Crítica | O Perfuraneve

O PerfuraneveLe Transperceneige, no original francês – é conhecido, hoje, como uma série de graphic novels pós-apocalípticas sobre um trem em moto-perpétuo pela Terra congelada carregando os últimos sobreviventes da humanidade, mas a obra nem sempre foi assim. Seu criador, Jacques Lob, que faleceu em 1990, escreveu uma história serializada, mas com começo, meio e fim, que foi publicada pela editora Casterman entre outubro de 1982 e junho de 1983 e depois reunida em volume único. Sua continuação, batizada de O Explorador, veio apenas muitos anos depois, em 1999, por Benjamin Legrand, ganhando uma suposta finalização logo no ano seguinte, A Travessia, pelo mesmo autor. Na arte, não houve solução de continuidade, com Jean-Marc Rochette embarcando em todas as histórias.

Esses três volumes foram publicados tanto separada, quanto conjuntamente, sob o título O Perfuraneve, com a Editora Aleph lançando no Brasil, apenas a versão completa com os três volumes juntos, o que é objeto da presente crítica. No entanto, em 2013, com o lançamento da adaptação cinematográfica dirigida por Bong Joon-Ho, batizada por aqui de Expresso do Amanhã, a propriedade em quadrinhos foi revivida e, em 2015, o quarto volume – Terminus – escrito por Olivier Bocquet, foi lançado pela mesma editora original como o que parece ser um efetivo final para a saga. Esse volume, porém, por não fazer parte da publicação da Aleph, não será objeto da presente crítica, assim como os recentes prelúdios (iniciados em 2019) ainda em publicação pela editora americana Titan Comics.

No entanto, mesmo os três volumes iniciais são difíceis de ser avaliados como um conjunto harmônico tanto em razão  da diferença de propostas entre os autores quanto em razão do tempo que as separa, pelo que preferi analisar o primeiro volume separadamente dos dois seguintes nas críticas que seguem:

O Perfuraneve

O mero conceito de um trem em moto-perpétuo ser o último bastião da humanidade depois que um cataclismo leva o o planeta a uma nova Era do Gelo já merece todos os aplausos possíveis, pois não só é algo muito original – ainda que o confinamento de uma parcela da sociedade para estudar as reações que daí surgem seja praticamente milenar na literatura -, como ele altamente impõe restrições muito rígidas à narrativa. E Jacques Lob sabe muito bem disso e não perde tempo em pseudo-explicações científicas tanto para o funcionamento do trem, quanto para a razão por trás do congelamento da Terra, partindo logo para seu objetivo maior, que é trabalhar uma proposta humanista de estratificação social, de mitos e do próprio conceito de herói das massas.

Visto de maneira mais distanciada, a narrativa é uma literal Jornada do Herói do ponto A – os últimos vagões do trem – até o ponto B, a locomotiva. Proloff é esse homem que é preso quando chega em algum lugar na metade dos 1.0001 vagões que compõem esse última bastião da humanidade. Mas essa jornada encontra como obstáculo algo menos palpável que outras, mas talvez muito mais difícil de se escapar, o determinismo social que o relegou aos vagões fundistas, onde falta tudo, de comida à higiene, de calor à espaço. Sua prisão quando ele alcança o meio – onde a história começa – é menos em razão de ele ter chegado lá e mais porque a ascensão social é, nessa sociedade, intolerável.

Proloff é ajudado por Adeline Belleau, uma jovem “do meio” que faz parte de um movimento para integrar as populações separadas por classes, reduzindo o abismo sócio-econômico existente. Ainda que seus propósitos sejam nobres e ela, aprisionada com Proloff, acabe tendo um relacionamento amoroso com ele, Lob inteligentemente torna tudo muito enevoado, combinando as motivações da moça com sentimentos de uma culpa que ela carrega por ser mais privilegiada (ainda que menos do que os habitantes dos luxuosos vagões da frente) que o fundista que ela tenta salvar, em uma crítica ferina ao assistencialismo, mas sem simplesmente dizer que esse aspecto não é importante, pois seria levianos.

E os dois, juntos, passam, então, a caminhar até a locomotiva em uma narrativa simples e literalmente em linha reta que tem sua parcela de ação, ainda que muito limitada e por vezes confusa e simplista demais. É também, por vezes, um “passeio turístico” por esse micro-universo criado por Lob que é obviamente muito representativo do mundo real em que vivemos, mas sem que o autor carregue as críticas para esse ou aquele sistema econômico, preferindo abordar a questão de maneira mais filosófica, convertendo Proloff em uma espécie de messias, de profeta, que passa a ser encarado por todos – fundistas e frentistas – como uma fusão de esperança de mudanças e ameaça ao status quo.

A arte em preto-e-branco de Jean-Marc Rochette é dura, com traços firmes e fortes, expressões faciais desesperançosas e uma pegada razoavelmente realista do interior do trem em perpétuo movimento. Os elementos claramente sci-fi são mantidos no mínimo possível, ao passo que a sensação de enclausuramento e, claro, claustrofobia, são amplificados ao máximo, literalmente trazendo para a Nona Arte a representação do determinismo social.

Como disse no preâmbulo, a história é finita, porém. O foco é decididamente pessimista e até niilista e, em tese, não permitiria uma continuação, ainda que as portas não sejam fechadas de maneira absoluta. Seja como for, O Perfuraneve é um excelente estudo antropológico-filosófico da estratificação social em um ambiente controlado que repercute muito fortemente no panorama mundial da época em que foi escrito e, infelizmente, talvez até mais hoje em dia. Uma bela, mas triste, visão de futuro.

O Explorador // A Travessia

Dezesseis anos depois do fim da publicação do que seria o primeiro volume de O Perfuraneve, Benjamin Legrand pegou para si a missão de continuar a narrativa que Lob, falecido em 1990, havia criado. A tarefa, porém, nasceu ingrata, já que o autor original não deixou um caminho muito fácil a ser seguido que, para ser trilhado, exigiria muita ginástica.

E foi isso que Legrand fez. Misericordiosamente, para início de conversa, ele não mexeu com os eventos do primeiro volume. Essa é a boa notícia. A má notícia é que ele precisou expandir a mitologia, o que de certa maneira exigiu que ele derrubasse um princípio que, apesar de não ficar totalmente explícito na história original, certamente está nas entrelinhas: o Perfuraneve, na verdade, não é o último bastião da humanidade; há outro trem, apelidado de Desbrava-Gelo.

É nele que a aventura se passa e, quando classifico como aventura, é porque O Explorador e A Travessia são volumes bem menos preocupados com os aspectos sócio-econômicos e filosóficos, do que com a ação. Os eventos de O Perfuraneve são efetivamente (literalmente até!) absorvidos pela nova narrativa, mas a palavra-chave aqui é mudança. Mudança no que já conhecíamos, mudança nos conceitos. Não só o segundo trem abre portas para a existência de ainda outros, como o próprio moto-perpétuo é defenestrado com a inserção de uma novidade: exercícios de frenagem que são logo vistos no começo que, mais para a frente, em uma elipse temporal bem longa de 17 anos, transformam-se em parada total, com a saída dos ditos “exploradores” do bólido.

Em outras palavras, o espaço confinado, de repente, deixa de existir e muitas possibilidades são abertas quanto o explorador Puig Vallès faz descobertas e indagações que não devia, tornando-se, de maneira parecida com Proloff antes dele, adorado pelo povo e odiado pela elite que, por sua vez, é obrigado a trazê-lo para uma posição de poder para tornar possível seu controle. Os eventos que se seguem são repletos de ação, inclusive com a revelação de uma seita perigosa de cosmonitas que defende, de forma muito parecida com o que os terraplanistas fazem, que eles, na verdade, não estão em um trem viajando ao redor do planeta, mas sim em uma nave espacial.

O foco de Legrand na ação, porém, não o impede de abordar o conflito entre Estado e Religião e, especialmente, o que separa liderança de ditadura, com Vallès tendo que lidar com esse conflito interior de maneira muito presente, levando-os a atos que podem ser vistos como reprováveis em um universo cujas leis perderam muito de seu sentido. A estratificação social, ainda que presente, é emudecida por Legrand, talvez como forma de evitar comparações diretas com o trabalho de Lob, algo que realmente faz sentido para um autor que quer deixar sua marca em material anterior tão respeitado.

Se O Explorador já expande os horizontes e muda muita coisa que havia sido estabelecida, A Travessia talvez vá mais longe ainda, alterando até mesmo a natureza do trem e tornando um pouco mais difícil de entender exatamente como tudo funciona. No volume, continuação direta do anterior, Vallès tem que lutar contra interesses opostos quando uma transmissão misteriosa é captada no rádio do trem. Para chegar até sua fonte, é necessário atravessar o oceano congelado e é esse o elemento narrativo que impulsiona a história e exige as tais modificações ainda mais radicais na mitologia da série em uma história talvez menos interessante que as duas anteriores.

A arte de Rochette muda bastante aqui, algo a se esperar considerando o tempo passado entre um volume e outro. No lugar dos traços duros anteriores, ele suaviza sua arte com o esfumaçamento de seus traços por intermédio do borramento manual de seu lápis, alcançando um resultado visualmente muito bonito, algo que é amplificado pelas maiores possibilidades que o artista tem considerando que, agora, ele não está mais restrito ao espaço interior do trem.

Mesmo acrescentando e alterando muita coisa ao que fora estabelecido por Lob, Legrand consegue dar um sabor próprio à narrativa e efetivamente expandir esse fascinante universo pós-apocalíptico. Não são continuações estritamente necessárias – mas quantas são? -, só que o autor soube torná-las muito interessantes de seu próprio jeito e tomando suas próprias liberdades em relação ao material original, para o mal ou para o bem.

O Perfuraneve (Le Transperceneige, França – 1982/1999/2000)
Roteiro: Jacques Lob, Benjamin Legrand
Arte: Jean-Marc Rochette
Editora original: Editora Casterman
Data original de publicação: outubro de 1982 a junho de 1983 (volume um), 1999 (volume dois), 2000 (volume três)
Editora no Brasil: Editora Aleph
Data original de publicação: março de 2015 (compilação dos três volumes)
Tradução: Daniel Lühmann
Páginas: 280 (encadernado da Aleph)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.