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Crítica | O Pássaro Pintado

por Luiz Santiago
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O Pássaro Pintado (2019) entrou para a lista de filmes que eu jamais irei rever na minha vida, dada a experiência estraçalhadora de psicológico que ela causa, fazendo par com obras do mesmo naipe, como Nada de Mau Pode Acontecer (2013), O Filho de Saul (2015) e para mim, o pior de todos eles, Vá e Veja (1985). Dirigido por Václav Marhoul, o longa de quase 3h de duração nos faz acompanhar um garoto que mora com a tia. Sem muitos detalhes sobre a ambientação e sobre esses personagens — e após passar pela primeira grande violência do filme, logo na abertura —  vemos uma sucessão de coisas darem errado na vida desse menino judeu, que acaba sozinho no mundo, em plena 2ª Guerra Mundial.

Abordagens de guerra pelos olhos de uma criança sempre nos causam espécie. A perda da inocência, a mudança precoce de comportamento e o estabelecimento de um trauma são coisas difíceis de suportar, mesmo quando o caminho percorrido pelo diretor flerta mais com algum tipo de poesia e elementos históricos do que com o peso somado ao horror da guerra, como é o caso de A Infância de Ivan. O Pássaro Pintado, porém, não é um filme dessa categoria. Baseado no livro de Jerzy Kosinski, a obra é assumidamente uma longa crônica que retrata as andanças, os encontros, as fugas e as transformações pelas quais o garoto protagonista passa, vivendo em um mundo violento nas mais diversas medidas e precisando deixar de lado a inocência e compaixão para tornar-se ele mesmo alguém pontualmente violento, silencioso e constantemente enraivecido.

À época da exibição do filme aqui no Brasil, na 43ª Mostra SP, um rápido debate requentado e capenga se elevou nas filas e entre alguns nichos críticos, dando conta da abordagem esteticamente bela do diretor e de seu fotógrafo Vladimír Smutný para um tema imensamente duro e de difícil digestão. Essa escola de pensamento volta e meia sai das profundezas para ecoar insanidades como se estivessem realmente discutindo algum aspecto válido de linguagem cinematográfica. Para tal grupo, filmes com “enredos feios” só podem ser trabalhados visualmente através de uma estética suja, ao passo que as belíssimas fotografias e grandioso apuro da direção devem ser reservados aos mais variados contos de fada e finais felizes. Provavelmente é o mesmo povo que acusa Godfrey Reggio de “poetizar a miséria” em Powaqqatsi – A Vida em Transformação, ao mostrar as lutas do Terceiro Mundo através de um visual deslumbrante.

Ignorando divagações de mente sandia, ao assistirmos O Pássaro Pintado vemos o poder que esse tipo de representação sublime através da imagem tem para um filme com a quantidade e intensidade de sofrimento como este. Como o diretor não procura em nenhum momento disfarçar a sua intenção — como disse antes, o filme já abre com um ato de violência e maldade — o ambiente representado de maneira bela é apenas uma escolha de retratação locacional, dramaticamente contrastante, mas que justamente pela beleza, acaba se transformando e reforçando o horror. Essa transformação do impacto sobre nós se dá como a do protagonista que nunca se encaixa em lugar nenhum e que o tempo inteiro está sendo repintado com as cores do novo grupo, do novo cuidador, da nova ideologia que lhe dá abrigo. E isso mais cedo ou mais tarde dá errado. Ou acaba de maneira brusca.

A metáfora do título é também um assunto sociológico e histórico, fazendo todo sentido para o período em que a trama se passa. O que acontece se pintarmos as asas de um pássaro e o soltarmos no meio dos outros? Como o diferente é tratado em sua comunidade? A resposta para essas perguntas recebe uma cena lírica para validar-lhe o símbolo, mas a própria jornada do garoto, que no final descobrirmos chamar-se Joska (note que só após atravessar o impossível é que ele volta a ter identidade, volta a se perceber como alguém) é a real vivência dessa metáfora, que inclusive já tem um histórico semelhante de trabalho cinematográfico no cinema checo (quando o país ainda era Checoslováquia), como constatamos em Diamantes da Noite (1964) e noutro épico visualmente estupendo e doloroso, Marketa Lazarová (1967), ambos produtos da Nová Vlna. O roteiro trabalha de maneira solta a crônica dessa jovem vida que amadurece em pleno choque, e o final da obra conta com uma coincidência grande demais para fazer jus ao Universo construído, mas aquilo que o filme tem como essência irá nos marcar em definitivo.

O espectador está cara a cara com o sofrimento, em distintas formas, vivido por uma criança que infelizmente está se acostumando com a violência. Esta é a alma de O Pássaro PintadoPetr Kotlár, que dá vida ao protagonista, faz um excelente trabalho na sustentação de emoções, no silêncio mortal, nos olhares perdidos, amargurados e desesperançados que dirige aos outros. É um papel difícil porque mostra com bastante realismo uma criança contaminando-se pelo veneno da guerra e violência que está por toda a parte. E justamente por ele não se encaixar em lugar nenhum é que esse veneno o ajudará a proteger-se — como arma para um constante contra-ataque — daquilo que ele é: um indivíduo diferente no meio de pessoas que não o querem por perto. Um pássaro pintado que, segundo o bando de iguais, não tem o direito à liberdade e precisa ser bicado, marcado, excluído do meio. Um tipo dentre os muitos excluídos por aqueles que sentem nojo e acham as mais variadas justificativas para expulsar da sociedade ou matar os que não se parecem, agem ou pensam como eles. Um horror histórico em andamento…

O Pássaro Pintado (The Painted Bird) — República Tcheca, Eslováquia e Ucrânia, 2019
Direção: Václav Marhoul
Roteiro: Václav Marhoul (baseado na obra de Jerzy Kosinski)
Elenco: Petr Kotlár, Nina Sunevic, Alla Sokolova, Stanislav Bilyi, Ostap Dziadek, Zdenek Pecha, Michaela Dolezalová, Udo Kier, Lech Dyblik, Jitka Cvancarová, Daniel Beroun, Marika Sarah Procházková, Marie Stripkova, Milan Simácek, Martin Nahálka
Duração: 169 min.

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