Crítica | O Nome do Filho

estrelas 4

O Nome do Filho (2015) é a adaptação italiana para a peça francesa Qual é o Nome do Bebê? (2010), que já teve uma adaptação cinematográfica em 2012 — bem recebida pelo público mas nem tanto pela crítica –, dirigida pelos próprio autores, Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte. Agora é a vez de uma versão italiana, onde a cineasta Francesca Archibugi, que co- escreveu o roteiro com Francesco Piccolo, adaptou os personagens originais à realidade de seu país e atualizou as questões culturais, políticas e sociais para funcionarem melhor neste novo cenário, que ganhou também maior liberdade na representação do passado dos protagonistas e conseguiu se desvencilhar das amarras teatrais, muito embora nesse ponto tenha havido a maioria dos tropeços cometidos pela montagem.

Em comparação à versão francesa, não há exatamente muitas surpresas para o público. Quem conhece a obra original sabe exatamente para onde o texto caminhará e quais os segredos e intenções escondidas do espectador no início e reveladas aos poucos, como matéria-prima para a comédia. Todavia, a versão de Archibugi e Piccolo consegue prender a todos e faz surpresas mesmo para os conhecedores do original, especialmente no conceito formal da narrativa e nas hilárias adequações da peça para encaixar-se à cultura italiana.

O espectador é então conquistado por uma onda de relações familiares e fraternas que representam os vários laços entre as pessoas que encontramos em nossa sociedade. Estão reunidos em um espaço cênico uma escritora de pouco brilhantismo literário mas campeã de vendas (percebam que cada configuração de personagem é acompanhada de um estereótipo, problema ou fato de nossa sociedade); o marido viciado em internet que praticamente abandonou a esposa; o irmão salafrário, estúpido mas de bom coração; o amigo que todos suspeitam que é gay; a irmã, esposa e dona de casa, sempre preocupada com os filhos, em ser uma boa anfitriã e em disfarçar sua histeria, à qual ela dá vários nomes científicos para vestir de normalidade o fato de estar sublimando descontentamentos no casamento.

Dentro de um formato que disfarça o componente teatral mas deixa clara a atmosfera claustrofóbica, a diretora vai alternando espaços, visitando os vários cômodos da casa, o terraço, a rua. A sensação de “estar preso a um palco dinâmico” está aqui, mas ela não se curva ao dinamismo narrativo e seu disfarce vem tanto na forma como a montagem desse “bloco presente” é feita, quanto nas situações dos diálogos, que obrigam os personagens a fugirem uns dos outros, a unirem-se e separarem-se em grupos ou isolarem-se para pensar ou demonstrar raiva. É também dentro dessa dinâmica que vemos a forma como cada um lida com suas frustrações e sentimentos, sendo a noite do jantar na qual se estrutura o filme o evento onde as máscaras caem, os segredos são revelados e algumas verdades guardadas durante anos são ditas.

Existem excelentes momentos cômicos e políticos no filme, além de uma variedade de opiniões que vão de preconceituosas a libertárias e humanistas. Um dos momentos mais deliciosos é justamente o que eu escolhi como fotograma de destaque do texto, onde os personagens cantam e dançam a canção Telefonami Tra Vent’anni, de Lucio Dalla. Também é aí o único momento em que os flashbacks funcionam de verdade no filme.

Nós entendemos perfeitamente que esse recurso foi utilizado no desenvolvimento da obra para contornar um aspecto que funciona bem apenas na peça, mas pela força do texto no presente, esses flashbacks acabam se perdendo e tornando tudo muito confuso para quem não prestar muita atenção no grau de parentesco e relação de um personagem para com o outro. Evidente que se trata de uma armadilha de roteiro, posto que trabalhar essas relações no presente tornaria o texto didático e estragaria algumas surpresas. O oposto, portanto, saiu truncado e pouco coeso para com o restante da obra, exceto, como já apontei, no momento de confraternização embalado pela canção de Dalla.

O Nome do Filho é uma comédia feita sob medida para amigos de longa data e familiares que apesar de serem muito próximos, não deixam de brigar e alfinetar-se um ao outro frequentemente. O grande segredo do filme é justamente esse diálogo com a realidade do público e de nosso tempo. Se o espectador conseguir não se confundir com a definição dos papéis de cada um — e não se perder nas cenas entre passado e presente –, certamente terminará a sessão com o coração aquecido e um grande sorriso no rosto.

O Nome do Filho (Il nome del figlio) — Itália, 2015
Direção: Francesca Archibugi
Roteiro: Francesca Archibugi, Francesco Piccolo (baseado na peça de Matthieu Delaporte, Alexandre de La Patellière).
Elenco: Alessandro Gassman, Micaela Ramazzotti, Valeria Golino, Luigi Lo Cascio, Rocco Papaleo, Carolina Cetroli, Raffaele Vannoli
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.