Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | O Nevoeiro (2007)

Crítica | O Nevoeiro (2007)

por Leonardo Campos
945 views (a partir de agosto de 2020)

Lembro que em 2008, apesar do surgimento recente de filmes ágeis e eficientes como Pânico na Floresta, Madrugada dos Mortos, dentre outras produções de sucesso, o gênero terror começava a amargar uma fase medíocre, com narrativas focadas na tortura ou cópias dos sucessos de “antigamente”. O Nevoeiro, assim como o irreverente Arraste-me Para o Inferno, de Sam Raimi, chegou em um período muito próximo, dando gás aos amantes das histórias de medo e mistério.

Por falar em categorização, O Nevoeiro é classificado por alguns, como pertencente ao gênero “fantástico”, o que de fato é verdade, mas considero a produção um dos melhores filmes de horror que já vi e uma coisa não anula a outra, em suma, se complementam: o medo pelo desconhecido, o pânico social diante do fanatismo religioso e dos jogos de poder, bem como o velho e sufocante confinamento que faz apodrecer as máscaras sociais de cada individuo presente no espaço em questão deixam claro que estamos diante de um terror de primeira linha.

É com essa premissa que Frank Darabont, responsável por ter adaptado dois excelentes dramas baseados na obra de Stephen King, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre, pegou pela primeira vez uma história de terror para levar ao cinema. O resultado foi surpreendente e mostrou a habilidade do cineasta em dar conta de um gênero tão versátil. O filme é uma adaptação do conto The Mist, parte integrante da coletânea Tripulação de Esqueletos.

Após uma devastadora tempestade, David (Thomas Jane) e seu filho de oito anos Billy (Nathan Gamble) seguem rumo ao supermercado para adquirir o máximo de suprimentos necessários, mas são surpreendidos, no local, por uma bruma misteriosa que surge, trazendo juntamente com os seus tons nebulosos, alguns monstros e outras criaturas mortíferas. Presos do lado de dentro, não vai demorar para que os conflitos externos sejam apenas pano de fundo para as manifestações de egocentrismo, ódio, extremismo religioso e hierarquia nos jogos de poder tomem conta do espaço, o que torna a situação ainda mais insuportável.

Para os aliados ao mundo do cinema, as referências se tornam mais claras: O Nevoeiro lembra O Anjo Exterminador, Sinais, Os Pássaros e o irregular Fim dos Tempos. Narrativas sobre o perigo do confinamento e da postura que os seres humanos adotam em situações extremas como essa: há o artista, a professora dedicada, o rebelde sem causa, o candidato a líder, a primeira dona e o oráculo, todos com as suas verdades e idealizações, questionando o que pode ser feito diante da ameaça do desconhecido.

Para os que se prendem ao famigerado ideal de “fidelidade” entre o conto e o filme, desista: a versão audiovisual é pessimista, reverte o final do ponto de partida e se torna ainda mais interessante, pois abandona o caminho fácil da adaptação literal, deixando ainda espaço para referências aos clássicos do cinema, como por exemplo, os insetos se chocando contra a fachada de vidro do supermercado, numa clara alusão ao filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock.

A ação é bem guiada pela montagem eficiente de Hunter Via e pela direção e roteiro de Darabont. O trabalho musical de Mark Isham busca ser competente, mas não é o forte do filme, pois a narrativa foge dos clichês que se esforçam em assustar através dos truques sonoros. Ao longo dos seus 126 minutos de duração, O Nevoeiro é tenso e possui altas doses de adrenalina, além de ser um drama por excelência, adornado por uma bela catarse lá no final, bem ao gosto dos manuais clássicos de dramaturgia.

Um filme excepcional que, de certa forma, dialoga bastante com o ótimo Ensaio Sobre a Cegueira, tamanha a falta de habilidade das pessoas em enxergar certas “verdades” que estão expostas bem diante dos próprios olhos. A cegueira branca da adaptação do livro de José Saramago dá espaço para uma “bruma assassina”, envolta de monstros, mistérios e situações desconhecidas, alegorias que fazem do filme algo muito mais assustador que vísceras expostas e decadentes “jogos mortais”.

*Publicado originalmente em 16/10/2015.

O Nevoeiro (The Mist) — Estados Unidos, 2007
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont (baseado no conto The Mist, de Stephen King)
Elenco: Thomas Jane, Laurie Holden, Toby Jones, Marcia Gay Harden, Andre Braugher, William Sadler, Alexa Davalos, Jeffrey Deyum, Chris Owen
Duração: 126 min.

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28 comentários

Anônimo 15 de maio de 2020 - 12:33
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Rafael Lima 10 de setembro de 2017 - 22:06

Confesso que acho esse filme um pouco superestimado. O final é incrivelmente foda, mas acho que o resto do filme não é tão bom assim. Tem algumas sequências fantásticas ali, mas outras já não funcionam tão bem, pois o filme não parece ter tido o orçamento pra fazer as criaturas do jeito que deveria, e faltou uma manhã do Darabont pra conseguir driblar isso. Claro, o horror social estilão Romero pelo que ocorre dentro da loja, com a tirania estabelecida pela religiosa é bem conduzido, mas nada que tenha me impressionado tanto também.

Eu gosto do filme, mas ele não sobreviveu as expectativas que eu tinha na época quando assisti. Talvez, se visse hoje, com as expectativas mais baixas, eu gostaria mais, vá saber.

A resenha está ótima, com os pontos muito bem defendidos. Parabéns.

Abraço!

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Huckleberry Hound 13 de julho de 2017 - 12:52

Que final foi aquele eu fiquei sem palavras…
https://media.giphy.com/media/l2JHS7po8pGz94TgQ/giphy.gif
Não é pra todo mundo!

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JC 26 de junho de 2017 - 13:06

Um dos filmes que mais me surpreendeu quando eu assisti…achava que era nada demais.
Fiquei boquiaberto com o filme inteiro…e aquele final……..caray!!!!

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Anônimo 24 de junho de 2017 - 09:31
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Fórmula Finesse 23 de junho de 2017 - 10:33

O final – como não falar? – foi para orgulhar até S.King. Desolador na dimensão do pai, mas “suave” para o resto da humanidade…e aí caímos no erro que a tragédia do pai era a coisa mais triste que poderia se suceder.
No final das contas, no livro a porta para o abismo, para o aterrador,continua aberta… com poucas esperanças.
De todo modo: filmaço!

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Lucas Maia 22 de junho de 2017 - 23:51

Meu.. Um dos melhores filmes de terror, suspense e monstros que eu já vi. E você descreveu bem o final: “[…] além de ser um drama por excelência, adornado por uma bela catarse lá no final, bem ao gosto dos manuais clássicos de dramaturgia.”
Morro de amores por esse filme e estou ansioso pela série.
PS: Ótima crítica, como sempre. (Eu amo esse site, sério).

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Ronaldo Junior 22 de junho de 2017 - 21:30

Nesse filme o diretor começou a montar o elenco de The Walking Dead. Alem de duas atrizes da série, Frank queria que Thomas Jane fosse o Rick Grimmes, isso tudo por conta desse filme!

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JJL_ aranha superior 1 de agosto de 2016 - 19:23

Um dos melhores filmes de terror/monstro/suspense que eu já vi, com um final que faz inveja ao shyamalan, talvez até o hitchcock. Deveria ser considerado o alien dos anos 2000. Acho frank darabont o cara certo pra adaptar stephen king, gostaria que ele fizesse mais filmes baseados em obras do autor.

Responder
JJL_ aranha superior 1 de agosto de 2016 - 19:23

Um dos melhores filmes de terror/monstro/suspense que eu já vi, com um final que faz inveja ao shyamalan, talvez até o hitchcock. Deveria ser considerado o alien dos anos 2000. Acho frank darabont o cara certo pra adaptar stephen king, gostaria que ele fizesse mais filmes baseados em obras do autor.

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Bruno de Luca 10 de dezembro de 2020 - 14:57

Darabont sumiu… Uma pena. De verdade msm.
O cara dirigiu pouquíssimos filmes, mas belíssimos.

Responder
Michael 12 de dezembro de 2020 - 14:32

psé, faz falta ele

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Diogo Maia 8 de dezembro de 2015 - 03:41

Um dos finais mais pessimistas que eu já vi. O conto também é muito bom.

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tiagohardco 18 de outubro de 2015 - 16:07

O final mais desesperançoso que eu já vi em qualquer filme.

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leodeletras 20 de outubro de 2015 - 15:11

Exatamente, e por isso, um dos melhores.

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Jefferson Viana 17 de outubro de 2015 - 02:23

O que eu mais gostei do nevoeiro é que deu para ter uma ideia de como é as terras devastadas da torre negra, muita gente acha que o nevoeiro (o conto) abre para espaço todas, mas se não me engano king disse que na verdade é uma lumia, como a que aparece em mago e o vidro.

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leodeletras 20 de outubro de 2015 - 15:12

Eu li o conto há tempos Jefferson, não fiz muitas associações. Meu foco, depois de rever o filme pela segunda vez, foi a versão cinematográfica mesmo.

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JC 17 de outubro de 2015 - 00:42

Taí, um filme que muita gente não dá bola, mas é um show de terror/suspense.
Amei esse filme. Me grudou na frente da tv.

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leodeletras 20 de outubro de 2015 - 15:11

De fato é um grude, grande filme. Dizem que farão uma continuação, mas acho totalmente desnecessário, e você?

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JC 12 de novembro de 2015 - 18:31

Sem sentido nenhum fazer continuação desse filme!!

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Leandro Faria 16 de outubro de 2015 - 23:58

Uma outra observação sobre o filme é que ele consegue ser uma obra bem fiel ao livro, com exceção do final que consegue ser ATÉ MELHOR que o do próprio livro.

Excelente crítica!

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leodeletras 20 de outubro de 2015 - 15:10

São suportes diferentes Leandro, mas entendi o seu ponto de vista. Obrigado por nos acompanhar e continue por aqui.

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Mauro Guimaraes 16 de outubro de 2015 - 21:19

Excelente crítica… tbem gostei bastante do filme.
E o final então?!?… Viagem total!! (no bom sentido…)

Responder
leodeletras 20 de outubro de 2015 - 15:09

Obrigado, continue acompanhado o Outubro do Terror. Final avassalador né?

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Pedro Enzo 16 de outubro de 2015 - 20:09

cara esse filme é uma merda

Responder
leodeletras 20 de outubro de 2015 - 15:09

Depende do ponto de vista Pedro.

Responder
Marcos Leandro Vargas 1 de julho de 2016 - 16:30

Cara respeito sua opinião, só q concordar com ela é impossível.

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Marcos Leandro Vargas 1 de julho de 2016 - 16:30

Cara respeito sua opinião, só q concordar com ela é impossível.

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