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Crítica | O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

por Matheus Carvalho
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Em fevereiro de 2009, durante a premiação do Oscar, Heath Ledger era anunciado postumamente como vencedor do prêmio de Melhor Ator Coadjuvante diante de uma plateia que o reverenciava de pé. Aquele momento parecia encerrar brilhantemente sua curta, porém rica, trajetória no cinema, mas ainda havia uma última dança em O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, de Terry Gilliam. O filme independente, de orçamento relativamente baixo, ficou longe dos holofotes do grande público. A morte de Ledger, que interpretou o misterioso Tony, suspendeu as gravações ainda no início e ameaçou abortar a conclusão da obra. O que seria o fim do projeto para muitos, serviu como mais um elemento de fantasia no mundo mágico de Gilliam. Entre opções mais óbvias e outras mais caras, o diretor optou por chamar Johnny Depp, seu amigo de outros trabalhos, Jude Law e Collin Farrell, amigos de Ledger. Os três atores fariam participações no papel de Tony como homenagem ao amigo falecido.

Essa confusão só poderia fazer sentido no mundo de fantasia dirigido por Terry Gilliam, que também escreveu o roteiro ao lado de Charles McKeown. A química entre os dois vem dos anos 1980, quando fizeram juntos Brazil e As Aventuras do Barão Munchausen. Em Dr. Parnassus, um grupo artístico itinerante vaga pelas ruas de Londres oferecendo uma experiência única. Aquele que entrasse por um espelho mágico, se transportaria para a mente do Dr. Parnassus (Christopher Plummer), um velho milenar que, entre pactos e apostas, nutria uma relação peculiar com o diabo (Tom Waits). Numa primeira aposta, Parnassus ganhou a vida eterna. Tempos depois, arrependido, ganhou de volta a juventude e a mortalidade em troca da alma de sua filha. Quando a jovem está prestes a atingir a idade acordada, o diabo vem cobrar sua dívida e o Dr. Parnassus precisa se envolver numa nova aposta para salvá-la.

A experiência de assistir ao Mundo Imaginário do Dr. Parnassus é comparável a um sonho. Não no sentido de que o filme é bom demais para ser verdade, mas no literal. Ao acordar, aos poucos as lembranças do sonho vão desaparecendo, deixando fragmentos sem muito nexo. Muitas vezes esquecemos tudo e seguimos a vida, mas em outras guardamos alguma mensagem, refletimos, filtramos aquilo que faz sentido e até, quem sabe, tomamos decisões com base no sonho. O filme de Terry Gilliam traz a mesma sensação. Não adianta procurar uma única linha narrativa, um sentido ao qual todos os acontecimentos e cenas se fundem para construir uma mensagem universal daquelas clichês que poderiam se resumir a um biscoito da sorte. Ao contrário, cada vez que se assiste a obra, pode-se ter um olhar diferente, algum aspecto pode causar mais impacto e trazer novas reflexões.

A mensagem que mais chama a atenção no filme é sobre o poder das escolhas pessoais e o peso das consequências. Ao vencer sua primeira aposta com o diabo, Dr. Parnassus pode escolher qualquer coisa, mas escolhe a imortalidade. Já velho e arrependido, busca uma nova solução. Gostaria de voltar a ser jovem e mortal, mas a que preço? No enredo, o preço é a alma de sua filha, mas a resposta pode ser diferente em cada contexto de vida em que assistimos a obra. Os recursos, seja tempo, dinheiro ou energia, que gastamos em busca de satisfações passageiras e objetivos fugazes, muitas vezes são irrecuperáveis. Pode-se viver uma vida inteira até que o peso das consequências recaia em forma de arrependimento, custando um preço muito alto para se consertar, quando tem conserto.

Esse poder das escolhas, com alta dose de abstração, fica ainda mais evidente dentro do mundo mágico vivido na imaginação do Dr. Parnassus. Quem atravessa o espelho se depara com maravilhas que despertam seus maiores desejos, cegando o mais sóbrio dos homens. Mas sempre há um preço, uma escolha atrelada à conquista. No filme, o preço é a alma daquele que se entrega aos próprios desejos, mas na vida real pode tomar diversas formas. E é esse peso das consequências de nossas escolhas que recai sobre o Dr. Parnassus no final de sua vida, quando, desfalecendo, cai sobre os joelhos e implora a quem pudesse ouvir: “Por favor, pare. Chega de escolhas, chega de escolhas”.

Tecnicamente, o filme parece retratar fielmente como deve ser o mundo dentro da cabeça de Gilliam. Fantasioso, colorido e grotesco, o universo mágico construído não evidencia o orçamento de filme independente e ressalta o ótimo trabalho feito na direção de arte por Dave Warren e Anastasia Masaro. Um comparativo é Avatar, lançado no mesmo ano e referência na categoria, mas com um orçamento oito vezes maior. E a beleza visual de Dr. Parnassus tem ainda mais méritos por não retratar um único universo durante todo o filme. Pelo contrário, o mundo imaginário é um verdadeiro camaleão e assume diversas formas conforme a perspectiva daquele que atravessa o espelho. A natureza com que entramos e saímos de um ambiente fantástico para outro mostra a maestria do trabalho desenvolvido.

Mas nem tudo é sonho e fantasia, principalmente quando se trata do roteiro. A quantidade de tramas paralelas confundem e atrapalham a experiência. Claro que a arte visual aguça a curiosidade e desperta o interesse do espectador, mas diversas vezes temos a impressão de que faltam boas ideias para preencher aquele universo mágico. As duas horas de filme, por mais frenéticas que sejam apresentadas, cansam no meio de um roteiro tão disperso. As reflexões ficam muito espaçadas e algumas tramas acabam sem uma conclusão decente. O arco do personagem Tony, por exemplo, não parece conversar tão bem com o restante do filme, por mais que seu personagem seja fundamental para todo o desenvolvimento da história. A sacada de usar três atores diferentes para substituir Heath Ledger funciona melhor como homenagem do que elemento narrativo.

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus certamente não é um filme que agrada a todos, talvez não agrade a maioria. A disposição e o nível de abstração necessários para saborear a obra e filtrar mensagens claras num universo de tanta fantasia pode afastar aqueles mais interessados num grande biscoito da sorte. Segundo o próprio Terry Gilliam, seu objetivo com a obra era trazer um pouco de fantasia, um antídoto à vida moderna. E quanto a isso, nem os menos simpatizantes do trabalho do diretor podem negar que ele conseguiu. 

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus) – EUA, 2009
Direção: Terry Gilliam
Roteiro: Terry Gilliam, Charles McKeown
Elenco: Christopher Plummer, Heath Ledger, Johnny Depp, Jude Law, Colin Farrell, Tom Waits, Verne Troyer, Lily Cole, Andrew Garfield
Duração: 123 min.

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