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Crítica | O Mundo de Apu

por Luiz Santiago
127 views (a partir de agosto de 2020)

SPOILERS!

Apur Sansar é o filme de encerramento da Trilogia de Apu, iniciada por Satyajit Ray em 1955, com A Canção da Estrada. Aqui nós encontramos o momento da vida adulta do protagonista, vivido por um outro ator, estabelecido em um outro espaço e sempre acompanhado pela aura de tragédia ou de uma amarga alegria que estiveram, o tempo inteiro, nas fases de sua vida que presenciamos nos dois longas anteriores.

Nesse encerramento, o roteiro de Satyajit Ray explora ao máximo a passagem do tempo. Nós já vimos alguns saltos na linha do tempo do personagem nos longas anteriores, mas este aqui é o mais episódico de todos os três, uma escolha de saltos no andamento narrativo que acaba se encontrando com o novo momento da vida de Apu, desempregado e tentando emplacar a carreira de escritor. Mesmo com vários cortes temporais podemos dividir o filme em duas grandes partes muito importantes, a primeira delas antes e a segunda depois da morte de sua esposa Aparna (Sharmila Tagore).

A morte não é uma novidade para Apu, mas sim uma verdadeira marca de sua vida — uma das milhares de vidas pelo mundo que passaram pela mesma caminhada de perda de pessoas queridas desde muito cedo. Sua orfandade é tão presente e tão marcante e influente, que uma das coisas que seu amigo Pulu (Swapan Mukherjee) diz a Aparna como características de Apu é justamente o fato de ele ser órfão. Para uma sociedade onde a família possui um papel tão imensamente presente na vida dos filhos, alguém que perde a mãe e o pai antes da vida adulta madura acaba tendo um diferencial notável em relação aos outros — o que contribui, no presente caso, para o pensamento mais “desenraizado” ou “não tão tradicional” de Apu em relação a esse tipo de laço.

Com isso em mente, é muito interessante notar como tal ausência prepara surpresas até em forma de dilema para o protagonista despreocupado. Seu casamento às pressas, substituindo um noivo que entrou em crise nervosa e “enlouqueceu” justamente no dia da cerimônia, é uma prova disso, uma espécie de situação forçada que rapidamente ganha tons de bênção inesperada. A sequência em que Apu conversa com Aparna, no quarto nupcial, é de uma delicadeza tremenda, fazendo-nos conhecer mais sobre o personagem, seu modo de encarar as coisas e sua aproximação a um território que lhe é estranho: o campo do amor. No final da sequência ele está rindo, pensando sobre o que os vizinhos iriam falar para ele, que saiu dizendo que ia viajar para assistir a um casamento, e voltaria para casa com uma esposa.

Em O Mundo de Apu, vemos um homem conectar-se com algo que lhe foi progressivamente negado pela vida no decorrer dos anos: a companhia no lar. Irmã mais velha, mãe e pai lhe deixaram muito cedo, forçando-o a um entendimento do mundo e das relações interpessoais um tanto diferente da maioria das pessoas ao seu redor, contraste fortalecido quando Pulu entra em cena. O casamento, portanto, lhe abre toda uma nova forma de se comportar, de escolher um trabalho, de olhar para as responsabilidades. Mas a jornada de Apu não é apenas sobre sofrer e ser parcialmente reparado pelo sofrimento. É também uma jornada de encontro consigo mesmo, em meio à dor e ao desespero.

Quando Aparna morre, Apu diz que via “sair por aí”, vai viajar, perambular, procurar a paz. Ter algo que ele não mais esperava ter e, pouco tempo depois, perder essa conexão destrói tudo o que tinha construído para si até aquele momento. A novela que escrevia perde sentido (enquanto a vemos espalhar-se por uma mata, jogada do algo de uma rocha, onde Apu olha o Sol no horizonte, numa panorâmica de tirar o fôlego — aliás, os focos de luz capturados pela câmera aqui são belíssimos, com destaque para a cena em que Aparna segura um palito de fósforo queimando perto do rosto) e o filho parece não existir.

Esse seu sepultamento simbólico, representado pela rejeição de si e de seu rebento, começa a ser verdadeiramente curado com uma reconexão diferente, não livre de obstáculos. Mas esta é uma cura bastante amarga. O filho não reconhece em Apu o seu próprio pai. E um jogo de representação, para ser aceito, é engendrado por esse homem que tanto sofreu, para ao menos ter o último fio de esperança da vida ligado a ele. A parte de seu mundo que não poderia deixar de lado, abandonada. Finalmente, e de forma bastante dolorosa, o mundo de Apu estava completo.

O Mundo de Apu (Apur Sansar) — Índia, 1959
Direção: Satyajit Ray
Roteiro: Satyajit Ray (baseado na obra de Bibhutibhushan Bandyopadhyay)
Elenco: Soumitra Chatterjee, Sharmila Tagore, Alok Chakravarty, Swapan Mukherjee, Tushar Bandyopadhyay, Gupi Banerjee, Panchanan Bhattacharya, Shanti Bhattacherjee, Jiten Bhons, Abhijit Chatterjee, Jogesh Chatterjee, Asha Devi, Belarani Devi, Sefalika Devi, Biren Ghosh
Duração: 105 min.

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