O Palhaço no Milharal, que estreou no festival South by Southwest e foi lançado em circuito comercial (limitado) de cinema nos EUA antes de chegar ao streaming, tinha tudo, absolutamente tudo para ser uma produção genérica galgada unicamente na nostalgia pelos slashers dos anos 80 e, por algo como metade de sua duração, é tudo o que o filme é, com direito à toda a sorte de tropos narrativos do gênero na época e a captura quase perfeita da atmosfera e estilo de uma década que, em Hollywood, foi pródiga em soltar uma bobagem pseudo-assustadora atrás da outra a ponto de diluir por completo todo um subgênero do horror. Ajuda muito que o comando da fita tenha ficado com Eli Craig que não só não é exatamente um estreante no ofício, como já mostrou que sabe muito bem usar orçamentos que são “trocos da feira” na caríssima escala cinematográfica, como seus Tucker e Dale Contra o Mal e Pequeno Demônio provam.
O fiapo de história, baseado em romance homônimo de Adam Cesare, publicado em 2020, nos apresenta à adolescente Quinn (Katie Douglas) e a seu pai, o médico Glenn Maybrook (Aaron Abrams) mudando-se da Filadélfia para a cidadezinha “caipira” Kettle Springs cuja única contribuição para a humanidade foi ser o berço do xarope de milho Baypen, que tem o palhaço Frendo como mascote, mas cuja fábrica pegou fogo algum tempo antes deixando todo mundo na pindaíba. Não demora e o sangue que vemos no prólogo passado em 1991 é repetido no presente, com Quinn e seus novos amigos logo tendo que fugir do nada ameaçador, mas mesmo assim mortal, Frendo.
Depois dos 10 ou 15 minutos regulamentares que são usados para mal e porcamente nos apresentar aos personagens que não ligamos a mínima e à história da cidade que é construída na base de diálogos ruins, os 40 minutos seguintes é Eli Craig materializando os anos 80 na telinha, como mencionei, algo que ele faz com toda a categoria que os slashers da época merecem, ou seja, não muita. Tudo é propositalmente cru, exageradamente sanguinolento, com hormônios jovens pulsantes (mas nenhuma nudez, vejam só!) e com a mesma sutileza do proverbial elefante na loja de louça. Tem palhaço e tem milharal, como prometido no título, mas tem, também, armas variadas e uma quantidade enorme de gritos e correrias que acabam com empalamentos, decepações, degolas e assim por diante. E, como ninguém realmente importa e o vilão (ou será que eu deveria usar o plural?) não passa de uma versão patética de palhaços assassinos variados do audiovisual, o resultado deveria ter sido derivativo até não poder mais.
Só que não é. Ou, pelo menos, não completamente.
Quando chegamos lá pela metade da projeção, o que não demora quase nada a não ser que o espectador seja um daqueles que não aguenta ficar parado por mais do que cinco minutos, a “moral da história” chega trazendo a reboque uma reviravolta que a comenta. E, sem dar spoilers, a razão de ser da fita é estabelecer o conflito de gerações, algo tão nervosamente em voga hoje em dia pela multiplicação exponencial de comentários meméticos trazidos pelas redes sociais. Quando isso fica explícito – e fica explícito bem mais do que deveria ficar, pois, como disse, não há sutileza alguma no longa -, toda a lógica de a primeira metade do filme ser um clone de slashers oitentistas ganha outra perspectiva, com a tal reviravolta servindo para aprofundar o abismo geracional. E não, não estou indo fundo na análise do filme e nem tirando essa interpretação de vocês sabem onde, pois, quando o roteiro para de guardar segredo, isso vem à tona com abundante obviedade a ponto de se tornar cansativo e de o texto não saber, no fundo, o que fazer com isso, tropeçando na linha de chegada e estragando o pouco de diferenciação genuína que o filme poderia ter.
O Palhaço no Milharal não é nem de longe algo que mereça algum destaque, mas o longa pelo menos se esforça em mostrar que poderia ser mais do que foi, o que é mais do que muita produção desse naipe (de qualquer era) procura fazer. A ideia do conflito de gerações é boa e dá sentido e até alguma coesão aos frangalhos narrativos, com o twist – que não tem relação alguma com o mistério dos palhaços – servindo para pontuar esse aspecto e isso, no final das contas, acaba impedindo que a produção caia por completo na vala das obras indigentes que existem só para cumprir tabela. É uma oportunidade perdida, sem dúvida, mas que, pelo menos para mim, não me pareceu tempo perdido.
O Palhaço no Milharal (Clown in the Cornfield – EUA/Luxemburgo/Reino Unido/Canadá, 2025)
Direção: Eli Craig
Roteiro: Eli Craig, Carter Blanchard (baseado em romance de Adam Cesare)
Elenco: Katie Douglas, Aaron Abrams, Carson MacCormac, Vincent Muller, Kevin Durand, Dylan McEwan, Will Sasso, Cassandra Potenza, Verity Marks, Ayo Solanke, Alexandre Martin Deakin
Duração: 96 min.
