Crítica | O Passado

estrelas 4,5

Dramas familiares possuem tênues fronteiras de força, relevância e impacto direto no público espectador. É possível encontrar nesse subgênero temas que vão desde musicais que abordam a desintegração e a diversidade étnico-social de uma família — a exemplo de Bem Amadas — até reflexões densas e com os dois pés em uma realidade vista não só em sua aparente e simples tragédia cotidiana como também em suas nuances morais e até filosóficas — a exemplo de A Separação. De um extremo a outro, impera a dificuldade de relação entre os seres humanos, especialmente se os laços estabelecidos entre eles envolvem algum tipo de sentimento fraterno, erótico ou familiar.

O diretor iraniano Asghar Farhadi entende bem de disfunções familiares. Sua filmografia, a exemplo de boa parte dos filmes produzidos em seu país natal, centra-se quase unicamente na relação entre famílias e amores, com destaque para problemas que envolvem algum tipo de tragédia e decisões de densa ordem ético-moral ou religiosa, cabendo aí a pesada influência das tradições no Irã e o forte impacto das decisões ou ações passionais na vida das pessoas. Podemos dizer que se trata de uma filmografia de crise e análise, começando com um núcleo dramático bastante simples e dissecando-o até à sua menor partícula.

Em O Passado, o diretor nos mostra a culpa e o amor em conflito. O roteiro centra-se em algo que, en passant, poderíamos classificar como um triângulo amoroso, formado por dois homens, Samir (Tahar Rahim, de O Profeta) e Ahmad (Ali Mosaffa) e uma mulher, Marie Brisson (Bérénice Bejo, de O Artista). Presos a eventos do passado de suas vidas (eventos que curiosamente compartilham, direta ou indiretamente), os três irão trilhar uma via crucis de esquecimento, lembranças e vontade de reparar erros ou reatar compromissos que se quebraram ao longo dos anos. O roteiro de Farhadi corta tudo quanto poderia ter de supérfluo em um drama desse tipo e nos deixa apenas com o essencial, o tema do filme de forma pura e sem rodeios.

Através de uma estética simples e até bastante crua — com fotografia estratégica, pensada para substituir o papel da trilha sonora, que praticamente inexiste no longa — o diretor cria uma rede de situações onde há problemas por todos os lados. Alguns são mais sérios, verdadeiros traumas (especialmente para o pequeno Fouad) e outros são de ordem unicamente passional. É nesse ponto que o roteiro estabelece o amadurecimento do tema mundano do início, trazendo à tona possibilidades que não imagináramos e que tornam o todo ainda mais complexo, uma prova clara de que um bom roteirista consegue arrancar o máximo possível, e com altíssima qualidade, de um evento ou tema aparentemente clichê.

Em dado momento da história, o espectador pensa que não há mais nada para sair do objeto central do roteiro, o que nos deixa temerosos de uma possível situação anti-climática que simplesmente não vem. O ritmo da montagem é tão preciso, que cada momento da história é estendido até o ponto em que ele deu tudo o que tinha de dar, não ultrapassando-o e nem deixando de mostrar coisas que deveria. Aliado a uma direção soberba e objetiva e a atuações de tirar o fôlego, mesmo quando falamos das crianças em cena (com destaque para o ator-mirim Elyes Aguis, no papel de Fouad), O Passado é uma crua e angustiante busca por quatro coisas: verdade, paz de espírito, certezas e amor.

Asghar Farhadi nos prova mais um vez que é capaz de criar o máximo com o mínimo possível, um feito elogiável e cada vez mais raro no cinema, principalmente quando falamos de situações que envolve ausências, culpa e desespero.

O Passado (Le Passé) – França, Itália, Irã, 2013
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Ali Mosaffa, Pauline Burlet, Elyes Aguis, Jeanne Jestin, Sabrina Ouazani, Babak Karimi, Valeria Cavalli, Aleksandra Klebanska, Jean-Michel Simonet
Duração: 130 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.