Crítica | O Peru de Natal, de Mário de Andrade

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O conto é um gênero literário excelente, pois além de sua estrutura dinâmica, permite que determinadas histórias sejam mais atraentes no formato enxuto, sem as possíveis dispersões do romance, estrutura mais extensa que em casos como O Peru de Natal, narrativa de Mário de Andrade, poderia não ter alcançado a mesma proeza reflexiva. Sempre citado como uma boa referência no bojo dos contos marcantes da história da literatura brasileira, a história em questão ganhou versão para o formato ópera recentemente, tendo como foco o mesmo direcionamento da versão literária, isto é, uma narrativa sobre a busca por sobriedade diante do luto e da tristeza, além da necessidade de atravessar a cinzenta fase da melancolia em busca de uma existência menos amarga e mais intensa.

Mário de Andrade, creio, é um dos nossos escritores que dispensam grandes apresentações. Considerado como um dos pioneiros da prosa e da poesia modernista brasileira, o autor assinou manifestos, correspondências, trafegou pelas trilhas da música, atuo como ensaísta e crítico literário, além de ter coordenado diversos eventos e movimentos, bem como exercido o ofício de pesquisador, haja vista a sua extensa pesquisa sobre manifestações folclóricas brasileiras. Tal como o personagem de seu conto, Mário de Andrade perdeu o pai ainda jovem, tendo como experiência de vida, o contato diário com três mulheres que marcaram a sua vida: a mãe, a tia e a irmã. Considerado como ressonância das suas histórias de cozinha, O Peru de Natal é o relato da felicidade gustativa em prol da busca por quebra de tradições engessadas na vida dos personagens, alegoria traços da vida do escritor.

Narrado em primeira pessoa, o conto nos apresenta uma família que há eras é regida por traços do patriarcalismo. São pessoas que vivem das aparências, guiadas por regras sociais rígidas e dinâmicas nem um pouco autênticas, tudo em prol das padronizações. Isso se reflete o tempo inteiro, mas nos festejos natalinos, tal como muitos filmes representam, a predominância das tradições fica ainda mais forte neste período. Muitas pessoas cumprem tarefas por obrigação, além sentirem na pele a necessidade de agir conforme as ações coletivas, tendo em vista não destoar e ter dedos apontados para si. Na casa onde o conto se desenvolve, no entanto, a morte do pai traz novas perspectivas: é a queda de um regime estabelecido há bastante tempo, o que faz com que as pessoas, inicialmente assustadas, se deixem levar pelas novas possibilidades de curtir os momentos de interação, agora oxigenados graças às ações do narrador, questionador da frieza e calculismo das relações dentro do próprio lar.

O tal alimento, isto é, o peru de natal, acompanhado de duas farofas, a gorda com miúdos e a seca, douradinha, com bastante manteiga, é a metáfora para a sensação de liberdade. Na ceia, todos agora podem comer o que querem e da maneira que desejam, sem sentimento de culpa ou pressões exercidas pelo sistema patriarcal que sempre foi muito inflexível. Tratado como inconformado, o protagonista narrador é apontado como “afrontoso”, mas permite aos demais o compartilhamento de experiências diante de posturas que precisam se eximir da culpa. É assim que o natal se torna uma comemoração leve, o posto do que era nos tempos de seu pai. Ao se libertar das amarras paternas, a família começa a enxergar a hipocrisia que gravita em torno de todos. É a libertação do que o narrador chama de “puro-sangue dos desmancha-prazeres”.

De maneira humorada, com estilo único, Mário de Andrade desenvolve a sua história com muita graça, sem deixar a reflexão de lado em momento algum de sua narrativa breve. O peru que domina o título e um dos momentos mais saborosos da mesa de jantar torna-se o elemento figurativo para o sabor, o prazer, o acesso ao que se deseja, diferente das costumeiras castanhas e nozes que faziam parte do menu básico natalino de sua casa nos anos anteriores. Guiado por um tom exclamativo que nos faz adentrar ainda mais no clima da história, O Peru de Natal foi publicado em coletâneas (Cem Melhores Contos e Contos Novos), no Jornal da tarde, em 1949, quatro anos após a morte do autor e na revista da Academia Paulista de Letras, em 1942. Ainda hoje, é uma referência, sem ter envelhecido em seu formato e tema.

O Peru de Natal (Brasil, 1942)
Autor: Mário de Andrade
Editora: Objetiva
Páginas: 6

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.