Crítica | O Olho e a Faca (2018)

“O homem progride porque é desgraçado e se aperfeiçoa em desgraça e para a desgraça”.

O Olho e a Faca possui aquela pretensão clássica, aparente em produções “menores” do cinema brasileiro, em se resolver filosoficamente, mas se esquecendo que, ao instruir uma base narrativa para si mesmo, deve minimamente respeitar o seu planejamento, quando ainda uma planta do projeto cinematográfico propriamente dito. A vitória como encaminhamento à derrota. Uma premissa simples, em que o homem que conquista o sucesso, aqui interpretado por Rodrigo Lombardi, acaba se enforcando em suas próprias ambições, inconciliáveis com a vida. Um acidente na plataforma petrolífera em que trabalha assombra os seus sonhos, assim como os de seus colegas – as consequências são demasiadamente pequenas para serem críveis. Quem ocupará o cargo deixado em aberto? A criação de ambiente inicial, com uma cinematografia competente capturando o cenário mapeado pela câmera, sustenta o começo do longa-metragem. O diretor Paulo Sacramento, no entanto, quer justamente criar uma obra em projeção discursiva similar a de Filme Demência, do cineasta Carlos Reichenbach. A ambição corta os olhos.

A intercalação entre esse espaço e o espaço comum ao homem, sua vida privada, retira o charme do longa-metragem, mas apresenta um confronto inerente ao seu protagonista. O personagem, além de estar traindo sua mulher, não parece ser realmente uma pessoa ruim, com más intenções, ou que, por outro caminho de observação, acabou cometendo erros verdadeiramente drásticos na sua trajetória. Os equívocos são menores – pontualmente interessantes para a abordagem de uma sociedade que não dá atenção a coisas importantes, como o adolescente rebelde que bate a porta de casa e não é repreendido -, porém, não competem suficiência para qualquer intenção mais honesta sobre esse drama, configurado, sobre os olhos dos personagens retratados, como as facas mais afiadas do mundo, quando, em contrapartida, são trivialidades da vida mundana. Paulo Sacramento quer criar a destruição sobre camadas de caos mínimo, desonestamente trabalhadas, quase como em um exagero cômico, para fomentar essa jornada de destruição do homem – o filho problemático, o pai distante, a promoção maldita, o acidente passado.

“O nosso filho está na delegacia por ter tentado esganar um gato”, esbraveja a esposa do protagonista, interpretada por Maria Luísa Mendonça, ignorando a notícia da promoção de emprego, citada pelo seu marido. A apresentação desse fato é completamente patética. Como resolver os problemas desse garoto, claramente um sociopata? O adolescente é, portanto, enviado para o intercâmbio, nesse mundo em que psiquiatras, internatos, terapeutas e afins aparentemente não existem. A punição é a recompensa. A cena do menino espancando o seu irmão mais novo, um pouco antes, é vergonhosa. Uma compreensão de família problemática que se encaminha para uma direção muito mais complexa do que a abordada. O objetivo é complicar as dinâmicas dentro desse núcleo, entretanto, a complicação torna-se uma sobreposição do ridículo sobre o ridículo, devido a precária condução de qualquer viés dramático, dado, por exemplo, o péssimo texto. As atuações, paralelamente, são horrorosas, artificiais a esse universo que, na realidade, é completamente artificial – uma coerência na inexistência de outras.

Rodrigo Lombardi é um competente sofredor em cena, vítima de uma sociedade que o escanteou, transformou-o em sucata, quando tudo que o pobre coitado conseguiu foi uma promoção no seu emprego. Uma promoção que nada significa e, portanto, o homem se desmorona, chora à espreita de um corvo, prenunciando tempos ainda mais difíceis. O Olho e a Faca não tem capacidade discursiva para compensar uma proposição dramática intencionada, porém, distante de qualquer cumprimento substancial. A essência do longa-metragem comporta uma ruptura moral no seu protagonista que, na verdade, é completamente vaga, sem sentido, perdendo algum rumo mais concreto quando retira-se da plataforma petrolífera, cenário que, ao menos, possibilitava interações raramente observadas, mais orgânicas, e embarca em uma vida mundana desgraçada e extremamente genérica. Um longa-metragem que não adiciona, muito menos subtrai, apenas existe para propor o vago a ninguém. Os roteiros precisam ser pensados, necessitam de mais substância. Queria que meus olhos tivessem sido cortados. O sexo desnecessário como cúmulo.

O Olho e a Faca – Brasil, 2018
Direção: Paulo Sacramento
Roteiro: Eduardo Benaim, Paulo Sacramento
Elenco: Rodrigo Lombardi, Débora Nascimento, Esther Góes, Genézio de Barros, Lourinelson Vladmir, Luís Melo, Maria Luísa Mendonça, Roberto Audio, Roberto Birindelli, Simone Iliescu,
Duração: 99 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.