Crítica | O Natal dos Amigos Indiscretos

Recentemente, um artigo chamado Três Coisas Que Não Podem Faltar no Natal, assinado por Lucas Felipe Nascimento, chamou-me à atenção pela peculiaridade de suas observações acerca dos festejos natalinos. As condições para uma boa comemoração, segundo o texto, estão na presença de boa comida, amigos ou familiares para afastar a solidão e os belos e lindos presentes. Tudo isso, parte de uma tradição que muitos amam, outros tantos odeiam, mas pelo que observo, integram um sistema de práticas culturais que mesclam o enraizamento arbóreo profundo, juntamente com o esquema de um rizoma que se espalha cada vez mais, de geração para geração, transformando-se constantemente diante das mudanças de ordem social, cultural, política, tecnológica, etc.

De volta ao que reflete o texto citado nas primeiras linhas desta reflexão, para muitas pessoas, o período natalino é a época ideal para criarmos coragem e abraçarmos o nosso adversário, tendo em vista apararmos as nossas arestas e solaparmos as “diferenças e intolerâncias”, algo que como sabemos, praticamente fica apenas na via discursiva e teórica, sem prática efetiva. É o que veremos em O Natal dos Amigos Indiscretos, de Malcolm D. Lee, também responsável pelo roteiro, produção que versa sobre o reencontro de um grupo de pessoas que não se via há 15 anos.

Cada um seguiu um rumo diferente: casamento, faculdade, vida artística. Alguns vivem na simplicidade, enquanto outros se tornaram celebridades do futebol americano e de um famigerado e afetado reality show. Ocupados diante das demandas de suas vidas numa sociedade movida pela pressa e pelas coisas instantâneas, os tais amigos do título arrumam tempo na agitação de suas respectivas agendas para o grande reencontro, afinal, é Natal, época de confraternizar com quem as pessoas que amamos. Na abertura, o filme já nos oferta um breve perfil de cada personagem, numa demonstração em formato de mosaico que ilustra a trajetória até o momento da trama, situado na semana do natal.

Diante do exposto, nos vemos parte do encontro de Harper (Taye Diggs), Quentin (Terence Howard), Jordan (Nia Long), Mia (Monica Calhoun), Murch (Harold Perrineau), Candy (Regina Hall) e Shelby (Melissa de Sousa). Juntos, a trupe dialogara sobre temas diversos, tais como amor, rancor, sexo, fidelidade, respeito, companheirismo, dentre outras palavras-chave, além de viver situações hilárias com vídeos vazados nas redes sociais, nudes indevidamente compartilhados e outras situações que tornam o Natal mais irreverente que o esperado.

A festa está marcada na casa de Lance (Morris Chestnut), um bem sucedido esportista que vive numa mansão esplendorosa, espaço ideal para a “decoração de natal dos sonhos”, questão providenciada pelo design de produção cuidadoso, assinado por Keith Brian Burns, profissional que soube emular bem o clima das festas de final de ano. A direção de fotografia de Greg Gardiner, como mandam os manuais, capta bem a ambientação arrojada do departamento de design, cumprindo também a sua missão de passear pelos ambientes de toda a casa, da cozinha aos quartos, sempre deixando a ideia de conforto e aconchego, mesmo que os poucos personagens aparentem passar o Natal num gigantesco castelo.

Stanley Clarke assume a condução musical e acerta na maioria do tempo, ao trafegar entre a música de excelente qualidade e algumas poucas passagens piegas. Lançado em 2013, O Natal dos Amigos Indiscretos é um filme de longos e desnecessários 123 minutos, repletos de piadas engraçadas, situações embaraçosas e burlescas, bem como dita a cartilha dos filmes natalinos, isto é, brigas, confusões e incertezas que são resolvidas próximas ao final. Há, entretanto, um diferencial. Os personagens são trabalhados um pouco mais do que o convencional, deixando o filme com maior volume dramático. O câncer em um dos “amigos” soa como o clichê em busca dos espectadores lacrimejantes, mas não chega a destruir o que até então havia sido arquitetado enquanto narrativa.

Sequência de Amigos Indiscretos, de 1999, a produção natalina ganhou uma continuação intitulada O Casamento dos Amigos Indiscretos. Interessante ver uma narrativa sem “cotas”, mas com o elenco preponderantemente negro, algo muito raro de se encontrar no esquema das comédias românticas estadunidenses. Isso não impede que O Natal dos Amigos Indiscretos cometa alguns deslizes que comprometem o resultado final, dentre eles, a aceleração das coisas próximas ao desfecho de uma narrativa que se alonga demasiadamente, tornando-se um pouco enfadonha e cansativa quando avança na segunda metade. Ademais, traz bons momentos de diversão e situações controversas, promovedoras de bons risos, muito mais interessante que algumas das produções natalinas anuais do sistema hollywoodiano, repleta de “estrelas brilhantes”, mas tramas opacas, tais como O Natal dos Coopers e seus similares.

O Natal dos Amigos Indiscretos (The Best Man Holiday, Estados Unidos – 2013)
Direção: Malcolm D. Lee
Roteiro: Malcolm D. Lee
Elenco: Melissa De Sousa, Monica Calhoun, Morris Chestnut, Reginal Hall, Taye Diggs, Terrence Howard
Duração: 123 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.