Crítica | O Peixe Assassino

O que esperar de um filme chamado O Peixe Assassino, lançado próximo ao final da década de 1970? No mínimo, uma relação com o tubarão-branco de gigantesco legado na cultura pop. Sob a direção de Anthonio Margheriti, O Peixe Assassino é um filme que comprova os interesses da indústria diante da exaustão de uma fórmula. Se atualmente os filmes de super-heróis inundaram e tornaram a indústria cinematográfica um tedioso ciclo de narrativas com salvadores da pátria e suas armaduras, nos anos 1970, inspirados no clássico de Spielberg, tradução intersemiótica do romance homônimo de Peter Benchley, o cinema respirava assassinos em série, famílias destroçadas e animais em fúria diante da presença humana.

No enredo, dirigido com base no roteiro escrito por Michael Rogers, filmado em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, acompanhamos a saga de bandidos que resolvem roubar milhões de dólares em esmeraldas. O plano é esconder a preciosidade numa região próxima a uma represa. O que eles não sabem é que o local se encontra infestado de piranhas. Além desse grupo, há um barco turístico repleto de passageiros em apuros. Eles enfrentam, acredite se quiser, um ciclone que deixa a embarcação à beira do naufrágio. Com tanta gente em perigo, a missão que antes era se divertir para alguns e roubar para outros se torna uma saga pela salvação de suas próprias vidas.

No hall dos personagens colocados para servir de vítima para as piranhas espevitadas, temos Ann (Marisa Berenson), Paul Diller (James Franciscus), Gabrielle (Margaux Heming), Lasky (Lee Majors), dentre outros, todos construídos apenas como pretexto para a narrativa caminhar rumo ao seu desfecho óbvio e insosso. O único conflito relevante neste processo todo é o desinteresse do financiador do roubo em não dividir o material com os demais criminosos, o que culmina em seu plano maléfico de infestar a região com piranhas, algo parecido com os rumos narrativos de Terror na Água 3D, lançado em 2011, desta vez, com animais maiores, os temíveis tubarões.

Com direção de fotografia de Alberto Spagnoli, O Peixe Assassino possui imagens interessantes apenas nas cenas em cenários abertos, contemplativos das locações e seus atributos naturais. Ademais, as partes com filmagens subaquáticas deixam bastante a desejar. É um festival de obviedades e Spagnoli nem é culpado, pois recebeu material nulo para captar imagens que pudessem se tornar algo minimamente relevante. A condução sonora da dupla formada por Guido de Angelis e Maurizio de Angelis segue o padrão das composições italianas realizadas com mão pesada, cheia de toques “esquizofrênicos”. O design de produção de Francisco Bronzi também faz o trivial, sem apoio de bons efeitos especiais para maior engajamento da plateia.

Ao longo de seus 101 minutos, O Peixe Assassino se revela uma aventura pouco empolgante sobre animais assassinos que atrapalham a trajetória de seres humanos de caráter duvidoso. O filme aproxima-se dos seus 40 minutos e nada de piranhas assassinas para fazer rir ou sentir medo. O elenco, dirigido de maneira equivocada, lança falas dispersas, oriundas de diálogos absurdos, o que fica pior quando o tempo passa ainda mais e você sente que as piranhas não aparecer. Os ataques, em sua maioria, configuram-se com a vítima a se debater na água e gritar coisas do tipo “estou sendo comido vivo”. Mais uma vez, apresento a vida real como um feixe de contos bem mais assustadores no que tange aos incidentes com animais do tipo. Há alguns anos, uma menina foi atacada no interior do Amazonas, ao entrar na água e ser devorada em instantes por um cardume de piranhas. O pai, durante um breve momento de dispersão enquanto pescava, deslocou a sua atenção e a perdeu de vista. Trágico, cruel e muito mais assustador que bobagens como o filme em questão, narrativa ítalo-brasileira tediosa e longe de ser um trash ao menos divertido.

O Peixe Assassino (Killer Fish – França/Brasil, 1979)
Direção: Antonio Margheriti
Roteiro: Michael Rogers
Elenco: Lee Majors, Karen Black, Margaux Hemingway, Marisa Berenson, James Franciscus, Roy Brocksmith, Dan Pastorini
Duração:  101 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.