Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | O Mundo de Edena – Vol.2: Os Jardins de Edena

Crítica | O Mundo de Edena – Vol.2: Os Jardins de Edena

A busca pela iluminação e um processo de aprendizado.

por Luiz Santiago
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Publicado cinco anos após o lançamento de Na Estrela, Os Jardins de Edena segue com a viagem de Stel e Atan (a), iniciada de forma despreocupada, mas com uma sequência de eventos misteriosos, cósmicos, complexos e numa mistura de poesia e misticismo que rapidamente deixou tudo muito intenso para os leitores. A quantidade de perguntas que temos ao final do primeiro volume do Ciclo de Edena é bem grande e essa situação se estende para essa segunda fase da jornada, onde Moebius abraça o mistério e cria um novo tipo de situação misteriosa para os protagonistas. Após os questionamentos sobre a pirâmide da história anterior, temos os questionamentos sobre o local onde eles verdadeiramente estão, quem eles realmente são e qual o significado por trás de todos os acontecimentos que os envolve.

As experiências de Atan (a) e Stel nos jardins da presente história trazem uma reflexão de Moebius para a constituição e fragilidade de nossos corpos, a necessidade que temos dos alimentos e como, na visão do autor, isso poderia se dar no futuro. Como é de se esperar, estamos diante de uma história com múltiplas camadas, sendo as citadas no início do parágrafo as mais evidentes dentre elas. Quando a dupla acorda (já com fome) e se aventura em uma geringonça que os leva para os jardins de um lugar parecido com a Terra (referenciada várias vezes), temos a impressão de que eles ficarão à deriva por um tempo, até encontrarem algo tecnológico que os levarão para uma outra parte da jornada. Mas o autor não está interessado em brincar com ciclos de eventos históricos nessa série — ao menos não de maneira frequente e óbvia. Sua intenção é o desenvolvimento dos personagens sob uma perspectiva cada vez mais complexa e simbólica.

Peguemos a questão do gênero e da sexualidade dos personagens, para começar. Os alimentos sintéticos e as muitas mudanças que eles faziam em seus corpos inibiam a libido e impediam que eles fizessem a distinção de gênero entre si. A chegada de ambos nesse pequeno paraíso (impossível não fazer aproximações com o Jardim do Éden e ver em Atana e Stel uma espécie de Adão e Eva) vai pouco a pouco mudando essas condições mecanizadas que marcavam suas vidas. Eles experimentam pela primeira vez a água direto de um rio; comem frutos “proibidos” e observam como seus corpos respondem à passagem do tempo sem elementos sintéticos, culminando no nascimento de pelos no corpo e no impulso sexual desenfreado, onde temos Stel tentando estuprar Atana.

É bem interessante que depois da tentativa de estupro, as coisas mudam para os dois personagens. Atana foge e deixa Stel com uma culpa enorme. Sozinhos, ambos viverão situações que moldarão suas figuras, que darão novo sentido às suas vidas. É como se um mal exercício da sexualidade somado às muitas novidades de Edena trouxessem revelações e possibilidades impensáveis para esses dois indivíduos, que passam por alguns testes e algumas provações no plano dos sonhos e no plano da vigília. Enquanto na primeira metade do livro o roteiro acompanha a busca pela sobrevivência, a segunda parte mostra a humanidade por trás dessas duas pessoas perdidas. E aliado a tudo isso, o artista nos presenteia com desenhos e cores que indicam pura fantasia e misticismo, com um Ser luminoso e algumas fadas visitando Atana e Stel à noite, preparando-os para uma situação que só no final do volume é que descobrimos.

A luta onírica de Stel, o “encontro” com Atana e a possibilidade de realmente haver (pelo menos) dois planos de existência deixa Stel entre a angústia, a ansiedade e a esperança, o mesmo acontecendo com o leitor, que percebe o quanto a solidão está afetando o personagem. Em Os Jardins de Edena, Moebius nos faz refletir sobre o isolamento, sobre estar perdido em um lugar onde se tem muita coisa para aprender, mas onde há grande resistência inicial dos aprendizes, quebrada apenas pela passagem do tempo. É um quadrinho sobre deixar-se despir de ideias e comportamentos “civilizados” para adentrar a uma esfera de conhecimento anteriormente inalcançável. Em certa medida, pode ser considerada uma espécie de metáfora para a vida após a morte, para a adaptação de um corpo a um outro plano (o plano espiritual), lugar onde muito aprendizado deve acontecer à medida que vícios e chagas da “outra vida” são curadas.

Les Jardins d’Edena — França, setembro de 1988 
Editora original:  Casterman
No Brasil: Editora Nemo, 2013
Roteiro: Moebius
Arte: Moebius
Capa: Moebius
64 páginas

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