Crítica | O Passageiro (2018)

“E se alguém te pedisse para fazer uma única coisinha, mas isso afetasse outro passageiro nesse trem? Você faria?”

Jaume Collet-Serra é ocasionalmente referenciado, dentro do cenário da crítica cinematográfica, como um diretor aparentemente ordinário, supostamente dando corpo, nos últimos anos, a várias obras genéricas que se comportam, sem grandes presumidas transformações de paradigmas, nos gêneros propostos pelo cineasta, entre a ação – a exemplo, Noite Sem Fim -, grande chamativo de sua carreira, e igualmente o horror – A Casa de Cera é um dos mais famosos. A denominação, contudo, é injusta para um dos nomes mais expoentes do cinema de ação e de suspense da década. O artista demonstrou possuir uma noção interessante de como usar dos gêneros cinematográficos para preencher os vácuos de um roteiro que não se preocupa na formalidade da construção de enredo e de personagens, em contrapartida, buscando na ação mesmo, não em uma ordem dramática convencional, a sensorialidade necessária para uma experiência completa, que se objetiva a ser mais simples, porém, de certo extraordinária. O gênero como a narrativa, diferenciando a estética do contar de histórias, não um mero meio para a receita tornar-se produto.

Um pensamento interno acerca das próprias competências de Collet-Serra como cineasta de gênero também está presente em O Passageiro, uma espécie de refilmagem do interessantíssimo Sem Escalas, longa-metragem que colocava Liam Neeson retornando como a musa particular do diretor, então presente no interior de uma aeronave a cargo de sua mera proteção. O personagem, contudo, nesse caso, acabava sendo guiado por uma chantagem de proporções monstruosas. A premissa é a mesma, entretanto, as mudanças do espaço de antes uma avião para, aqui, um trem, ambos mapeados cirurgicamente, justificam essa nova incursão – a passibilidade a uma contemplação de alternativas maior, porque o trem é um ambiente de reconfiguração imediata. Collet-Serra compreende a narrativa assim, renovando constantemente as pistas deixadas para o seu protagonista, um correto norte-americano que nunca se desviou da sua moralidade, mas que recorre às últimas instâncias dos seus princípios após ser “convidado” por uma mulher misteriosa a participar de uma missão hipotética: achar uma pessoa e colocar um rastreador na sua mochila.

O personagem interpretado pelo clássico protagonista de ação é um pretexto “menor” que não inventa a autenticidade para si, sem grandes substâncias para além de uma simplicidade auto-determinada, visando a apresentação de Liam Neeson, o artista de verdade, como protagonista, não a apresentação do protagonista fictício do longa-metragem. A jornada deste herói-americano é, portanto, o enfoque, debatendo-se contra as intromissões de demais agentes ao seu entorno que querem a corrupção, ao mesmo tempo igualmente ansiando a manutenção de uma moralidade muito mais que pertinente à evidenciação desse símbolo – o quase super-herói que, em um outro mundo de também simplicidade, mas escalas maiores, Missão Impossível: Efeito Fallout também captou. Justamente os valores morais que estão em confrontação, “muito mais” que a vida de alguns passageiros – oriundos de arquétipos -, ponto de partida que, enfim, nunca intenciona ser o verdadeiro interesse do cineasta. A chegada da mulher enigmática, por exemplo, é prontamente rejeitada porque um casamento está em questão – a crise da moralidade, com isso, em cheque.

A câmera do cineasta cria uma minuciosa radiografia dos passageiros, dos espaços tão claustrofóbicos quanto livres a possibilidades, porque a direção realmente principia uma destruição de amarras confinadas a um único cenário – uma pena que a proposta, contudo, nunca seja a de desenvolver esses personagens, como seria o caso de um Assassinato no Expresso do Oriente. Um homem das rotinas é o herói presumido ao longa-metragem, pegando o mesmo trem todos os dias, vivendo a mesma pacata ideologia de que as peças estão sendo jogadas de maneira nobre, correta. A montagem, no início do filme, já recria uma noção temporal necessária para o entendimento das pontuações na ação, do suspense que está sendo criado, não do mistério que está sendo desenvolvido – a obra não possui um caráter detetivesco. Sem Escalas possuía uma intenção dramática e emocional, através dos comentários que o protagonista expunha arbitrariamente sobre a sua vida, que O Passageiro renega, mostrando ser desconexo de desnecessidades narrativas, como a movimentação de um passado mais denso, visando o drama.

Como as previstas reviravoltas do gênero são quase obrigatórias para a condução do projeto, que não poderia ser descarrilhado em decorrência de passos em vão – como o desinteresse completo do espectador -, um enredo curioso, sob uma segunda camada da narrativa, surpassando a jornada do protagonista, parte de uma magnética visão sobre as possibilidades que vagões de trem possuem em serem transformados num ambiente cinematograficamente impressionante. Uma trama mais comum é, em consequência, movimentada pelo cineasta, complexa quando enxergada a apresentação de elementos que organizam-se coerentemente, como a trilha sonora e, principalmente, a excelente direção. A coesão é uma das maiores virtudes do cineasta, mostrando a possessão de uma determinação que não esquece de seu argumento, sem cair em certos vícios dramatúrgicos. Os combates físicos – danças cinemáticas -, sobretudo, exemplificam uma dinamicidade, capturada de algum videogame nunca antes criado, enquanto os personagens são cortados uns pelos outros por meio de coreografias que se baseiam no controle do descontrole.

O “sacrifício” do protagonista seria interessante, mas o longa acaba, com a sua conclusão mais harmoniosa, desistindo de margear consequências, até mesmo a inconsequência – um homem desempregado que, enfim, continuaria desempregado, à beira da falência, no entanto, com a moral não-comprometida. Uma obra que assume o thriller de ação como a sua proposta narrativa, reinventado as premissas, renovando as descobertas e a tensão construída. O Passageiro é uma viagem com início, meio e fim, sem digressões, sem espaços que, apesar de necessários, não foram verdadeiramente preenchidos, quase como um trem que possui apenas poucos assentos vagos, mas todos são ocupados com competência, dados os objetivos compreendidos e muito bem executados, dentro de um discurso sobre a moralidade do homem e, na linguagem percebida, acerca da gamificação do cinema, transformado em um livre processo de reorganização da narrativa, à base do inesperado e do intocado – a mulher como uma ameaça fantasma, subvertendo a química que Vera Farmiga, inicialmente, possuiu com Liam Neeson. O fim da linha.

O Passageiro (The Commuter) – EUA, 2018
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: Byron Willinger, Philip de Blasi, Ryan Engle
Elenco: Liam Neeson, Vera Farmiga, Patrick Wilson, Jonathan Banks, Sam Neill, Elizabeth McGovern, Killian Scott, Shazad Latif, Andy Nyman, Clara Lago, Roland Møller, Florence Pugh, Dean-Charles Chapman, Ella-Rae Smith, Nila Aalia, Colin McFarlane, Adam Nagaitis, Kobna Holdbrook-Smith
Duração: 104 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.