Se em A Deusa, Moebius focou na jornada de Atana pelo planeta Edena, mostrando como uma “mulher-Messias” era tratada e se integrava à realidade estranhíssima do Ninho, aqui em Stel, o protagonismo vai para o personagem-título, agora destacando como o lado masculino do equilíbrio lidava com a solidão, o desejo e a necessidade de encontrar sua companheira num mundo que insistia em não se livrar da opressão de uma liderança bizarra, mesclando autocracia e misticismo. Enquanto o volume anterior estacionava a ação dentro das paredes claustrofóbicas da metrópole subterrânea (após a “liberdade claustrofóbica” da floresta fechada que Atana percorria, nos primeiros quadros), este 4º Tomo da série joga Stel na imensidão selvagem de Edena e abre com uma fuga de um monstro bizarro, meio dinossauro, meio papagaio (pelo menos é isso que ele fala, mas eu não achei o bicho nada parecido com um papagaio!), que logo se mostra uma manifestação residual da Paterna, que consegue se reconfigurar em seres fracos (animais ou clones) para voltar a governar/influenciar o povo de Edena.
De cara, a aventura aqui é muito mais prática do que a anterior, com o protagonista se movimentando bastante, enfrentando obstáculos concretos e tomando decisões urgentes, ao passo que a concepção estética atinge um patamar ainda mais sofisticado, com uma belíssima aplicação de cores e diagramação mais expansiva — com desenhos bem mais detalhados, quadros maiores e alteração entre preenchimento máximo das páginas com cenários gigantescos e “simples” — que fazem das paisagens desérticas e vulcânicas um bom espetáculo visual com atmosferas distintas. Publicado pela Casterman em 1994, o álbum foi iniciado na Califórnia e finalizado na França, e incorpora de maneira bem perceptível as práticas de instintoterapia (instinctothérapie) e meditação às quais Jean Giraud estava ligado naquele período. Explorarei mais esse aspecto conceitual adiante.
O reencontro de Stel com Trollopen, personagem estranho de Na Estrela, traz a esta edição uma camada de continuidade que adensa os laços entre os náufragos cósmicos desse planeta e reforça a sensação de que Edena é um organismo vivo, muito além de mero cenário onde forças oníricas e físicas se fundem. Ao reparar a nave avariada de um grupo de Patrulheiros e seguir com eles até o segundo Ninho, Stel analisa as diferenças e semelhanças entre a cidade-mãe e a cidade-filha: duas variações do mesmo modelo de comunidade fechada, cada qual com suas particularidades de poder e controle. A grande questão aqui gira em torno do que a Paterna realmente quer; porque ela é, antes de tudo, uma ideia, e ideias não são verdadeiramente derrotadas por confrontos físicos ou mesmo em sonhos. Atana pode tê-la enfrentado no arco anterior, mas nem todos os resíduos daquela presença autoritária foram eliminados (me lembrou as horcruxes de Voldemort), e é justamente essa persistência astuta que coloca Stel numa armadilha mental criada para testá-lo e vencê-lo nos desejos mais primitivos, basicamente usando a saudade e o dever que ele tem para com Atana como combustível.

Giraud vivia, à época, uma relação próxima com os ensinamentos de Jean-Paul Appel-Guéry e do nutricionista Guy-Claude Burger, e toda essa fase místico-comportamental do artista pode ser vista nas sequências de sonho e alucinação deste álbum, onde a fronteira entre o que é real e o que é devaneio simplesmente some. Os painéis nos quais Stel é submetido à “readequação pif-paf” (uma lavagem cerebral que ejeta sua consciência original para fora do corpo físico) são muito intensos, tristes, mas carregam um significado de esperança também, gerando uma baita experiência de cunho sensorial, algo próximo do que Giraud havia experimentado em A Garagem Hermética. Mestre Burg, o guia interdimensional cujo nome é um palíndromo de Major Grubert (personagem famoso do artista), continua orientando Stel com uma sabedoria à la Mestre dos Magos e que, ao invés de responder perguntas, amplia o campo de possibilidades do leitor diante da trama, especialmente sobre a origem do planeta Edena, a previsão da chegada dos protagonistas e se há algum sentido nessa jornada toda, aparentemente configurada por ele.
Elementais edelfos, sonhos, fluxo de consciência e um protagonista determinado a cruzar um planeta inteiro por amor e por vontade de voltar para casa: Stel junta muita coisa bacana do misticismo que Moebius cultivava nos anos 1990 e transforma isso num enredo que faz o leitor questionar tempo, espaço e estados de percepção da realidade. Assim como em A Deusa, existe uma grande abertura no desfecho desta edição, mas aqui a estratégia é muito mais satisfatória, porque o número de pontas importantes foi reduzido e a história deixou o leitor num ponto inquietante e instigante, e não simplesmente incompleto. O álbum termina com Stel perdendo aquilo que havia de mais precioso nele, e a Paterna parece ganhar essa rodada. Eu disse antes que há uma lufada de esperança, porque a arte mostra a mente de Stel virando estrela (e se a Paterna pode se reconfigurar, o protagonista também pode), mas tanto a força masculina quanto a feminina, nessa realidade, parecem jogadas em um processo de mudanças que não podem vencer. Qual é o grande plano para Edena? Por que, afinal, Stel e Atana tiveram que vir para este planeta? Ao colocar nesses quadros suas experiências com a instintoterapia e o Iso-Zen, Moebius fez de Stel uma história sobre mudar hábitos radicalmente; sobre se transformar por dentro e também por fora, assumindo todos os riscos que vem com essas escolhas.
O Mundo de Edena – Vol.4: Stel (Les mondes d’Edena: Stel) — França, 1994
Roteiro: Moebius
Arte: Moebius
Cores: Moebius
Editora original: Casterman
No Brasil: Editora Nemo, julho de 2014
Tradução: Fernando Scheibe
82 páginas
