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Crítica | O Passageiro do Futuro

por Ritter Fan
492 views (a partir de agosto de 2020)

Apesar de conceitualmente existir desde o Renascimento conforme alguns estudiosos, por incrível que pareça a expressão “realidade virtual”, hoje tão conectada e associada com tecnologia de ponta, surgiu primeiro no âmbito da dramaturgia, pela caneta visionária do francês Antonin Artaud, ainda em 1938. Apesar de expressões semelhantes terem se tornado populares nas décadas seguintes, notadamente nos anos 70, foi outra obra literária que primeiro a ligou com a ficção científica, em 1982, desta vez graças ao novelista australiano Damian Broderick. No mesmo ano, um dos mais famosos mundos virtuais da Sétima Arte foi retratado em Tron – Uma Odisseia Eletrônica, mas foi preciso mais uma década para o assunto realmente voltar à tona no audiovisual.

E a obra responsável por isso foi O Passageiro do Futuro (versão bobalhona do título original, vítima de modismos brasileiros “do Futuro” à época), baseado em conto de Stephen King. Aliás, baseado não, pois o nome de King não aparece (mais) em lugar algum da película, já que o romancista americano recusou-se a ter qualquer conexão com o filme, por julgá-lo muito diferente de seu texto, algo que chega a ser até engraçado considerando a quantidade de adaptações ainda mais distantes de sua bibliografia que ele endossa com vigor…

Seja como for, o filme dirigido e co-escrito por Brett Leonard, que nunca se firmou como criador de obras acima do conceito trash, ganhou à época muita atenção da mídia e do público justamente por sua temática “além de seu tempo”, uma grande novidade para o começo dos anos 90, ainda pré-internet como hoje a conhecemos. Nele, Jobe Smith (Jeff Fahey em um de seus poucos papeis como protagonista em sua longa carreira de coadjuvante), um cortador de grama com deficiência mental, é usado como cobaia de um experimento envolvendo realidade virtual e injeção de drogas com o objetivo de aumentar sua inteligência pelas mãos do cientista Lawrence Angelo (Pierce Brosnan três anos antes de viver o 5º James Bond em 007 Contra GoldenEye), que trabalha para uma organização que, como de praxe, quer transformar sua criação em uma arma.

Conceitualmente, apesar de simples e objetiva, a história é boa. Sua execução é que é apressada e falha em quase todos os quesitos. Fahey, que nunca despontou como um grande ator, é o melhor do elenco aqui, mas ele tem pouco tempo para trabalhar a transformação de seu simpático e prestativo Jobe (em português, Jó, o sofrido personagem bíblico) em um deus onisciente e onipresente que usa o mundo virtual como porta de entrada para um plano enlouquecido de dominação mundial. Tudo acontece rápida e artificialmente demais, sem que o diretor consiga nos oferecer elipses temporais eficientes e sem abrir espaço para Fahey fazer algo intermediário entre o “homem com problemas mentais” e o “vilão superpoderoso capaz de fazer sexo virtual”.

Além disso, a introdução de subtramas que gravitam ao redor de Jobe – o padre fanático, o pai violento, o valentão do posto de gasolina – não tem nenhuma sofisticação por parte do roteiro. Tudo é marretado sem cerimônia na narrativa de forma a criar vítimas fáceis para o “passageiro do futuro” que parecem emprestar aquela dubiedade ao personagem depois de sua transformação, mas que, na verdade, são apenas alguns segundos para que mortes em tese originais possam ser abordadas nessa mistura de ficção científica e terror. Falando em subtramas, aliás, uma das mais desperdiçadas é a que lida com os aspectos religiosos da criação de Jobe e sua evolução ao ponto de ser um deus. Sabe quando as peças estão todas presentes, mas ninguém consegue montar corretamente o quebra-cabeças? Essa é justamente a sensação que a decupagem de Leonard passa.

Brosnan é a caricatura do “cientista maluco, mas com um pouco de coração”. A ambição de seu personagem é rapidamente transformada em obsessão e irresponsabilidade por um roteiro que não conhece o conceito de construção de personagem e que joga todos os clichês possíveis em um intervalo de tempo ridiculamente curto. Nem há como culpar Brosnan aqui, na verdade, já que, como Fahey, ele é vítima de um texto fundamentalmente inábil e corrido.

E os efeitos de computação gráfica tão alardeados à época do lançamento do filme no cinema? Bem, em primeiro lugar, eu não esperava que eles sobrevivessem ao teste do tempo e, de fato, eles não sobrevivem. Mesmo para a época, aliás, eles já eram substancialmente ultrapassados se o compararmos com o uso de CGI em obras anteriores como O Enigma da Pirâmide e Willow – Na Terra da Magia. Em defesa de O Passageiro do Futuro, porém, são apenas oito minutos de videogame de segunda geração que de forma alguma atrapalham o resultado final. Muito ao contrário, eles até mesmo chegam a dar conta do recado considerando os problemas mais graves de roteiro e direção que perpassam toda a obra.

Na pior das hipóteses, O Passageiro do Futuro é uma curiosidade da época. Na melhor, a obra pode ser vista como uma espécie de abre alas para que as portas da realidade virtual fossem efetivamente abertas, o que acabaria nos trazendo, dentre outros e para o mal ou para o bem, Estranhos Prazeres e Johnny Mnemonic em 1995 e Matrix, 13º Andar e eXistenZ em 1999.

Versão do Diretor

Comprovando que O Passageiro do Futuro ganhou um certo status de cult trash, o filme ganharia uma versão do diretor junto de seu lançamento em DVD e Laserdisc (ah, saudades do bolachão prateado!!!) com nada menos do que 30 minutos a mais. Em tese, toda a pressa que detectei como ponto negativo no roteiro que Brett Leonard co-escreveu com Gimel Everett seria resolvida, não é mesmo?

E a resposta é sim e não.

Sim, porque a fita ganha mais tempo especialmente para Fahey lidar com a “evolução” mental de seu personagem, mas o problema é que o preço disso é alto demais. Afinal de contas, não havia história ali para justificar 2h21′ de duração da película e a inserção de mais sequências de Jobe pré-vilanização e também do Dr. Angelo lidando com sua depressão acabaram fazendo com que o resultado final ficasse cansativo e repetitivo demais.

É a típica “versão estendida” feita para surfar na onda de um sucesso relativo e não por qualquer – por menor que fosse – necessidade artística. Teria sido melhor que as cenas extras tivessem sido utilizadas para permitir a remontagem quase completa do filme, o que talvez minimizasse boa parte de seus problemas. Afinal, quase nunca em Hollywood, mais é sinônimo de melhor.

O Passageiro do Futuro (The Lawnmower Man, Reino Unido/EUA/Japão – 1992)
Direção: Brett Leonard
Roteiro: Brett Leonard, Gimel Everett (inspirado em obra de Stephen King)
Elenco: Jeff Fahey, Pierce Brosnan, Jenny Wright, Mark Bringelson, Geoffrey Lewis, Jeremy Slate, Dean Norris, Colleen Coffey, Jim Landis, Troy Evans, Rosalee Mayeux, Austin O’Brien
Duração: 108 min. (versão do cinema), 141 min. (versão do diretor)

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15 comentários

Jon Mino Silva 29 de abril de 2020 - 21:56

O conto do Stephen King que inspirou o filme é extremamente parecido com o romance Flores para Algernon, publicado em 1966 por Daniel Keyes.

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Luiz Carlos 19 de outubro de 2019 - 01:42

A crítica do site Boca do Inferno foi bem melhor que essa aqui que me pareceu compreender bem menos o filme praticamente enxergando defeitos em quase tudo. E os tais efeitos de video game citados acima, não eram de segunda geração, na época do filme em 1992 a geração de video games era a quarta geração de consoles, e os efeitos do filme eram equivalentes ao período de transição para a quinta geração de consoles com os video games migrando do 2D para o 3D, e embora para muitos pareçam datados, tem diversas jogos de Playstation VR atualmente usando uma estética gráfica bastante parecida, e são sensacionais como Superhot VR e Bound, joguei muito ambos. Algumas considerações, o cineasta Brett Leonard foi selecionado em 2010 como um dos 25 Digitais (25 Digital) pela revista Variety em associação com o Sindicato dos Produtores da América (PGA), essa seleção era de pessoas ou empresas que tiveram grande relevância para o desenvolvimento do cinema digital, audio visual ou entretenimento digital, na mesma seleção e conferência estava também James Cameron. Ainda a respeito do cineasta Brett Leonard, muita gente só vê defeitos em sua carreira, mas ele foi o primeiro cineasta a fazer um filme sobre realidade virtual (criou diversos conceitos que hoje são reais) tendo o filme superado mais de $ 200 milhões de renda no mundo todo (bilheteria, home video etc..), dirigiu o primeiro video clipe musical todo feito em CGI, dirigiu o primeiro filme em 3D (IMAX) a fazer mais de $ 100 milhões nas bilheterias, e olhando o twitter dele, tem várias postagens de projetos relacionados a realidade virtual, e desenvolvimento de tecnologias para o cinema digital. Inclusive no youtube tem muito conteúdo com ele relacionados a realidade virtual.

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planocritico 20 de outubro de 2019 - 15:51

Ok, né?

– Ritter.

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Wagner Farias 6 de junho de 2019 - 08:16

O conto original não tem absolutamente nada a ver com o filme, a não ser, talvez, o cortador de grama. Mas, na época lembro que gostei do filme pela computação e tal. Tinha uma pegada apocalíptica tipo a “Skynet”, lidando com algo que significaria o fim a humanidade num futuro próximo. Mas confesso que da preguiça de assistir novamente.

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planocritico 6 de junho de 2019 - 14:32

O filme veio acompanhado de uma campanha pesada de marketing na época, que jogava bem com a questão da realidade virtual. Até foi legal no lançamento, mas ele não se sustenta de forma alguma.

Abs,
Ritter.

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Anônimo 5 de junho de 2019 - 01:25
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planocritico 5 de junho de 2019 - 14:28

É bem ruim mesmo. Mas na época foi a “sensação”!

Abs,
Ritter.

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pabloREM 3 de junho de 2019 - 13:59

Esse Brett Leonard é pólvora, tem algumas bombas no currículo.

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planocritico 3 de junho de 2019 - 14:20

Sim… Uma atrás da outra…

Abs,
Ritter.

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Rafael Lima 3 de junho de 2019 - 13:36

Cara, pensando aqui de bate e pronto, não consigo lembrar de nenhuma adaptação da obra do King que passe tão longe do material fonte quando este aqui. Por que a premissa do conto e do filme não poderiam ser mais diferentes.

Claro, não é por isso que acho esse filme uma bomba, até por que o conto do King que “deu origem” ao filme é bem fraquinho também. Mas esse é um filme cheio de saltos narrativos sem lógica, atuações fracas, e é Trash sem parecer se dar conta de que é trash.

Enfim, acho bem ruim esse filme daqui. Teria dado até uma nota menor. Hehehehe

Grande abraço!

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planocritico 3 de junho de 2019 - 14:20

Pode até ser, mas o Stephen King não entende NADA de filme. Ele já provou isso por diversas vezes, seja no roteiro, seja na direção, seja falando de grandes filmes que ele detesta por detestar…

Mas Passageiro do Futuro é bem fraquinho mesmo. Talvez as duas estrelas tenham sido a nostalgia falando… HAHAHAHAHAHAAHHAHA

Abs,
Ritter.

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Rafael Lima 4 de junho de 2019 - 00:38

Você não consegue perdoar o cara por não gostar de “O Iluminado”, né? Ritter- O Rancoroso. Hahahahahahahaha.

Mas você tem razão. Cada vez que ele se envolve de forma mais direta nas adaptações de seu trabalho, raramente sai coisa boa.

Responder
planocritico 4 de junho de 2019 - 10:56

Pô, o SK também é! Até no preâmbulo de Doutor Sono ele alfinetou o Kubrick!!!

HAHAAHHAHHAHAHAHAHHAHAHA

Abs,
Ritter.

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Eloyzyo Nascimento 1 de junho de 2019 - 20:18

E pensar ainda que essa bomba teve versão em jogos para a geração 16 bits… pra ver que acho que estavam realmente apostando numa coisa grandiosa.

Responder
planocritico 1 de junho de 2019 - 21:09

Sim! O filme teve um baita lançamento!

Abs,
Ritter.

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