Crítica | O Natal dos Coopers

Para os que já tiveram acesso ao edificante Um Conto de Natal, de Charles Dickens, quase impossível não traçar um paralelo com O Natal dos Coopers, narrativa lançada em dezembro de 2015, uma das escolhidas para o cronograma hollywoodiano de natal. No conto, publicado em 1843, o escritor versa sobre a importância das boas ações na época natalina, festejo que deve ser realizado juntamente com toda a família. De acordo com os especialistas no autor e historiadores literários, a população inglesa vivia um período de indisciplina, sendo o conto uma ferramenta estratégica para sensibilizar a todos e promover a educação familiar.

O filme em questão vem numa perspectiva reflexiva semelhante, mas falha. Irregular, O Natal dos Coopers tem direção assinada por Jessie Nelson, cineasta que não pode fazer muita coisa com o roteiro de Steven Rogers, texto dramático bem abaixo da média, clichê básico dos filmes anuais natalinos.  Na trama, os membros da família estão em direção ao ambiente de onde partiram, isto é, a casa dos pais, Sam (John Goodman) e Charlotte (Diane Keaton). Inebriados pelo “clima do natal”, os personagens não disfarçam as descrenças, preocupados com os seus problemas, celeumas de ordem universal, caos para uma sociedade que nos exige estar sempre aparentando felicidade e entoando estruturadas frases que parecem partes integrantes de um lacrimejante livro de autoajuda.

O narrador da história é Rags, o cachorro da família, dublado por Steven Martin. Ele nos apresenta aos membros da família superficialmente, sempre com ironia e comentários sarcásticos. Emma (Marisa Tomei) e o Oficial Percy Willians (Anthony Mackie) ofertam ao público questões que são “lançadas”, mas não “rebatidas”; Eleanor (Olivia Wilde) e Joe (Jack Lacy) nos envolvem numa situação ao estilo “comédia de erros”, mas também não possuem a graça esperada pelo que a situação propõe; Bucky (Alan Arkin) é um personagem misterioso, magnetizado pela gravitação da garçonete solitária Ruby (Amanda Seyfried) em torno da sua existência, numa comprovação de que o ator parece gostar de noites natalinas incomuns, tal como a sua solidão em Anjo de Vidro.

São 107 minutos de estética acima da média, mas diálogos arrastados e situações pouco empolgantes, o que mina internamente a narrativa, tornando o exercício de contemplação fílmica cansativo. Elliot Davis faz o que pode na direção de fotografia, mas os enquadramentos e a iluminação de seu setor não conseguem dar conta da falta de emoção e desenvolvimento dos personagens, afinal, nem mesmo o melhor “primeiríssimo plano” consegue captar algo que não existe dentro de sua dinâmica interna. Há árvores com suas belas bolinhas coloridas e embalagens de presentes com lindas fitas de cores intensas, parte dos elementos que compõem o design de produção de Beth A. Rubino.  Nick Urata conduz a música emotiva. Há a família, agrupamento de pessoas que mesmo diante de tantos problemas, consegue manter-se reunida. Ainda assim, falta tempero dramático, principalmente por conta de seu desfecho hollywoodiano que tenta colocar ordem em tudo que bagunçou desde o começo.

Lançado em 2015, O Natal dos Coopers é a prova cabal da exaustão de uma fórmula narrativa que não desagrada aos que desejam um filme de natal pouco exigente. Convenhamos: até mesmo como entretenimento escapista, a comédia dramática fica muito além do esperado, principalmente por estarmos diante de um elenco qualificado. Serve para discussão sobre o que uma psicóloga, chamada Dra. Elizabeth Monteiro, relatou numa entrevista: “o Natal deveria ser tempo de paz e amor, mas nem sempre é”. A especialista em relacionamentos familiares reforça a necessidade de respeitar as escolhas, compreender o outro e ser tolerante, mas os seres humanos, como já sabemos, adoram enfrentar uma crise. O Natal, neste caso, funciona como um chamariz perfeito para causar um curto-circuito no bojo de muitas famílias aparentemente solidificadas. Os Coopers são uma representação da questão. Pena que o filme seja tão “incorreto”.

O Natal dos Coopers (Love The Coopers, Estados Unidos – 2015)
Direção: Jesse Nelson
Roteiro: Steven Rogers
Elenco: Alan Arkin, Alex Borstein, Amanda Seyfried, Anthony Mackie, Dan Amboyer, Diane Keaton, Ed Helms, Jake Lacy, John Goodman, Jon Tenney, June Squibb, Marisa Tomei, Olivia Wilde, Quinn McColgan, Timothée Chalamet
Duração: 107 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.