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Crítica | O Nevoeiro (The Mist) – 1ª Temporada

por Iann Jeliel
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O Nevoeiro

Assim como o filme de Frank Darabont, a adaptação seriada de O Nevoeiro, baseada no conto de Stephen King, possui uma liberdade para fora dos acontecimentos de seu original literário. A ideia é pegar o conceito da fantasia do nevoeiro misterioso e a essência narrativa do estudo social que ele proporciona para promover sua própria história, com seus próprios personagens em sua própria forma. Considerando a gordura de tempo que uma série tem a mais que a duração de um filme, a temporada desenvolve seus personagens antes do fenômeno sobrenatural surgir, contudo já instaura os conflitos também antecipadamente de modo síncrono às apresentações dos personagens. Assim, o episódio piloto captura nossa atenção com certos gatilhos de história tão pesados quanto o que poderá acontecer na mística do nevoeiro.

No caso, refiro-me principalmente ao estupro de Alex (Gus Birney), filha do casal protagonista, Kevin (Morgan Spector) e Eve (Alyssa Sutherland), o que num contexto de cidade pequena, principalmente considerando que o principal suspeito é filho do policial da cidade, Jay (Luke Cosgrove), já cria uma excelente tensão entre os cidadãos para com os personagens que só irá ser potencializada pela inserção do nevoeiro, e ainda mais pela separação dos personagens em diferentes núcleos, tática padrão em séries, mas bastante estimulante narrativamente. Como o piloto é bem efetivo nas apresentações, logo estamos engajados a torcer pelo encontro da família principal novamente, enquanto outros personagens vão fornecendo mais material para dimensionar o universo da série. Temos o militar, Bryan (Okezie Morro), que perde a memória como gancho de mistério para as origens racionais do Nevoeiro, bem como a idosa, Nathalie (Frances Conroy), que perde o marido e começa a difamar possíveis origens religiosas do Nevoeiro, assim como personagens auxiliares como o policial Connor (Darren Pettie), o padre Romanov (Dan Butler) e a drogada Mia (Danica Curcic) para promoverem conflitos nesses núcleos que farão com que as interligue ao núcleo principal mais tarde.

É interessante como a série matura esses conflitos por bastante tempo e ao mesmo tempo os trabalha de forma bem objetiva. A ideia do showrunner Christian Thorpe é criar uma crescente de absurdo e loucura sem perder a urgência de sobrevivência momentânea. Para o terror isso é ótimo, em cada cena de passeio no nevoeiro a tensão se alavanca pelo desconhecimento do que esperar, porque dificilmente não dá em nada. Se não é a ameaça visual, bem distribuída ao longo dos episódios para não criar uma dependência dos efeitos visuais, é a criação de um novo conflito que atrasará o principal no intuito de promover uma desumanização efervescendo a chegada do clímax. Na igreja e no shopping essa forma de locomoção por atrasos parece cansativa por não haver um deslocamento geográfico, mas existem ali os mesmos princípios de crescente de desumanização através da perda de controle desses cenários para o primitivo.

O grande problema é que nem todos esses conflitos funcionam. O meio da temporada é marcado por alguns que realmente despencam a qualidade da série, por perderem o ritmo que vinha em uma crescente transicional convincente. Destaco negativamente tudo o que envolve o hospital, a inserção daqueles médicos psicóticos não funciona, bem como todo o plot em flashback do protagonista, seu irmão e enfiado triângulo amoroso com sua esposa, que é colocada em xeque pela vida do familiar. Ao menos, garante o fim do lado certinho que pode irritar muita gente, mas ao preço de episódios bem problemáticos. Inclusive não só nesse núcleo, uma vez que é o início da subversão daquele conflito do estupro, que estava conduzido até então sem dúvidas de que Jay havia sido culpado, começou a inserir essa dúvida através de uma crescente no romance dele com Alex, que passa a acreditar mais na sua palavra depois que é salva por ele, o que é no mínimo perigoso, para não dizer irresponsável.

Beira a romantização do estupro que só não se torna como tal pelo mínimo da dúvida, que só pode ter sido implantada conscientemente se tivesse uma virada a acontecer. E de fato, há essa virada, que só não é previsível porque o incômodo do romance entre a vítima e o potencial estuprador desvia nossa atenção do óbvio, o que se for intencional é tão irresponsável quanto. Se não era Jay, só podia ser outra pessoa, no caso, Adrian (Russell Posner), que estava na festa com Alex naquele momento. Dito e feito, a culpa vai para o homossexual que possui um arco dramático bastante detalhado, inevitavelmente direcionando sua psicopatia a uma reação ao preconceito que constantemente sofria. É bem fácil levar essa reviravolta para um lado também irresponsável, principalmente por toda a bola levantada sobre a condição do personagem.

Mas fato é que dentro da narrativa a subversão funciona, não só como última guinada ao conflito final para a convergência de núcleos, como também um conectivo da imprevisibilidade da natureza do nevoeiro enquanto fenômeno racional ou espiritual. A dúvida é potencializada, é quase como um gancho duplo, para a tensão dos desdobramentos climáticos – é difícil não se envolver muito com essa instauração caótica – e para a origem ser desenvolvida em próximas temporadas. É a irresponsabilidade de assumir falsamente um compromisso social a favor do entretenimento provocativo. Se é gratuito ou não, é outra história, fato é que fico profundamente dividido com essa escolha como tantas outras que a série adotou especialmente nos últimos episódios, que são de longe os melhores em termos cinematográficos, mas vêm de uma péssima construção central que os amarra. Encontrando o meio-termo ali, a adaptação cumpre seu papel de modo inconsequente, mas inegavelmente envolvente do início ao fim.

O Nevoeiro (The Mist) – 1ª Temporada | EUA, 2017
Criação:
Christian Thorpe
Direção: Guy Ferland, Nick Murphy, Adam Bernstein, David Boyd, James Hawes, Richard Laxton, Matthew Penn, T.J. Scott
Roteiro: Amanda Segel, Andrew Wilder, Peter Biegen, Noah Griffith, Peter Macmanus, Daniel Stewart, Daniel Talbott (Baseado no conto homônimo de 1980 de Stephen King)
Elenco: Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Darren Pettie, Russell Posner, Frances Conroy, Dan Butler, Isiah Whitlock Jr., Irene Bedard, Holly Deveaux, Romaine Waite, Bill Carr, Greg Hovanessian
Duração: 10 episódios – 43 minutos em média cada episódio

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