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Crítica | O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss

por Kevin Rick
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O Nome do Vento é o primeiro livro da trilogia A Crônica do Matador do Rei, escrito por Patrick Rothfuss, e acompanha a jornada do Kvothe, desde sua infância como membro de uma trupe itinerante, chefiada por seus pais, denominada de os Edema Ruh, até sua vida adolescente conturbada, primeiramente em Tarbean, como um menino de rua, e, posteriormente, como membro da Universidade. Toda a história é contada pelo próprio Kvothe, que atualmente atende pelo nome de Kote, já na idade adulta, agora dono da hospedaria Marco do Percurso. Sua narração de seus eventos vividos é documentada pelo Cronista, também contando com a presença do misterioso Bast, o leal aprendiz do Kvothe. Antes de adentrar na narrativa principal da obra, preciso pontuar como adoro todos os momentos mais intimistas do trio sempre que há uma pausa na escrita do Cronista, principalmente pelos vislumbres de nuances e personalidades dos personagens que o autor joga aos pouquinhos para o leitor. Esse paralelo do passado contado pelo protagonista e as conversações no presente criam uma atmosfera muito interessante de leitura, pois as pequenas informações no diálogo deles funcionam como vestígios instigantes que moldam nossa percepção da trajetória do Kvothe, destoando de uma leitura mais direta, já que temos essa pequena gama de dados que criam uma experiência imersiva ao sabermos de certos desfechos e eventos de antemão, mas não necessariamente entendermos o desenrolar da ação. É um artifício de metaficção bem bacana, promovendo um mergulho de suposições, quase que num joguinho de adivinhações narrativas proposto pelo escritor.

Mas falando da trama principal, Patrick Rothfuss claramente divide o arco do protagonista em três segmentos –  mais as já citadas periódicas cenas na hospedaria, e também uma pequena introdução para o trio. O primeiro é sua infância sublime na famosa trupe familiar, somado à entrada do Abenthy na narrativa, o primeiro mentor do Kvothe (toda jornada de herói que se preze precisa deles, não é mesmo?). É a partir da sua introdução que inicia-se a apresentação do fabuloso sistema de magia da obra, que será aprofundado na Universidade. O autor tem total controle desse artifício, que muitas vezes acaba se tornando básico nas mãos de um escritor com pouca criatividade, exibindo o sistema das simpatias, alquimia, nomeação, e por aí vai, com um forte teor científico e filosófico, que é até complicado de entender ou seguir em alguns momentos, mas sempre divertido e obsessivo de acompanhar. Aliás, o que a obra carece na construção de ambientações épicas, é engradecida nesse estudo das propriedades fantásticas do universo fantasioso. Mas retornando ao cerne do primeiro segmento; ele é uma leitura que remete-se a um livro infantojuvenil – toda a obra tem um pezinho no gênero, mas aqui principalmente –, servindo como um estudo do âmbito familiar e da genialidade precoce do protagonista. O arco termina de maneira trágica especialmente por essa construção, que é sim excessivamente longa, mas essencial para a quebra de realidade seguinte. Ademais, é uma agradabilíssima leitura introdutória, tanto para Kvothe e o sistema de poder da obra, quanto para o antagonista principal, o Chandriano.

Vou tentar me conter nos spoilers mais escandalosos do livro, mas os acontecimentos terríveis da infância do protagonista são elevados na cruel Tarbean, o segundo arco principal da obra. Assim como o anterior, tenho comigo que houve uma prolongação exagerada da estadia como menino de rua, mas adoro a quebra de realidade e completa transformação da narrativa. É tudo bem clichê dentro dos parâmetros da jornada do herói, que deve sofrer antes de atingir seu propósito, mas é um clichê emocionalmente bem feito. Novamente, noto uma tremenda dificuldade do escritor em criar a ambientação de localidades épicas, contudo, sua escrita de prosa e fortemente poética inspira magia em cenas comuns e torna algumas passagens das mais habituais – em Tarbean, cruéis – extraordinárias. Aliás, toda a obra tem essa atmosfera lírica, somada à música como núcleo principal das emoções e relacionamentos do protagonista, sendo completamente insano quão lindamente escrita é a representação da melodia e dos sons, de como os dedos dançam nas cordas e como as vozes alcançam a alma, e como a falta das canções e dos instrumentos elaboram uma visão de mundo cinza para Kvothe. Após essa fase de amadurecimento forçado nas ruas aterrorizantes de Tarbean, somos levados à Universidade. Toda a história no centro de ensinamento é meu arco favorito da obra, mas, ironicamente, também é o mais fraco estudo de personagem do Kvothe.

É aqui que explano sobre a maior polêmica do livro: a caracterização do protagonista. Isso é um assunto fervorosamente debatido por leitores e fãs de O Nome do Vento, existindo uma rachadura de opiniões sobre a escolha de Patrick Rothfuss por construir Kvothe quase como um ser divino. E não falo sobre os boatos exagerados que ele mesmo espalha, mas sobre sua genialidade absurda para literalmente tudo dentro do contexto da narrativa, seja as simpatias, o aprendizado, a música, o teatro, até coisas minuciosas como aparência de cavalos. O escritor dá indícios disso durante as lições do Abenthy, todavia, aqui, é exagerado de modo demasiado, criando um certo distanciamento empático com o personagem. Mas verdade seja dita, ainda que concorde com essa visão, não é algo que me incomodou de forma incessante.  Primeiro que muitos dizem que é um clichê mal feito, mas será mesmo? Em minha experiência com livros de fantasia, o protagonista acaba na vertente do herói improvável ou protagonista destinado, e pode-se fazer o argumento que Kvothe encaixa-se nesta última categoria, mas, no primeiro livro da trilogia, o que recebemos é um personagem falho, que sabe da sua inteligência acima da média, tornando-o meio orgulhoso, e até arrogante as vezes, descontruindo certas convenções esperadas do gênero. Mantenho o argumento da sua caracterização como ponto negativo em alguns sentidos, mas discordo do fundamento que sua genialidade ostensiva acaba com a qualidade da obra.

Gosto mais da leitura quando Kvothe interage com outros personagens, até porque a narração em primeira pessoa limita o desenvolvimento dos personagens secundários, especialmente com Wilem e Simon, em toda sua comicidade e relacionamento quase fraternal; Ambrose e seu antagonismo de nobre vingativo, tão comum no gênero, mas, novamente, Patrick Rothfuss trabalha muito bem com arquétipos; e, claro, Denna.  Minha experiência com ela foi uma montanha-russa, desde o completo esquecimento da sua primeira aparição, até uma entediante e longa introdução para seu novo surgimento na trama, e, por fim, a vejo como a melhor personagem secundária desenvolvida narrativamente do romance, em toda sua imperfeição e luta para sobrevivência num mundo machista e sem oportunidades. O Nome do Vento tem sim alguns problemas, e ficará aquém de quem espera um super épico de fantasia ou uma experiência medieval elaborada com vários núcleos, já que, a obra é uma leitura de metaficção fantasiosa agradável, que pega clichês do gênero, misturando-os com um teor mais sombrio, e uma escrita poética, propondo uma prazerosa e sentimental jornada do herói, com um pouquinho de petulância no meio.

O Nome do Vento – A Crônica do Matador do Rei: Primeiro Dia (The Name of the Wind – The Kingkiller Chronicles: Day One, EUA – 2007)
Autor: Patrick Rothfuss
Editora original: DAW Books
Data original de publicação: 27 de março de 2007
Editora no Brasil: Editora Arqueiro
Data de publicação no Brasil: 2009
Tradução: Vera Ribeiro
Páginas: 656

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