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Crítica | O Navio Branco (La Nave Bianca)

por Luiz Santiago
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A polêmica em torno de Roberto Rossellini não é nova, mas é pouco conhecida do grande público cinéfilo. Na verdade, o fato de alguns grandes nomes do cinema italiano terem iniciado sua carreira durante o Fascismo e trabalhado sob ordens ou diretamente com Vittorio Mussolini, o filho do Duce que era um grande produtor cinematográfico naquele momento, é constantemente colocado de lado, com muitos fingindo que não aconteceu, mesmo em casos de cineastas que posteriormente bombardearam o regime em suas obras, criando uma História crítica, irônica e zombeteira Itália sob os fascistas, como é o caso de Federico Fellini.

A questão que envolve Rossellini, no entanto, é um tantinho mais delicada. O diretor realizou entre 1941 e 1943, três filmes de propaganda militar (fascista) que acabaram entrando para a História como Trilogia Fascista ou, em algumas leituras, Trilogia Militar, composta por este O Navio Branco (1941), dedicado à Marinha; por Um Piloto Retorna (1942), dedicado à Aeronáutica; e O Homem da Cruz (1943), dedicado ao Exército. Falarei mais adiante sobre o caráter desta abertura da trilogia, mas antes é interessante explorarmos um pouco o contexto do diretor e sua inserção nesse cenário, fazendo esse tipo de filme algo que contrastaria com tudo o que temos no seminal Roma, Cidade Aberta (1945).

Rossellini não era, por nascimento, um “cidadão italiano comum“. Ele nasceu em uma família bastante rica e seu pai estava ligado ao mundo das artes, o que o colocou no ramo desde muito cedo, cultivando seu interesse com o tempo. Em sua vida adulta, foi um amigo muito próximo de Vittorio Mussolini, uma amizade que, sem dúvidas, facilitou a colocação de Rossellini como assistente de direção ou supervisor de cenas em La Fossa Degli Angeli (1937) e principalmente em Luciano Serra, Piloto (1938); além de coescrever o roteiro desses filmes. Seu status quo, sua amizade pessoal com o filho do infame líder fascista do país e a forma como deu início às suas produções em longas-metragens é que levantaram, após a queda do regime em 1943 (para melhor fluidez, não vou fazer um parágrafo inteiro de contexto sobre a República de Salò. Aos interessados, há muita coisa na internet a respeito), a polêmica sobre suas posições políticas.

O fato, porém, é que Rossellini nunca foi um indivíduo verdadeiramente politizado, como praxis da vida. Ele nunca se pronunciou ampla e publicamente sobre política (são poucos os seus comentários a respeito, e pelo menos os que eu conheço, todos datados do pós-guerra) e não se aliou aos partidos de esquerda na Itália, como a maioria de seus colegas de profissão fizeram. Assim, é possível entender o diretor como um oportunista, andando com o momento sem mergulhar de fato nas ideologias que o cercavam. Já cheguei a ler alguns textos comparando esse caso ao de Leni Riefenstahl, e devo dizer que acho isso de um absurdo sem tamanho. Não havia uma filiação do diretor ao fascismo e até mesmo os seus filmes de propaganda para o regime, o primeiro deles aqui em análise, não exibiram com tanta insanidade a bandeira dos tais “preciosos valores” dão defendidos pelos fascistas.

Outra coisa que li pouco antes de rever esse filme para escrever a crítica foi uma insana comparação desse tipo de abordagem política questionável com aquela que Ingmar Bergman fez em seu filme anticomunista, Isto Não Aconteceria Aqui (1950). Além de não ter cabimento, essa aproximação ignora o contexto e o tipo de problemática central da situação. O caso do diretor italiano se torna um tanto tabu porque há uma defesa, mesmo que leve e bem filtrada, das ideologias fascistas, o que o separa por completo da toada utilizada pelo cineasta sueco em seu “filme maldito”.

O Navio Branco (La Nave Bianca) foi o primeiro longa-metragem de Rossellini e, apesar de trazer todas as marcas de um marinheiro de primeira viagem (hehehe), exibe o dilema da tripulação de uma maneira crua, humana e com contrastes em relação a momentos de felicidade, de normalidade e de ternura, ingredientes que constariam no Neorrealismo Italiano, do qual o diretor seria um pilar fundador. A história é fraca e praticamente inexistente, acompanhando um grupo de marinheiros que tentam viver a nesga de normalidade que ainda possuem em seus dias no mar, escrevendo para suas amadas e recebendo cartas de seus familiares. Um marinheiro específico é destacado e sua história acaba sendo a âncora romântica do texto, escolha que não faz bem à obra porque é rasa e porque o ator que representa o jovem militar não tem nenhuma capacidade dramatúrgica para validar o tipo de sentimento pretendido pelo diretor — vale dizer que todo o longa foi filmado no navio-hospital Arno, com atores não profissionais, ou seja, os membros do Corpo Médico e os oficiais da Marinha de plantão.

O chacoalhão do enredo se dá quando um ataque acontece. As cenas de batalha misturam matérias de cinejornais realizadas por marinheiros cinegrafistas a bordo de navios verdadeiramente sob ataque, com algumas cenas de preparação e disparos encenados. A maneira como o diretor costura a camaradagem desses homens e a suta luta por ideais são aludidas aqui através de poses e caras sérias, fechando tudo o que temos de palpável para refletir sobre a fita. Um pouquinho de maldade até nos faria dizer que o cineasta estava tentando emular um ponto de vista bem particular vindo de O Encouraçado Potemkin, o que é irônico e engraçado de se considerar, embora seja apenas uma especulação maldosa (será?).

Há bem mais amargura, perda de irmãos de armas, luta e desesperança do que rios de ideologia fascista escorrendo pelos fotogramas de O Navio Branco. O filme reflete o gosto de Rossellini por retratar pessoas comprometidas com uma causa, mas vistas também acompanhadas de suas paixões e sentimentos. Não é um filme que contradiz o que se fala negativamente sobre ele, mas não estamos diante de algo nem perto de O Triunfo da Vontade (1935) e nem perto de O Eterno Judeu (1940). Para olhos incautos, o filme até passará como um longa que “não tem nada demais“, de tão filtrado que está o chorume fascista aqui. Mas que fique claro que não há nada na obra que seja desumano ou que dê qualquer rótulo infame e de maior grau a Rossellini. Não é algo belo de seu passado, mas também não é um pedido de cancelamento eterno pelas novas gerações.

O Navio Branco (La Nave Bianca) — Itália, 1941
Direção: Roberto Rossellini
Roteiro: Francesco De Robertis, Roberto Rossellini
Elenco: Augusto Basso, Elena Fondi
Duração: 69 min.

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