos assuntos cotidianos, o declínio da economia açucareira e a vertiginosa urbanização, tema este que desagua posteriormente em O Cortiço. Parte integrante de uma nação tomada pelo analfabetismo, Aluísio de Azevedo foi um dos poucos escritores que “viveu” por conta da sua produção, tendo se dedicado ao campo da diplomacia depois que já havia considerado suficiente o tempo de dedicação ao terreno pouco fértil da ficção, algo que lhe traria apenas reconhecimento póstumo.

Sobre a estrutura, O Mulato traz personagens coadjuvantes que não apresentam muito aprofundamento psicológico, mas contribuem para o desenvolvimento da ação.  Cônego Dias assume o papel demoníaco de “vilão” da história, homem hipócrita, devasso e com passado obscuro, pois foi o responsável pela morte do pai de Raimundo e também o influenciador da morte do rapaz, após “fazer a cabeça” de Luís da Silva, funcionário de Manuel Pescada, pai de Ana Rosa. O interesse de Pescada, um homem esclarecido, leitor de jornais diários e dono de um pequeno empreendimento na cidade, era casar a sua filha com Silva, dando-lhe um destino menos polêmico que o romance com Raimundo, um filho de escrava que não trazia a base familiar idealizada numa cidade tomada pelo racismo.

São Luís, por sinal, é mais que um espaço cênico, pois de tão viva, se impõe como personagem. Por suas ruas, homens e mulheres negros cumprem as suas tarefas. No interior das casas, as pessoas brancas gozam de seus privilégios. Sobre as mulheres, as que não estão recolhidas em seus afazeres domésticos, ocupam um posto pouco respeitado por circular em sociedade. Com narração atmosférica, imersiva, O Mulato apresenta ao leitor um clima fúnebre em diversas passagens, até mesmo nos momentos de descontração. É a prévia da tragédia que se estabelecerá na vida de Raimundo, um homem que para alguns recalcados, não merecia prover de tanta pompa, afinal, era “um negro e deveria se por em seu devido lugar”.

De uma atualidade hedionda, todas as características descritas sobre Raimundo, como percebemos, não o torna um privilegiado. Ele sofre as agruras do racismo velado, estruturado e espalho como um rizoma pela sociedade, já naquela época. Imagina, então, a vida dos mulatos da contemporaneidade? Um caos, não é mesmo? Só não acha isso quem vive em torno do mito da democracia racial brasileira, história tão cabulosa quanto o tal “sonho americano”. O cinema, o teatro, a televisão, a publicidade, e atualmente, as redes sociais, demonstram diariamente histórias semelhantes ao destino de Raimundo e Ana Rosa, personagens moldados no âmbito literário, criados com base em tensões da realidade.

Ademais, O Mulato é uma publicação que fez um ousado projeto de divulgação, algo pouco comum na época. Aluísio de Azevedo preparou o terreno de São Luís para o seu lançamento, tendo em vista algumas estratégias incomuns até mesmo no Rio de Janeiro, o “centro de todas as coisas” no Brasil em caminhada para o final do século XIX. Cartazes, panfletos e outros recursos na imprensa tornaram o romance uma sensação antes mesmo de sua disponibilidade para os poucos leitores que naquele momento, detinha a possibilidade de acompanha-lo. A recepção não foi calorosa e teve até crítico mandando o escritor fazer trabalhos braçais e abandonar a escrita, haja vista a vulgaridade de sua temática, desrespeitosa com elementos políticos e religiosos da sociedade maranhense.

O Cortiço (Brasil, 1881)
Autor: Aluísio de Azevedo
Editora: Ática – Série Princípios
Páginas: 247

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.