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Crítica | O Paciente Inglês

por Ritter Fan
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O saudoso Anthony Minghella tem uma filmografia microscópica na cadeira de diretor, com apenas sete longas, com O Paciente Inglês, O Talentoso Ripley e Cold Mountain sendo de longe os mais destacados e importantes. Mas foi o primeiro que, sem dúvida alguma, revelou-o para o mundo ao concorrer a nada menos do que 12 estatuetas do Oscar, tendo levado nove, dentre elas as de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), derrotando Fargo, Jerry Maguire, Shine: Brilhante e Segredos e Mentiras no processo.

Destaco a vitória avassaladora do longa na cerimônia do Oscar de 1997 para estabelecer com clareza seu escopo épico, um dos fatores que certamente contribuiu para angariar votos, algo que o coloca em quase que em completa antítese em relação aos demais concorrentes, todos de caráter intimista e escopo reduzido. No entanto, O Paciente Inglês é um dos raros épicos que consegue ter uma abordagem ambiciosa, geopoliticamente relevante e beneficiando-se de fotografia daquelas de fazer o queixo cair e que se beneficia das filmagens em locação na Tunísia e na Itália, mas sem perder de vista o aspecto micro que desenvolve tão bem, no caso o romance proibido entre o Conde László de Almásy (Ralph Fiennes), cartógrafo húngaro trabalhando no Saara e Katharine Clifton (Kristin Scott Thomas), mulher casada que se junta à expedição com o marido Geoffrey (Colin Firth).

O romance, que acontece durante os anos 30, porém, é contado em flashbacks enquadrados por sequências ao final da Segunda Guerra Mundial, em que a enfermeira militar franco-canadense Hana (Binoche) abandona um comboio para instalar-se em um monatério italiano bombardeado com um misterioso paciente com o corpo todo queimado que ela julga estar em estado frágil demais para a viagem. O mistério de sua identidade não permanece por muito tempo, pois é a partir dos relatos do homem moribundo para ela que aprendemos sobre o desenrolar do romance mencionado e o que o levou a ficar nesse estado, algo que também vemos no prólogo, para dizer a verdade, ainda que sem a contextualização necessária. Dessa maneira, o roteiro que Minghella escreveu com base em romance de Michael Ondaatje que, por sua vez, ficcionaliza pesadamente a história real de Almásy, ganha camadas ao lidar com o protagonista também no presente da narrativa e o quanto ele afeta as vidas de Hana e também de Kip (Naveen Andrews), engenheiro militar Sikh que começa um romance com Hana quando desarma uma mina no monastério e do misterioso Caravaggio (Willem Dafoe), agente da inteligência canadense que não tem os dedões das mãos que aparece por ali com um propósito que vai ficando claro ao longo do desenrolar da narrativa.

As idas e vindas iniciais são um tanto cansativas e não contribuem muito para a compreensão do filme. Muito ao contrário, elas criam uma desnecessária sensação de alienação no espectador que não cumpre função narrativa alguma que não seja dar a impressão de estarmos vendo uma obra mais complexa do que ela realmente é. Afinal de contas, tanto o mistério sobre a identidade do homem terrivelmente queimado quanto as linhas gerais do que aconteceu a ele são desnudados muito rapidamente e a confusão inicial de forma alguma contribui para essa escolha, algo que talvez a montagem do grande Walter Murch (Apocalypse Now, O Poderoso Chefão III) poderia ter evitado com o inicio do momento de enquadramento já próximo do monastério e não antes e certamente sem o prelúdio aéreo.

Por outro lado, a fotografia de John Seale (A Testemunha, Mad Max: Estrada da Fúria) é realmente deslumbrante não só por conseguir capturar o deserto de maneira quase lírica, por vezes emulando o incomparável trabalho de Freddie Young em Lawrence da Arábia, como também intensificando as cores naturais em tons amarelos, marrons e sépia para lidar com o romance que desabrocha conforme László conta sua história. É a perfeita transposição visual do que o roteiro exige da história, para concluir em poucas palavras.

No entanto, curiosamente, o romance em si entre o húngaro e a britânica jamais alcança o calor que a fotografia e o roteiro tentam afirmar que tem. Por mais estranho que possa parecer, há uma frieza talvez grande demais nas atuações de Fiennes e Scott Thomas que servem de barreira invisível para uma conexão maior do que algo simplesmente protocolar, distante e, diria, casual. Sim, sei muito bem que as ações e o desenvolvimento do romance ao longo dos 162 minutos demonstram muito claramente o que um sente pelo outro, mas, se ignorarmos os eventos e o que acontece com eles e focarmos apenas na dupla, ela não convence tanto quanto talvez devesse.

E não é que os atores tenham desempenhos fracos, pois realmente não é o caso aqui. Tanto Fiennes quanto Scott Thomas têm presença em câmera e funcionam muito bem separadamente, mas, juntos, talvez em razão do próprio Minghella ter querido assim, eles não estabelecem a tão procurada química. É basicamente o contrário do que vemos entre Meryl Streep e Robert Redford em Entre Dois Amores, ainda que o longa de Sydney Pollack tenha problemas de outra natureza. Chega ao ponto de os eventos no presente do filme, carregados magnificamente por Binoche em uma performance muito cuidadosa e realista da atriz, serem bem mais interessantes do que o “amor no deserto” dos flashbacks.

A força das imagens de O Paciente Inglês é inegável e Minghella tira o máximo proveito disso. No entanto, o filme carece de um romance que realmente permita a realização de seu potencial. Ainda é uma obra monumental, com muito mais acertos técnicos do que erros, mas o lado humano acaba deixando a desejar quando o foco sai do monastério italiano e nos transporta para as areias do deserto egípcio.

O Paciente Inglês (The English Patient, EUA/Reino Unido – 1996)
Direção: Anthony Minghella
Roteiro: Anthony Minghella (baseado em romance de Michael Ondaatje)
Elenco: Ralph Fiennes, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Kristin Scott Thomas, Naveen Andrews, Colin Firth, Julian Wadham, Jürgen Prochnow, Kevin Whately, Clive Merrison, Nino Castelnuovo, Hichem Rostom, Peter Rühring, Geordie Johnson, Torri Higginson, Liisa Repo-Martell, Raymond Coulthard, Philip Whitchurch, Lee Ross
Direção: 162 min.

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