Crítica | O Pequeno Príncipe (1974)

estrelas 2,5

Ao término da sessão de O Pequeno Príncipe (1974), o espectador fica sem acreditar que tenha acabado de ver um musical dirigido pelo mesmo cineasta de Cantando na Chuva, Sete Noivas Para Sete Irmãos, Cinderela em Paris e Um Dia em Nova York. Falta a inteligência, a coesão e a forma rigorosa na concepção do filme que em outros tempos estiveram na lista de obrigatoriedade de Stanley Donen. Musicais não eram um problema para o diretor. Adaptações e ambientas mais próximos da fantasia também não. É por isso que o seu trabalho neste longa impressiona pela menor qualidade.

Eu assisti a este filme pela primeira vez quando criança e me lembro de tê-lo adorado especialmente pela interpretação simpática e cativante do pequeno Steven Warner. O mesmo parece ter acontecido com alguns cinéfilos, então imagino que a mágica aqui sejam os olhos mais permissivos e menos “chatos” da tenra idade. Para um adulto que vê a obra, bons momentos ainda permanecem em tela mas o todo não é muito interessante.

Penso que o principal inimigo do filme é a perda total de ambientação e relação ao seu momento cinematográfico. Para um diretor arguto como Stanley Donen, filmar um musical em meados dos anos 1970 deveria ter sido um desafio a ser levado como uma brincadeira, misturando elementos da era de clássica com as mudanças que o atingiram a partir dos anos 1960. Esta adaptação da obra de Antoine de Saint-Exupéry não é uma homenagem aos grandes musicais dos anos 1950 e tampouco se enquadra na atmosfera dos musicais alternativos dos anos 1970. Dessa forma, o longa fica perdido entre um passado glorioso — perceba a forma como Donen concebe a abertura da fita e o primeiro número musical, It’s A Hat — e um presente perdido. Há uma tentativa de inclusão realista, mas ela se dissipa quando ingredientes fantásticos e inteiramente desconexos entre si surgem aos borbotões na tela.

O roteiro de Alan Jay Lerner também não ajuda muito, especialmente porque cria pontes muito fracas entre os diálogos do piloto e do príncipe e as canções entoadas ao longo da fita. Exceto no caso de It’s A Hat, o público não deixa de sentir alguma estranheza quando as canções aparecem. Isso é diminuído bastante nas sequências de Bob Fosse (que está ótimo como a Serpente, com uma coreografia meio cômica e muito boa, mas que é longa demais e editada de uma forma irresponsável) e Gene Wilder (cujo papel da raposa é salvo pela mensagem atrelada ao personagem, mas que, exceto uns poucos momentos, não toca o espectador como deveria).

Nesse mesmo padrão, fica difícil não apontar a representação da Rosa (Donna McKechnie) como algo que merecia melhor cuidado, e dos planetas visitados pelo príncipe, que quase nada carregam do livro — e aqui não me refiro ao fato de serem diferentes, mas de a adaptação não representar personagens com mensagens similares ou uma atmosfera geral similar à obra. O problema não é a fidelidade ou a falta dela, isso não importa na adaptação cinematográfica. O que importa é a captura ou não da essência do original. Algo que passa à margem deste filme.

O trabalho de pintura matte para compor alguns cenários (as cenas filmadas em locação na Tunísia não cobrem os efeitos ruins), o uso de lentes convexas no formato de íris para representar os planetas visitados pelo protagonista (recurso que é parcialmente interessante mas deslocado no todo) e a fotografia bipolar de Christopher Challis ajudam a tornar o filme uma salada estilística no sentido mais negativo da palavra. Ou seja, falta identidade e isso só não derruba completamente o longa porque ele é pontuado aqui e ali de bons e dóceis momentos que acabam nos divertindo um pouco e nos deixando com um certo calor no coração. Ao menos no quesito fofura o filme agrada.

Com duas indicações ao Oscar (categorias musicais) e tendo marcado algumas gerações devido ao apelo de sua fonte, O Pequeno Príncipe de Stanley Donen poderia ter sido um grande filme, mas não é. No entanto, o longa apresenta alguns poucos momentos de beleza e magia que acabam valendo a sessão, seja como uma experiência do presente, seja como memória de um tempo em que tenha sido visto com olhos inocentes.

O Pequeno Príncipe (The Little Prince) — Reino Unido, EUA, 1974
Direção: Stanley Donen
Roteiro: Alan Jay Lerner (baseado na obra de Antoine de Saint-Exupéry).
Elenco: Steven Warner, Joss Ackland, Clive Revill, Victor Spinetti, Graham Crowden, Richard Kiley, Donna McKechnie, Bob Fosse, Gene Wilder
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.