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Crítica | O Paraíso e a Serpente

por Ritter Fan
4298 views (a partir de agosto de 2020)

Existem filmes e séries cuja história real abordada é mais do que suficiente para que o espectador seja imediatamente sugado para dentro da narrativa quase que como se ele caísse em areia movediça. Falo de obras que vão desde Spotlight e O Discurso do Rei no lado de longas até Mindhunter e Spartacus no lado de séries e muitas vezes isso é o suficiente para que, talvez de forma apressada – muitas vezes afobada – a conclusão é que se está diante de uma nova obra-prima. Faz parte, claro, mas, na maioria das vezes, é importante dar um – às vezes mais até – passo atrás para ver se a fascinante trama real ganhou a execução que merecia.

O Paraíso e a Serpente, coprodução da BBC One com o Netflix que foi ao ar primeiro na Inglaterra ao longo de janeiro e fevereiro de 2021 e, depois, em 02 de abril, estreou mundialmente no canal de streaming, é uma dessas obras baseadas em fatos reais estarrecedores que precisam ser analisadas depois que o calor do momento passa. E, com isso, não quero dizer que a minissérie em oito episódios não deva ser conhecida, pois, de fato, a vida do ladrão, falsário e assassino francês de ascendência indiana e vietnamita Charles Sobhraj, conhecido como O Serpente, que agiu principalmente ao longo dos anos 70 na Ásia, é um assombro, assim como é a de seu implacável caçador, o diplomata holandês lotado em Bangkok, Tailândia Herman Knippenberg, mas a minissérie tem diversos problemas de ritmo, tamanho e algumas escolhas estéticas no mínimo estranhas.

O destaque imediato da minissérie fica por conta dos dois núcleos opostos principais, especialmente o formado por Tahar Rahim como Sobhraj, Jenna Coleman como Marie-Andrée Leclerc, a namorada quebequense dele que participa dos golpes e Amesh Edireweera como o indiano leal e faz-tudo Ajay Chowdhury. A conexão entre os personagens é de líder e seguidores, quase que como em um culto, com Rahim tendo uma presença marcante e uma atuação cínica que enverniza a psicopatia de seu personagem com um semblante impassível, seguro de si que se transforma em momentos importantes, normalmente descambando para a violência. Coleman e Edireweera vivem personagens completamente debaixo das asas enormes de Sobhraj ao ponto de dar pena deles, com os atores fazendo um excelente trabalho de apagar as personalidades e criar “ecos” do adorado líder em tudo o que pensam e fazem, sendo ao mesmo tempo vítimas e algozes.

Há um componente racial importante nesse núcleo que é usado para dar contornos e algum semblante de explicação para o que Sobhraj faz, já que ele se sente um pária do mundo em razão de sua ascendência e cor da pele, algo que ele de certa forma inveja em Leclerc e se sente superior a Ajay, já que este tem tonalidade bem mais escura. É um jogo de opressão muito bem jogado que não me pareceu estar lá para justificar os atos cometidos pela trinca, mas sim para tentar mergulhar na psique de Sobhraj, ainda que os roteiros de Richard Warlow, infelizmente, não se arrisquem muito por esse caminho.

No lado oposto, há o já mencionado Herman Knippenberg, vivido muito bem por Billy Howle que constrói um personagem que mistura de maneira verossímil inocência, perseverança e obsessão na medida em que ele, apenas apoiado por sua esposa alemã Angela (Ellie Bamber) e pelo adido belga na Embaixada Holandesa Paul Siemons (Tim McInnerny), passa a investigar a morte de dois holandeses na Tailândia, esbarrando em Sobhraj no processo. Knippenberg é como aquele cão sabujo que, quando fareja algo, por mais distante que pareça, não consegue mais desviar-se do caminho, deixando absolutamente tudo de lado nesse processo autodestrutivo.

E esses ótimos trabalhos de atuação vêm envelopados por uma atmosfera muito bem construída que se beneficia de filmagens principalmente in loco na Tailândia e uma reconstrução de época muito cuidadosa e crível, seja no lado dos cenários, seja no lado dos variados figurinos. A fotografia é outro destaque, fundindo breves sequências criadas para parecerem filmagens dos anos 70, emprestando um leve tom documental, com o uso extensivo de uma paleta de cores em tons pasteis áridos que materializam toda essa ambientação repleta de calor, chuva, falta de regras e descaso das autoridades como mais um personagem da minissérie.

Esse mergulho na narrativa, porém, é quebrado pelo trabalho de maquiagem e cabelo em Tahar Rahim que altera significativamente sua aparência original, para encaixá-la na de Sobhraj, com variações de envelhecimento e rejuvenescimento dependendo da época enfocada. Isso enrijece as feições do ator e cria estranhamentos especialmente em close-ups que poderiam ser evitados ou com a escalação de outro ator com tom de pele mais próximo ao do personagem real ou simplesmente ter deixando Rahim atuar com sua própria aparência, mexendo apenas em seu cabelo. A tentativa de aproximar o ator da figura real pareceu-me sem objetivo claro que não seja um exercício em técnico, exercício esse que falhou em seu objetivo.

No entanto, bem mais difícil do que lidar com a aparência de Rahim, foi com o interminável vai-e-vem temporal dos roteiros que, em regra, mantém como base narrativa o presente da série – que, em grande parte, são alguns meses entre 1975 e 1976 – e retornam a diferentes “passados” para abordar as vidas pregressas dos vilões e suas vítimas, com o uso constante de datas que pulam na tela como placares de aeroporto indicando voos. O que começa com um artifício de montagem não-linear interessante, logo se torna uma gangorra narrativa que parece ter com funções, de um lado, dar uma aparência sofisticada e misteriosa à história e, de outro, aumentar a duração da série para longos e esticados oito episódios de quase uma hora que poderiam muito bem ter sido convertidos em um excelente longa-metragem de duas horas ou, no máximo, em uma minissérie de ritmo provocante de algo como três episódios.

A cada retorno ao passado – anos ou meses – uma história nova começa que é, então, entrecortada com o presente sem que, na maioria dos casos, esse artifício realmente contribua para alguma coisa além de lidar com os golpes e assassinatos de Sobhraj e companhia sem realmente trazer elementos novos que exijam esse detalhamento. É bem verdade que tudo converge para o recolhimento de pistas do caso, no presente, por Knippenberg, mas é como se cada objeto de vítimas do bandido precisasse ganhar uma história completa para ele ser relevante. Dessa forma, por diversas vezes, a série se auto sabota e atrapalha sua fluidez, além de não tentar de forma efetiva olhar para a mente do psicopata para além do óbvio ululante que, vale dizer, ele precisa falar, com todas as letras, diversas vezes. Ao tentar criar um emaranhado narrativo para dar aquele ar de complexidade à minissérie, Tom Shankland se prende em sua teia e tem dificuldades para sair, tendo é que correr com o final no derradeiro episódio que lida com elipses temporais bem mais longas exatamente porque tempo foi perdido com histórias repetitivas e cansativas nos capítulos anteriores.

O Paraíso e a Serpente tem o mérito de descortinar a fascinante história de uma trinca de assassinos que aterrorizou turistas ocidentais na Ásia por muito tempo, servindo como um alerta a viajantes e a pessoas em geral que tendem a confiar demais em simpáticos desconhecidos, mas falha em sua execução ao tentar criar complexidade em uma narrativa essencialmente objetiva a ponto de, especialmente em seu meio, criar uma barriga que mais cansa do que cumpre função narrativa. É, sem dúvida alguma, uma minissérie que assustará e prenderá o espectador, mas que, quando vista com um olhar mais distante, perderá seu vigor e provavelmente revelar-se-á como uma obra longa e bagunçada demais para realmente ser o thriller investigativo que pretendia ser.

O Paraíso e a Serpente (The Serpent – Reino Unido, 02 de abril de 2021 – distribuição mundial pelo Netflix)
Criação: Tom Shankland
Direção: Tom Shankland, Hans Herbots
Roteiro: Richard Warlow
Elenco: Tahar Rahim, Jenna Coleman, Billy Howle, Ellie Bamber, Amesh Edireweera, Tim McInnerny, Chicha Amatayakul, Sahajak Boonthanakit, İlker Kaleli, Adam Rothenberg, Mathilde Warnier, Supadej “Kenneth” Wongwatanaphan, Ellie de Lange, James Gerard, Apasiri Kulthanan, William Brand, Chotika Sintuboonkul, Ryan O’Donnell, Libby Jennings, Raphael Roger, Fabien Frankel, Stacy Martin, Alice Englert
Duração: 458 min. (oito episódios)

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