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Crítica | O País do Carnaval, de Jorge Amado

por Luiz Santiago
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Diante da grandiosidade da natureza o brasileiro pensou que isto aqui fosse um circo. E virou palhaço…

Jorge Amado enviou os originais de O País do Carnaval para o poeta e escritor Augusto Frederico Schmidt, no Rio de Janeiro, quando tinha apenas 18 anos de idade. Publicado um ano depois (1931), este romance de construção — ou, segundo análise de José Castello, de desconstrução do próprio autor –, O País do Carnaval acompanha o retorno de Paulo Rigger ao Brasil, após sete anos “estudando Direito” em Paris. Filho de um rico produtor de cacau, o jovem aporta no Rio de Janeiro em pleno dia de Carnaval e o primeiro momento do livro está focado no reencontro desse personagem com sua terra, a quem não se sente ligado, mas diante da qual não consegue ficar indiferente –, mesmo que seja para se horrorizar diante de uma marchinha de Ary Barroso que todos cantam a plenos pulmões: “Esta mulher / Há muito tempo me provoca / Dá nela! Dá nela!“.

Penso que é muito difícil que um leitor chegue à literatura de Jorge Amado exatamente por O País do Carnaval, seu primeiro livro. Normalmente vem-se de Capitães da Areia (1937) ou normalmente das adaptações de livros que acabaram se tornando os mais populares do autor aqui no Brasil, juntamente com Capitães, por conta das exigências dos vestibulares: Gabriela, Cravo e Canela (1958), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966) e Tieta do Agreste (1977). E vindo de outras obras, a chegada ao País do Carnaval torna-se um pouco chocante em termos de estilo e temas.

Desse primeiro elemento, o estilo, é possível entender rapidamente todas as motivações. Não é só o fato de ser o primeiro livro do autor, mas também o fato de ter sido escrito por um adolescente, alguém que sempre demonstrou um espírito rebelde e que tentava de todas as formas fugir das imposições paternas, especialmente em relação à carreira. E neste aspecto mora o segundo elemento de diferença do livro, a temática. Sendo o mais investigativo e filosófico dos livros de Jorge Amado, O País do Carnaval retrata uma geração que tentava se encontrar em meio às inúmeras influências culturais e ideológicas, ao mesmo tempo que se perdia nas possibilidades, uma vez que todos os caminhos pareciam insatisfatórios e o discurso de um dos personagens mais fortes do romance, Pedro Ticiano, deixa claro que não há propósito algum nessa busca por essência, razão de viver ou felicidade. O ceticismo e a ausência de desejo por ele pregadas se torna a promessa de um nirvana sobre a cabeça dos mais jovens, que se debatem diante dessa busca ao mesmo tempo que tentam… viver.

Conhecendo os passos de Jorge Amado e sua história de vida, é fácil encontrar diversas incorporações pessoais do autor aqui. Sua experiência ainda bem novo com o jornalismo é utilizada como trampolim para explorar a convivência entre os companheiros que criam um jornal e passam muito tempo discutindo ideias sobre nossa cultura popular e elitista, sobre a Revolução de 1930, sobre raças, prostitutas, religião e a vida intelectual (em diversos níveis) no Estado da Bahia e brevemente no Rio de Janeiro e no Piauí. Infelizmente essa constante busca e os muitos discursos dos personagens em torno da filosofia e da literatura (com momentos às vezes enfadonhos e repetitivos) impedem que haja uma real fluidez na construção desses personagens. O autor interrompe longamente certos arcos, e mesmo que os retome com competência depois — o caso de Ricardo Braz é o mais exemplar –, o problema de ritmo não se dissipa. Como consequência direta desse foco meio desencontrado, o autor só consegue passar de verdade o ideal de maturidade para o grupo na parte final da obra, depois de parecer inconstante e até contraditório na forma como criou os arquétipos de brasileiros para o livro, encarnando-os nesses personagens centrais.

As últimas páginas de O País do Carnaval nos trazem uma melancolia imensa. O olhar indagador (e muitas vezes cínico) do autor sobre o Brasil — o eterno “País do Futuro” — termina em uma posição crítica das pessoas no seu meio social. E é então que muitas ideias expostas no miolo da obra começam a valer a pena. Correntes filosóficas — claramente uma marca de influência da literatura europeia que ele abandonaria já em seu livro seguinte, Cacau, de 1933 — se misturam a crises de realização pessoal, olhar amargo para a política, para o povo e o país, numa dualidade de conclusão sobre a serventia da vida e a possibilidade de felicidade que não perde de vista o farol de salvação em meio à estranha tristeza de viver. Mesmo desalentados, os personagens terminam fazendo alguma coisa, engajando-se em algo, rompendo com grilhões para chegarem a algum lugar. Há uma certa beleza em toda essa neblina, é verdade, e isso faz jus à ideia de uma obra de formação ou deformação da gente e do país em que essa gente habita. Um Brasil que parece protelar a sua grandeza para um ponto sempre mais adiante. E um povo que parece às voltas sempre com os mesmos problemas.

Considerado subversivo, O País do Carnaval estava entre os livros de Jorge Amado que foram queimados em praça pública em Salvador, por determinação da polícia do Estado Novo, em 1937.

Portal Jorge Amado

O País do Carnaval (Brasil, 1931)
Autor: Jorge Amado
Editora original: Livraria Schmidt Editora
Edição lida para esta crítica: Companhia das Letras (2011)
176 páginas

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