Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2006, Orhan Pamuk é o mais bem sucedido romancista moderno da Turquia, que começou sua carreira literária com A Casa do Silêncio, publicado originalmente em 1983. O Museu da Inocência, sua sétima obra de ficção (décima no geral) é, talvez, seu mais pessoal trabalho, já que ele usa suas experiências pessoais que gravitaram ao redor de sua vida de classe média alta em Istambul durante um período em que o país passava por um processo de ocidentalização que conflitava com princípios e ideais conservadores da sociedade de lá, chegando ao ponto de ele mesmo, em determinada altura da história, inserir-se na narrativa, ainda que brevemente, possivelmente só para pontuar essa característica do romance e a proximidade dele de sua realidade na época em que a história se passa, de 1975 a 1984.
Trata-se de um livro que tinha uma proposta grandiosa da criação simultânea de um literal museu – esse do título – dedicado à obsessão do protagonista Kemal, um homem de negócios da elite de Instambul, com a humilde Füsum, sua parente distante, com lembranças de cada detalhe de uma “história de amor” cujas aspas mais do que se justificam, como abordarei mais adiante, mas que também serviria como uma maneira de preservar um momento transformativo no país. O referido museu, que seria mais uma exibição em Frankfurt em 2008, acabou sofrendo reformulações e atrasos, sendo inaugurado como um museu propriamente dito somente em 2012, quatro anos depois da publicação do livro, no bairro de Çukurcuma, em Beyoğlu, na cidade de Instambul, e que eu tive a oportunidade de conhecer pouco depois da leitura do romance.
No começo da história, Kemal está noivo de Sibel em um relacionamento devidamente chancelado por suas famílias e pela aristocracia local. No entanto, um encontro casual com Füsum, vendedora de uma loja de bolsas em que Kemal entra para comprar um presente para Sibel, põe tudo a perder, com Kemal imediata e perdidamente apaixonando-se pela jovem, paixão essa que é apenas brevemente correspondida por meio de encontros furtivos em um apartamento sem uso da família dele. O que, então, poderia ser uma mera história de amor em uma Istambul em ebulição socioeconômica, torna-se um tratado sobre a obsessão humana e até que ponto alguém é capaz de ir por uma percebida conexão amorosa que, não demora, se torna tão doentia e decadente quanto a classe social representada pelo protagonista, em uma alegoria esperta de Pamuk que usa de toda a sua visão crítica sobre seu país para torná-la parte do que seu Kemal é.
Apesar de eu gostar do desafio que sempre é trafegar por protagonistas difíceis de se gostar, Orhan Pamuk conseguiu construir seu Kemal de maneira tão asquerosa que “gostar” não é sequer um verbo que me passa pela cabeça quando penso nele. No entanto, Kemal não é aquele personagem abertamente asqueroso, que faz coisas claramente reprováveis, mas sim algo mais sutil, mas pernicioso que vai muito além do adultério que ele comete – e que não considero como algo exatamente negativo, mas sim parte da vida -, mergulhando em sua psiquê complexa de um homem que se vê completamente sem saída no que diz respeito a Füsum. Como um viciado em substâncias químicas, Kemal precisa de Füsum e, quando não a pode mais ter, passa a metodicamente erigir um museu de tudo aquilo que se relaciona com ela, de fotografias a guimbas de cigarro com seu batom, passando por objetos singelos que ela porventura tenha tocado em algum momento em que ficou com ele. Sua compulsão o consome, o afasta de seus conhecidos e muda completamente sua vida, em um processo exaustivo de autodestruição que parece não ter fim.
Orhan Pamuk faz o leitor acompanhar lentamente – por vezes lentamente demais – cada passo dessa espiral monomaníaca de Kemal que não demora a transmutar a história inicialmente caracterizável como de amor para algo de difícil classificação, que começa a carregar nas cores da fronteira da insanidade, com a Istambul dos anos 70 servindo de pano de fundo e de comentário ao que ocorre. Na verdade, mais do que isso, é perfeitamente possível concluir que a mente decadente de Kemal é, na verdade, a crítica de Pamuk ao que ele viu acontecer com seu país na época, com a tensão entre leste e oeste sempre presente, algo que se revela fruto até mesmo das características geográficas e da história de seu país como a literal e tensa fronteira entre dois mundos. Nesse mesmo diapasão, e por um lente distorcida que é a visão de Kemal, Pamuk estuda a evolução do papel da mulher na sociedade turca naquele exato momento de transição entre o antigo e o moderno, entre a passividade das donas de casa e matriarcas que mantém o patriarcado no poder e a tentativa da juventude da época em se aproximar de valor menos engessados e retrógrados. Essas histórias de um país em momento importante de sua história recente ilustradas por meio de uma história de obsessão disfarçada de amor cria uma simbiose perfeita, mesmo que Kemal siga como um dos protagonistas mais repulsivos que já tive o (des)prazer de acompanhar em uma obra literária.
O Museu da Inocência não usa a nostalgia da forma que, querendo ou não, nos acostumamos a interpretar, ou seja, sempre de maneira positiva, de uma suposta “época melhor”. Muito ao contrário, essa ferramenta de Orhan Pamuk serve de desconstrução de seu conceito atual, revelando-a como uma pontiaguda arma crítica para trazer à tona a efervescência de um país tentando encontrar sua identidade em uma encruzilhada geográfica, histórica e moral, como uma passagem de bastão entre uma geração que carrega os valores de seus antepassados, mas compreende-os como algo que talvez precise ser deixado para trás. Todos nós construímos museus de uma época ideal em nossas mentes, mas a grande verdade é que eles muito raramente resistem a escrutínios sóbrios e Pamuk tenta exatamente mostrar ao leitor que a inocência é algo que pode ser usado como uma névoa que desnorteia e nos faz perder o caminho.
O Museu da Inocência (Masumiyet Müzesi – Turquia, 2008)
Autoria: Orhan Pamuk
Editora original: İletişim
Data original de publicação: 29 de agosto de 2008
Editora no Brasil: Companhia das Letras
Data de publicação no Brasil: 17 de maio de 2011
Tradução: Sergio Flaksman
Páginas: 568
