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Crítica | O Mundo é Culpado

por Michel Gutwilen
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Antes de co-dirigir Cinza que Queimam (1951), Ida Lupino fez o Mundo É Culpado (1950), obra que carrega diversas semelhanças com aquele. Ambas são sobre protagonistas atormentados, que vivem na cidade grande, possuem uma incomunicabilidade com as pessoas (por enxergá-las com desprezo e nojo) e, posteriormente, irão passar por uma transformação a partir de uma viagem bucólica ao campo. Porém, se no filme de 1951 o protagonista era um policial que enxergava o resto da sociedade como inimiga e cheia de potenciais bandidos — pois tudo que ele conheceu na vida foi violência em vielas escuras — a motivação da paranoia no longa de 1950 é outra. 

Trata-se agora de uma protagonista feminina, Ann (uma espetacular Mala Powers), que, prestes a se casar, é estuprada por um estranho na rua. Após o fatídico acontecimento, que já seria o suficiente para gerar um colapso mental, ela ainda precisa enfrentar os olhares de pena (e até julgamentos internos, pois a sociedade sempre culpou a vítima) de toda a vizinhança, além do fato de que qualquer aproximação masculina se torna uma potencial ameaça. Motivadamente em surto, ela pega um ônibus sem avisar ninguém e foge em direção à Los Angeles, mas, ao machucar o pé no caminho, acaba parando em um rancho de um pastor, que lhe acolhe.

Desde a primeiríssima cena, o fardo de ser uma mulher já está estabelecido em O Mundo É Culpado. A narrativa abre com Ann indo comprar um bolo para si e seu noivo, mas sofre cortejos desagradáveis do vendedor do food truck, que posteriormente será seu estuprador. Não só estamos diante de um foreshadowing narrativo, como também de uma importante constatação política do roteiro: há uma linha de continuidade entre o assédio verbal e o assalto físico, sendo aquele o primeiro passo para esse. Aquele que fala besteira pode vir a vias de fato.

A sequência de perseguição entre estuprador e vítima é filmada com extrema maestria por parte de Lupino. O que faz a diretora é repetir um padrão imagético: Ann passa por um local, filmada a partir de um plano estático. Sempre em sequência, seu perseguidor é mostrado passando pelo mesmo lugar sob o mesmo enquadramento. Trata-se de um perfeito exemplo de encenação cuja montagem paralela e a repetição do espaço provocam uma dilatação temporal e aumentam ainda mais uma atmosfera de papvor. Já ao fim da perseguição, o ato em si é elipsado, mas Lupino escolhe um plano que também é muito assertivo simbolicamente: um homem que escuta o barulho da buzina, tocada por Ann em desespero, vai à janela e decide fechá-la, ao invés de investigar melhor. Ao longo da narrativa, bate-se muito a tecla de que a sociedade é negligente com o estuprador e de certa forma foi culpada indiretamente pelo estupro, então esse plano nada mais é do que uma representação simbólica desse fechar de olhos coletivo de uma sociedade.

Após a consumação da violação carnal, Lupino igualmente cria um cenário extremamente perturbador, onde ela está mais preocupada em seguir uma estética menos realista e mais introspectiva, como se fossemos colocados na cabeça abalada da protagonista. Uma simples caminhada na calçada se torna uma angustiante sequência de olhares, como se o peso de todo mundo estivesse sob aquela mulher. No ambiente de trabalho, igualmente, qualquer som se amplifica dentro de sua cabeça e se torna uma violação ao seu ouvido. No entanto, os créditos dessas sequências de pesadelo psicológico não são somente da diretora, uma vez que a interpretação de Mala Powers é marcada por uma fragilidade que contamina toda a encenação. Quando qualquer homem entra em cena, fica visível seu encolhimento e medo, ainda que a mesma não diga nada, tornando um simples encontro em um momento de tensão para a protagonista e o espectador. Seja um toque no braço ou uma aproximação, isso já é o suficiente como gatilho para uma reação corporal da atriz. Todo o medo também está na sua fala, que gagueja ou sai com muito esforço de sua garganta na presença de um homem.

Um outro ponto de vista psicológico que merece destaque especial é aquele no qual Ann deve identificar o seu estuprador na polícia. Em um momento brilhantemente montado, o policial vai perguntando para ela, de maneira insistente, se um daqueles homens é seu agressor, até que os planos de seus rostos vão se sucedendo rapidamente e ela finalmente grita que não consegue reconhecer seu rosto. Vários momentos depois, quando um homem tenta agarrá-la no campo, a montagem também confunde seu rosto com o do estuprador original. Assim, utilizando-se de uma técnica cinematográfica (a montagem), Lupino passa uma ideia muito clara que permeia todo o ideal de sua obra, que inclusive está muito bem apontado pela própria tradução brasileira do título: O Mundo Todo É Culpado. Nunca se tratou de dar nome ou rosto ao estuprador, de individualizá-lo, mas de reforçar que se trata justamente de um mal coletivo, de todo homem como potencial ameaça. 

Tanto é, que, se em As Cinzas que Queimam o campo realmente é uma espécie de lugar imaculado que irá recuperar o prazer na vida do detetive desconfiado, nem na paisagem bucólica de O Mundo Todo É Culpado há um lugar totalmente seguro para Ann, com o surgimento do homem assediador interrompendo a inocente sequência do festival da colheita. No filme de 1951, trata-se de uma paranoia injustificada do protagonista. O caminho da narrativa é mudar o protagonista. Neste aqui, a paranoia se justifica. Não é Ann que precisa mudar, mas toda a sociedade em volta dela.

O Mundo É Culpado (Outrage) — EUA, 1950
Direção: Ida Lupino
Roteiro: Ida Lupino, Malvin Wald, Collier Young
Elenco: Mala Powers, Tod Andrews, Raymond Bond, Lillian Hamilton, Rita Lupino, Hal March ,Kenneth Patterson, Jerry Paris
Duração: 75 min.

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