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Crítica | O Mundo (2004)

por Frederico Franco
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Desde a Revolução em 1949 a China aspira em se tornar vanguarda no ramo das modernizações. Erroneamente atribuídos apenas a Deng Xiaoping, os primeiros movimentos para o desenvolvimento moderno/industrial do país remetem ao líder revolucionário Mao Tsé-tung. Durante os primeiros anos após a Revolução, referentes ao primeiro plano quinquenal, o governo maoísta foi responsável direto por uma massiva reforma agrária, resultando em um crescimento da produção agrícola que, inevitavelmente, serviu de base para um aumento da economia chinesa. Com o setor primário desenvolvido suprindo as demandas de matéria prima da indústria, os empreendimentos do setor secundário apresentaram franca evolução. 

Durante 1953 e 1957, o PIB chinês cresce mais de 4% ao ano, projeção que seguiu adiante mesmo após o fracasso do Grande Salto Adiante, ousada política de modernização do país em tempo recorde. Após a saída de Mao, a indústria pesada já era protagonista na economia da China, propiciando o sucesso dos planos desenvolvimentistas de Xiaoping nos anos 1980. Passados mais de 70 anos da Revolução Chinesa, o país é, hoje, uma das grandes potências desenvolvimentistas do mundo, sendo exemplo em infraestrutura e ciência.

Tendo vivido sua adolescência durante o período do fim da era de Mao, Jia Zhangke viu seu país tornar-se um dos estados com maior índice de modernidade do universo. Nascido em Fenyang, na província de Shanxi, Zhangke voltou boa parte de sua atenção cinematográfica para sua terra natal. Passado o tempo, ganhando notoriedade ao redor do mundo dos festivais internacionais, o diretor passou a adotar um olhar mais geral a respeito de seu país, lidando com questões que tangem a cultura e história nacional como um todo. É importante salientar, também, que a estética de Jia Zhangke é um primordialmente realista, mas com pontuais elementos de fantasia – este recurso é fundamental para um maior entendimento de suas obras.

O Mundo é sua primeira produção com maior investimento, tendo grande participação executiva do governo chinês. Dentro do universo do filme, somos apresentados a Tao, jovem dançarina, que possui um conturbado relacionamento com um guarda do parque onde trabalha. The World, nome do complexo, é uma estranha instalação com ares de Epcot Center onde o público entra em contato com reconstruções de famosos monumentos, como a Torre Eiffel e a própria Las Vegas. 

A metáfora narrativa do parque é referente à crescente globalização e modernização do início dos anos 2000. Durante esse período, o PCCh realizou um movimento de abertura de seu mercado interno, permitindo a entrada de maior parcela de empresas vindas do exterior. Dessa maneira, o parque aqui tratado pode ser visto como um reflexo de um maior fluxo de contato com diversas outras etnias e culturas. As tecnologias do local também chamam a atenção por seu caráter avançado, fugindo daquilo que era visto até então. Entretanto, o grande trunfo de Zhangke está em não apenas se apoiar na simbologia narrativa; o diretor vai além e desenvolve, a partir de uma mise en scène que flerta entre o formal e o casual, um ensaio sobre a modernidade. Apresentados em longos planos sequências, com raras intervenções da montagem, os protagonistas – termo recusado pelo diretor dentro da obra – se posicionam de maneira distante ao espectador. Em raros momentos, Zhangke nos permite maior proximidade dos personagens, criando um efeito de distanciamento crítico (e até mesmo moral) das estrelas de O Mundo. Tal efeito criado por uma mise en scène minuciosa desperta um sentimento comum dentro do mundo pós-moderno: as dificuldades da criação de laços afetivos; as relações interpessoais no filme parecem voláteis e quase impessoais, tangenciando aquilo que Bauman chamaria de liquidez dos relacionamentos de nossos tempos.

Mesmo com o desenvolvimento da ideia de interações distantes entre personagens que, até mesmo dentro do próprio plano, se mantém relativamente longe um dos outro, Jia Zhangke discura sobre a problemática da comunicação dentro da pós-modernidade. Enquanto, durante o relacionamento central da trama, nos vemos longe dos protagonistas, apenas observando as contradições do amor dos dois, Zhangke desiste de sua visão, de certa maneira, pessimista em sequências específicas. Tao e uma jovem bailarina russa criam, talvez, a única relação realmente pura do filme. Mesmo com as barreiras étnicas e linguísticas, o diretor constrói uma atmosfera afável entre as duas; a mise en scène, baseada a partir de maior intimidade entre a diegese e o espectador, dá ao filme um caráter afável dentro desses fortuitos momentos. Neles, Tao e Anna estão próximas uma da outra e, sobretudo, Zhangke faz questão de permear o quadro com uma fotografia clara, permitindo ao espectador uma visão límpida daquilo que se passa perante seus olhos.

Se há pureza entre Anna e Tao, um elemento do filme é próprio para destruir tudo aquilo que parece natural aos olhos do público. Os inserts animados ultra coloridos compõem aquilo que pode ser denominado como elemento fantástico da obra de Jia Zhangke. O efeito causado por elas, aqui, é quase imediato: um choque entre o natural opaco e o artificial vibrante. Sem nenhuma transição suave entre o real e o imaginário, o diretor consegue, por meio dessa montagem de atrações, expôr o impacto sofrido por ele próprio ao ver seu país tornar-se uma potência tecnológica. 

O fio condutor entre o mundo físico dos protagonistas e a nova realidade colorida está posicionado na figura dos telefones celulares, símbolo do desenvolvimento das novas tecnologias. Com isso, o diretor estabelece uma reflexão que segue vigente dezesseis anos após a finalização de seu longa. Se a realidade é modorrenta e letárgica, o ser humano encontra nos dispositivos tecnológicos um subterfúgio; para filósofos como Flusser e Benjamin, as tecnologias são responsáveis pela reprodução distorcida e, a certa maneira, encenada da realidade material. Ao contrário do que se encontra atualmente com redes sociais, o conteúdo destas não é real, muito longe disso: é um simulacro controlado e estetizado da vida – é exatamente esse processo que faz Zhangke com as animações, que contrastam com a vida dos protagonistas.

O debate acerca das representações e manipulações do real são levados a outra esfera que foge especificamente das relações entre os personagens. Dentro do parque The World são realizados shows de dança referentes a diferentes culturas. Novamente, o contraste entre as performances e a realidade dos protagonistas é fundamental para uma compreensão da obra. Além do choque cromático, o trabalho de câmera atua como condutor para a ideia dos novos modelos de relacionamentos na pós-modernidade. Se durante o cotidiano de Tao e dos outros a câmera opta por uma abordagem democrática, quase indiferente, durante os shows percebe-se o uso de lentes teleobjetivas, dando a impressão de proximidade da ação cênica. A partir disso, vê-se uma referência para as relações mediadas pelas tecnologias, que concedem ao usuário uma falsa ideia de aproximação do interlocutor. Observando este fenômeno com um olhar mais positivista, é plausível entender que os avanços tecnológicos permitem ao ser humano a possibilidade de interação com distintas culturas por mais que exista todo um oceano físico que os separe.

As intervenções contemporâneas não se posicionam apenas no ramo da comunicação. Jia Zhangke faz questão de mostrar, dentro de belíssimos planos master, a intervenção de formas arquiteturais na paisagem chinesa. Árvores são atravessadas por enormes figuras monolíticas de concreto cinza, provavelmente oriundas de construções. A natureza é, portanto, atravessada pela ação humana, criando composições entre o natural e o arquitetural – integrando, dessa maneira, prédios e natureza. Tal descrição pode vir a soar como um mote da land art, mas a visão dada pelo diretor não é próxima daquela adotada pelos artistas da corrente aqui citada. Enquanto estes propõem uma união do espaço natural com a atuação artística, em O Mundo observa-se a pesada interferência de construções humanas no ambiente da natureza. 

O fenomenal dessa obra de Zhangke, e de quase toda sua filmografia, é como o diretor consegue versar sobre temáticas coletivas a partir de dramas meramente casuais e individuais. Por mais que dê um olhar atento a seus personagens, não deixa, também, de conceder à obra um senso de coletividade, negando ao espectador qualquer indício de suposto protagonismo. Tal movimento é trabalho, de modo igualmente magistral, em Plataforma, filme responsável por alavancar sua carreira. 

A modernidade chinesa é uma conquista de um trabalho que dura mais de 70 anos. O percurso percorrido pelos governos da China, desde Mao até Jinping, é repleto de falhas, mas hoje os resultados são excepcionais. Contudo, por mais que a modernização tenha vindo para revolucionar o estilo de vida de todos, hábitos costumeiros foram esquecidos, chocando uma significativa da população. Com ela, também, os amores líquidos dominaram as relações interpessoais. A completa de Jia Zhangke é um prato cheio para aqueles que possuem interesse nos estudos de relacionamentos pessoais na pós-modernidade. E O Mundo é, sem dúvidas, um de seus filmes cujo conteúdo é mais impactante. 

O Mundo (Shijie) – China, França, Japão, 2004
Direção: Jia Zhangke
Roteiro: Jia Zhangke
Elenco: Zhao Tao, Cheng Taishen, Jue Jing, Jiang Zhong-Wei, Yi-quan Wang, Wang Hongwei, Liang Jingdong, Shuai Ji, Wan Xiang, Alla Shcherbakova, Han Sanming, Wang Xiaoshuai
Duração: 143 min.

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