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Crítica | O Negócio: 2ª Temporada

Mantendo o nível da primeira temporada, segundo ano aposta em avanços no desenvolvimento dos personagens e nas estratégias de marketing no âmbito da prostituição.

por Leonardo Campos
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Em 2014, a segunda temporada de O Negócio estreou, revelando novos desafios para as fundadoras da empresa de “qualidade de vida” Oceano Azul, um empreendimento que inovou ao aplicar estratégias de marketing no cenário da prostituição em São Paulo. Com Karin, Luna e Magali mais ambiciosas, elas se preparam para explorar o universo dos negócios de luxo, enfrentando problemas reais que surgem no caminho de uma empresa. A temporada anterior terminou com a revelação bombástica: as sofisticadas garotas estavam sendo pirateadas. Este é um dos um dos principais motores da nova fase, impulsionado por diálogos inteligentes, um desenvolvimento estético aprimorado, tudo isso sob a direção de Michel Tikhomiroff. Na primeira temporada, testemunhamos as protagonistas alcançando o auge do sucesso na prostituição, trazendo à tona temas de empoderamento feminino e empreendedorismo. Agora, na segunda temporada com 13 novos episódios, a narrativa evolui, mostrando até onde elas estão dispostas a ir para proteger seu negócio e vencer a concorrência desleal. Em seu segundo ano, a produção solidifica sua posição como uma das melhores produções ficcionais da televisão recente, cativando a audiência com suas tramas envolventes que misturam drama, humor e crítica social, desafiando percepções sobre o trabalho feminino e as dinâmicas do mercado.

Como exposto na análise anterior, a série oferece uma visão intrigante e provocativa sobre a prostituição e suas nuances no contexto urbano contemporâneo. Por meio das vivências das três protagonistas, em especial, Karin, a narrativa não apenas desafia preconceitos, mas também explora como o marketing e as dinâmicas de negócios podem ser aplicados a essa forma de trabalho. O interessante é que o processo não transparece didatismo, se mesclando com a proposta de entretenimento, mesmo quando está nos ensinando. Ademais, como o enredo não se limita a retratar suas vidas pessoais, mas também se aprofunda nas dinâmicas de mercado que cercam a prostituição, O Negócio levanta questões sobre empoderamento, controle e a construção de uma “marca pessoal” na indústria do sexo, mais poderosa do que qualquer um de nós possamos sequer imaginar. Nesta segunda etapa, a produção nos faz compreender melhor o que é um private equity fund neste setor. Para entender tudo isso, é fundamental analisar a legalidade e a regulamentação da prostituição no Brasil. Embora o ramo em si não seja ilegal, muitas de suas práticas associadas, como exploração sexual e tráfico de pessoas, são. Portanto, qualquer investimento deve ser cuidadosamente planejado e estratégico, com um enfoque em práticas éticas e socialmente responsáveis, sempre por meio de acobertamentos.

Os fundos de private equity são conhecidos por investir em empresas em crescimento e por sua capacidade de reestruturar negócios em dificuldades. No contexto de O Negócio, um fundo poderia fornecer suporte financeiro e estratégico para empresas que promovem o empoderamento de profissionais do sexo, oferecendo treinamento, recursos e plataformas digitais. Essa abordagem não só beneficiaria o negócio em si, mas também ajudaria a criar uma imagem positiva sobre a prostituição como um trabalho legítimo. Essencialmente, o fundo de private equity poderia se concentrar em startups que oferecem serviços como consultoria de segurança, plataformas de agenciamento digital e até mesmo iniciativas que promovem saúde e bem-estar para as profissionais do sexo. A construção de parcerias com organizações sem fins lucrativos para oferecer suporte emocional e psicológico também pode ser uma via de investimento atraente, permitindo que o fundo demonstre seu compromisso com a responsabilidade social. Esse é um dos caminhos diante dos novos desafios enfrentado pelo audacioso empreendimento Oceano Azul, depois que a batalha em torno da pirataria é “vencida”.

Na série, as protagonistas também começam a analisar uma abordagem sobre a construção de suas marcas pessoais. A identidade delas é cultivada por meio de suas experiências e de seu relacionamento com os clientes. O investimento em uma “marca registrada” neste contexto é crucial para garantir um reconhecimento e uma reputação dentro do mercado e, como sempre, Karin vai sair na frente e propor novos negócios para as suas sócias, se mostrando como o corpo e a alma da produção. Uma marca registrada seria uma forma de proteger a identidade e os serviços oferecidos pelas profissionais do sexo. Isso poderia incluir a criação de um logo, um site e presença nas redes sociais, além de garantir a exclusividade de seus serviços. O marketing digital desempenha um papel fundamental aqui, permitindo que elas se conectem diretamente com o público-alvo e construam uma base de clientes fiel. Na época, as redes sociais já eram populares, mas não como hoje. Talvez, se a produção retornasse, teríamos lições valiosas e atualizadas. Neste encalço, as estratégias de branding exploradas em alguns episódios são um reflexo das melhores práticas de marketing em qualquer setor. A autenticidade, o engajamento com o público e uma comunicação clara acerca dos serviços são elementos essenciais para criar uma marca forte e respeitada. E entre obstáculos e lutas, as três se asseguram disso, garantindo maiores aventuras nos 13 episódios da temporada subsequente.

Na trama da série, Karin, interpretada de forma brilhante por Rafaela Mandelli, enfrenta desafios significativos em sua vida pessoal e profissional. A busca de Augusto (João Gabriel Vasconcellos) por um compromisso mais sério, como casamento e filhos, contrasta com a ambição de Karin, que, no auge de sua carreira, procura expandir seus negócios. Essa divergência de interesses cria um clima de tensão entre o casal, que, embora comece em um tom amoroso, culmina em uma crise na relação ao final da segunda temporada. Além disso, a dinâmica entre ela e Ariel (Guilherme Weber), que anteriormente se apresentava como uma relação de exploração, acaba por se transformar em uma aliança produtiva, refletindo o crescimento da personagem principal em suas interações pessoais. Outro que ganha relevância é César (Eduardo Semerjian), o instrutor de esgrima de Karin, que também se torna seu amigo e conselheiro. Na segunda temporada, ele expande sua participação nos negócios de Karin, o que demonstra a construção de um suporte mais forte em seu círculo social e profissional. Essa evolução nas relações interpessoais, marcada por alianças e colaborações, sugere um aprofundamento nas temáticas da série, onde os conflitos internos e externos são centrais. A transição de relações de poder e a busca por realização pessoal fazem parte da narrativa, trazendo à tona os dilemas enfrentados por Karin em sua trajetória, equilibrando paixão e profissionalismo em um mundo desafiador e que ainda possui muitos tabus em torno da prostituição.

Luna, interpretada por Juliana Schalch e também narradora da série, enfrenta dilemas complexos que revelam as nuances de sua vida. Sua relação com Iuri (Johnnas Oliva), que se apresenta como seu namorado de mentira, é um mecanismo que ela utiliza para proteger a sua imagem diante da família, que ignora seu envolvimento na prostituição. O pedido de casamento de Iuri, resultante de uma brincadeira de Oscar (Gabriel Godoy), coloca a garota de programa em uma encruzilhada, desafiando-a a lidar com a fachada que construiu e com as demandas emocionais que surgem dessa nova situação. O contraste entre a vida pessoal de Luna e a imagem que projeta para os outros é uma das tensões centrais da narrativa. Paralelamente, Oscar se muda para o seu apartamento, trazendo consigo uma personalidade folgada e golpista. Apresentado na temporada anterior, eles se conheceram enquanto buscavam aplicar golpes em pessoas ricas, acreditando um no potencial de riqueza do outro. Ao longo da trama, Luna inicialmente imagina que Oscar é um milionário prestes a se casar, enquanto ele acredita que ela é herdeira até descobrir, num momento crucial relacionado a um jogo, sua real condição como garota de programa. A relação entre os dois evolui para uma parceria cômica de golpistas, rica em ironias e momentos divertidos, destacando a complexidade de suas interações e a crítica social subjacente na série. Essa dinâmica entre os personagens contribui para o tom leve, mas crítico, da narrativa, permitindo que o público explore as dualidades da vida da personagem.

Magali, interpretada por Michelle Batista, traz uma leveza cômica à trama, contrastando com as tensões enfrentadas por Karin e Luna. Embora seja uma sócia competente e desempenhe um papel importante nos empreendimentos delas, ela é a mais despreocupada do trio, mantendo uma atitude descontraída em relação aos desafios que surgem. Seu reencontro com uma amiga que está prestes a se casar com um ex-cliente cria situações hilariante e revela a complexidade das relações interpessoais, colocando-a em uma posição inusitada que agrega humor à narrativa. Essa leveza se torna ainda mais evidente na interação com Zanini (Kauê Telloli), um advogado envolvido em um processo de pirataria, que se apaixona por ela. Apesar da resistência inicial da garota de programa, ela acaba cedendo em momentos cômicos e inesperados, acentuando seu papel de alívio cômico na história. A sua presença se torna fundamental, pois ela atua como um contrapeso entre as tensões emocionais e questões mais sérias que permeiam a série. Suas façanhas engraçadas e seu jeito despreocupado trazem um frescor às tramas, assegurando que, mesmo em meio a situações dramáticas, haja espaço para a resolução leve e inesperada. Ao longo da segunda temporada, ela se prova essencial para a dinâmica do grupo, oferecendo não apenas momentos divertidos, mas também soluções criativas que, embora imprevisíveis, reafirmam sua importância na narrativa. Sua capacidade de equilibrar o humor e as complicações da vida cotidiana deixa uma marca positiva, permitindo que o público se conecte com as diversas facetas das personagens femininas que dominam a série.

Em linhas gerais, caro leitor, o que O Negócio nos ensina para além do entretenimento, é que a prostituição é uma prática tão antiga quanto a civilização. Apesar disso, a discussão acerca dela ainda permanece envolta em hipocrisias e tabus, gerando um debate repleto de contradições e silêncios. Para entender esse fenômeno, é crucial investigar os aspectos culturais, sociais e legais que circundam a prostituição, bem como suas implicações no comportamento e na percepção da sociedade. Em muitos lugares, a prostituição é vista através de uma lente moralista. Karin, em especial, ainda vai enfrentar muitos desafios na temporada seguinte envolvendo este tópico. Crenças religiosas e normas sociais frequentemente pintam a prostituição como um pecado ou uma degradação da dignidade humana. Essa visão é perpetuada por discursos que promovem a ideia de que a sexualidade deve ser restrita a contextos amorosos ou matrimoniados, enquanto a prostituição é frequentemente deslegitimada como uma opção válida para o exercício da sexualidade. Assim, muitas pessoas que trabalham na prostituição enfrentam não apenas o estigma social, mas também o desprezo e o preconceito.

Outro aspecto importante a considerar é a legislação que cerca a prostituição. Em muitos países, a prática é criminalizada, o que gera uma série de consequências perversas. Quando os trabalhadores do sexo são tratados como criminosos, eles ficam sem proteção legal, tornando-se vulneráveis a abusos e exploração. A hipocrisia emerge, pois enquanto a sociedade condena a prostituição, frequentemente se beneficia dela de forma indireta. Muitos dos que criticam a prostituição também são consumidores dos serviços que os trabalhadores do sexo oferecem, revelando um padrão de comportamento contraditório. Além disso, o estigma associado à prostituição não afeta apenas aqueles que a praticam. Ele permeia toda a sociedade, criando uma cultura de silenciamento em torno da sexualidade e da escolha individual. Quando a prostituição é tratada como um tabu, o debate sobre os direitos dos trabalhadores do sexo e as condições em que operam é sufocado, dificultando avanços em suas reivindicações. A falta de diálogo aberto contribui para a perpetuação de violências e abusos nesse setor. E, ao longo dos episódios de O Negócio, apesar da perspectiva de luxo, muitos debates em torno destes tópicos são empreendidos pelos excelentes textos dramáticos, subsidiados por diálogos eficientes, conflitos devidamente estruturados e viradas sensacionais.

Salvaguardadas as devidas proporções comparativas, uma série tão boa quanto sexo. Acredite.

O Negócio – 2ª Temporada (Brasil, 18 de agosto de 2013 – 16 de novembro de 2014)
Criação: Luca Paiva Mello, Rodrigo Castilho
Direção: Júlia Pacheco Jordão, Michel Tikhomiroff, Guilherme Fontes
Roteiro:  Luca Paiva Mello, Rodrigo Castilho, Fabio Danesi, Camila Raffanti, Alexandre Soares Silva
Elenco: Rafaela Mandelli, Juliana Schalch, Michelle Batista, Júlia Feldacker, Caio Blat, Maria Casadevall, Felipe Abib, Marco Pigossi, Guilherme Weber, Enrico Tocci, Maria Zilda Bethlem, Daniel de Oliveira, Gabriel Godoy, Eduardo Semerjian, Johnnas Oliva, João Gabriel Vasconcellos, Fernanda Machado, Kauê Telloli, Gabriela Cerqueira, Cris Bonna, Tony Mastaler, Pedro Inoue, Einat Falbel, Isabel Wilker, Jessica Drago, Renata Fasanella, Joaquim Guedes
Duração: 44 min em média por episódio, 13 episódios

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