Crítica | O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger, lançado em 1994, o filme ponto de partida comemorava dez anos. O personagem havia passado por um extenso processo de desgastes no bojo da cultura pop e da indústria cultural, seara de produção que esmiúça tanto um tema ao ponto de qualquer tentativa de retorno ser enfrentada como algo repetitivo ou desnecessário. Com a sétima narrativa da franquia A Hora do Pesadelo, o veterano foi sábio ao desconsiderar qualquer coisa entre os capítulos dois e seis, tendo como foco a atriz que interpretou a final girl Nancy e os desdobramentos de Freddy Krueger em sua carreira. Antes de adentrar na análise da produção, creio que seja necessária uma breve recapitulação do personagem na cultura cinematográfica entre os filmes de 1984 e 1994.

No primeiro, Freddy começa a matar os jovens da Rua Elm Street e Nancy, juntamente com os seus amigos, busca uma alternativa de driblar os planos do monstro. Na continuação, o assassino dos pesadelos possui um jovem para fazê-lo cometer os seus crimes na “realidade”. Em sua terceira incursão, Freddy entra em combate com Nancy num hospital psiquiátrico, interessado em matar os sobreviventes da Rua Elm Street, enviados para o local numa tentativa dos familiares de salvaguardar as suas vidas ameaçadas. Ao longo do quarto filme, Freddy precisa enfrentar uma jovem com a sua trupe, os “guerreiros dos sonhos”, antecipação para o quinto filme, banal, ao retratar Krueger a atacar suas novas vítimas por meio dos pesadelos do feto da protagonista. No “último” embate, Freddy usa um sobrevivente de Springwood para descobrir o paradeiro de sua filha, jovem com novo nome e única a ter a capacidade de trancá-lo no inferno definitivamente.

Diante do exposto, temos bastante dispersão, narrativas burlescas demais, tentativas de humor que não funcionaram e a transformação do personagem numa piada ruim do cinema. Foi engajado com esta possibilidade de torna-lo mais forte e intenso que o realizador concebeu o retorno de Freddy Krueger. Tão magnético e instigante quanto o primeiro filme da franquia, a sétima incursão é um dos melhores exercícios da metalinguagem de toda a história do cinema, não apenas do subgênero slasher, mas numa análise mais panorâmica. Em parceria com Kevin Williamson, o cineasta Wes Craven adentraria dois anos depois no universo de Ghostface, outra obra-prima do cinema nos anos 1990, mas antes disso, fez muito bonito com o resgata de Freddy depois de tantas continuações ruins. Ao longo de seus 112 minutos, O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger não foca nas gravações de bastidores, erros e acertos da câmera, composição e contratação de elenco, dentre outras situações comuns de filmes metalinguísticos.

O seu foco é o impacto da ficção na vida dos atores que se tornam celebridades e como as fronteiras entre o que é realidade e o que é ficcional transforma-se em uma zona assustadoramente tênue. Também responsável pelo roteiro, Wes Craven nos conta a trajetória de Heather (Heather Langenkamp), uma mulher que se casou com Chase Porter (David Newson) e tem um filho, Dylan (Miko Hughes). Enquanto o marido exercer a função de supervisor de efeitos especiais para cinema, ela vive a temporada de mãe em tempo integral. Em Los Angeles, Heather precisa lidar com alguns terremotos frequentes, alegoria para a sua vida pessoal e estado psicológico, abalada pela presença constante de um fã obcecado que a liga constantemente e entoa a famosa música tema de Freddy Krueger, cenas que são acompanhadas pela condução musical de J. Peter Robinson na atmosférica trilha sonora.

Cansada disso tudo, a atriz decide que precisa ficar o mais longe de tudo isso, isto é, sem contato com pessoas e situações da vida midiática. A abertura do filme, no entanto, nos reforça que as coisas não serão tão fáceis como imaginado. São créditos iniciais que emulam a abertura do primeiro filme. Primeiro contemplamos as mãos de alguém que constrói uma luva com navalhas. Logo mais, arranca a sua mãe e o sangue se esparrama, tendo no fundo alguém que grita “corta”. Sabemos, então, ser os bastidores de um filme de terror. A situação entra em descontrole quando a mão se movimenta sozinha e sai perambulando por trechos do set de filmagens, até chegar em um dos membros da equipe e mata-lo violentamente. A histeria é seguida de Heather despertando de seu pesadelo, com a casa sacudida por um abalo sísmico violento.

Há uma sensação estranha em torno de sua realidade, algo que será reforçado apenas adiante, com a chegada de Freddy Krueger a se apresentar, maquiado pela equipe de Howard Berger, excepcional em seu trabalho, reforçado pelo design de som supervisionado por Paul B. Klay, cuidadoso no tilintar as garras do antagonista que é uma ameaça sobrenatural, mas também faz estragos físicos. Ainda não sabemos quais são os planos de Freddy Krueger, mas tudo indica que será engajado para uma batalha épica. A trama continua com os demais conflitos na vida da personagem. Ela é constantemente citada na TV, o seu filho, Dylan, sofre de sonambulismo e apresenta comportamento instável, com algumas crises preocupantes. Tudo fica ainda pior quando o seu marido morre num acidente de carro provocado no retorno de uma viagem.

Dizem que ele dormiu no volante, mas Heather desconfia de outra versão, principalmente depois que pede para ver o cadáver. Há algo estranho, como se o personagem da ficção estivesse presente na vida real, trajado pelos figurinos de Mary Jane Fort, eficientes na concepção do monstro para a nova era. Destaque também para a direção de fotografia de Mark Irwin, cuidadosa na captação dos espaços, bem como no posicionamento dos personagens e na iluminação de algumas passagens, em especial, na assustadora peça que um programa televisivo faz com Heather durante uma entrevista, ao levar Robert Englund para brincar com a atriz e divertir a plateia.  Convidada para voltar aos filmes, Heather demonstra desinteresse.

Assustada com tudo que acontece em sua volta, ela decide conversar com Wes Craven, o diretor do primeiro filme em que atuou. Eles refletem a condição do personagem, o legado da série e o cineasta diz que talvez Freddy Krueger tenha ganhado força descomunal e saído das malhas ficcionais para exercer o seu papel demoníaco na realidade. Aterrorizada e com ameaças cada vez mais próximas, tal como a morte de Julie (Tracy Minderdorff), cena muito bem orquestrada e que referencia Tina, a ser arrastada pelas paredes no primeiro filme, Heather precisa lutar pela sua vida e para conter Krueger e suas garras afiadas, focadas em agarrar o filho da atriz para atrai-la ao seu reinado de terror. Serpentes, fogo, espaços sinuosos, armas brancas afiadas e outros itens do design de produção de Cynthia Kay Charette transformam o último ato numa representação visual formidável do que pode ser considerado o espaço cênico de um pesadelo.

Com situações que beiram o pesadelo e a realidade, perseguições de todos os lados, das sobrenaturais aos elementos reais que a pressionam, a final girl de 1984 cumpre o seu papel protagonista e aceita o embate com Freddy ao adentrar em seu mundo infernal, num desfecho empolgante e com o final já esperado pelo público: o enjaulamento do antagonista nas profundezas, com retorno apenas no crossover com o monstro de Sexta-Feira 13, lançado em 2003, o exagerado e divertido Freddy vs. Jason, filme desconectado do universo de Nancy, focado exatamente no legado dos seus personagens principais. Se houvesse apenas esse filme e o primeiro, Freddy Krueger seria um personagem com o mesmo legado impactante. Mesmo no exercício do papel de fãs, é preciso reconhecer que a franquia A Hora do Pesadelo sobreviveria tranquilamente sem todas as continuações entre o segundo e o sexto filme, completamente descartáveis e nulos como entretenimento, tamanha a “ruindade” de suas estruturas narrativas.

O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger (Wes Craven’s New Nightmare, 1994 – EUA)

Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven
Elenco: Robert Englund, Heather Langenkamp, Wes Craven, David Newsom, Marianne Maddalena
Duração: 112 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.