Crítica | O Pesadelo Americano

Logo em seus primeiros momentos, o documentário Um Pesadelo Americano, escrito e dirigido por Adam Simon, deixa claro que não poupará o espectador de imagens fortes, tampouco os radiografados, expostos em meio ao tom crítico do roteiro, bem como dos filmes utilizados para ilustração do tema central, isto é, o percurso do gênero terror ao longo das décadas de 1960 e 1970. Reclamou-se muito, na época, da violência exacerbada do cinema, haja vista a quantidade de sangue nas produções realizadas durante este período. O que os tais reclamantes esquecem é que a própria cultura bélica estadunidense promoveu material midiático, político e cultural para isso.

Com imagens de O Massacre da Serra Elétrica intercaladas com depoimentos breves de Richard Nixon e de fotografias e imagens em movimento de excertos dos conflitos no Vietnã, o documentário abre as portas para a reflexão ao longo de seis capítulos. Tobe Hooper, numa excelente fala sobre subtexto, aponta que na época produziram muitas imagens que alguns só conseguiram interpretar 20 anos depois. É um trecho totalmente conectado com a ideia do contemporâneo discutida por Giorgio Agamben, ou seja, dissociados do tempo histórico vigente, às vezes conseguimos compreender determinadas fontes nebulosas de informação, haja vista a nossa total imersão dentro do contexto no qual vivemos o tempo presente.

O autor, vale ressaltar, não é citado. Mas a ilação teórica é mais que válida. Adiante, antes de rilhar os capítulos de sua subdivisão interna, o documentário traz pequenos clipes de Wes Craven, George A. Romero, John Carpenter, Tom Savini, David Cronenberg e da pesquisadora Carol Clover, uma das responsáveis pelos primeiros estudos sobre a final girl no ambiente acadêmico. Após o breve preâmbulo, a produção vai para A Noite dos Mortos-Vivos e dedica o capítulo inteiro ao processo de análise estética e histórica do clássico que reformulou a linguagem dos filmes de zumbis produzidos até 1968. A filha que mata a mãe, o líder negro e o forte subtexto racial e feminista dialogam com as imagens das manifestações na ocasião da morte de Martin Luther King Jr., um dos representantes da esperança estadunidense para a população descrente da época.

Há, ainda neste capítulo, recapitulação da morte de Bob Kennedy no Texas e os depoimentos de Tom Savini, a comentar as fotos que fez durante a sua permanência como correspondente na Guerra do Vietnã, espécie de escola para a realização da maquiagem dos seus monstros ao longo de toda a sua trajetória enquanto maquiador e supervisor de efeitos especiais em Sexta-Feira 13, Despertar dos Mortos, dentre tantos filmes. Na transição para o capítulo 02, a produção nos oferta imagens em movimento da famosa fotografia das crianças vietcongues desesperadas, correndo durante o conflito com soldados, com abertura posterior para a insanidade de Wes Craven e Sean S. Cunningham em Aniversário Macabro, violência que não estava dissociada das imagens da realidade. Para comprovar, há uma cena de tiro da guerra, conectada com a cena do filme.

Entende-se que há o questionamento: cinema e realidade, o que é pior? Tenho certeza de que seria um prato cheio para Quentin Tarantino elucubrar. Sigamos. Junto ao arsenal de informações, há um excerto do marketing de Aniversário Macabro, com as vozes mixadas de maneira doentia por meio de um coro macabro, a entoar repetidas vezes a expressão “é só um filme”. Ainda neste capítulo, há referências à crise do petróleo como subtexto em O Massacre da Serra Elétrica. Para quem já assistiu ao clássico e não se recorda, os jovens acabam naquele destino depois que tentam abastecer a kombi durante o trajeto da viagem.

No capítulo 03, a direção de arte macabra de casa do clã de Leatherface é radiografada, juntamente com a leitura da feminista Carol Clover para a protagonista, violentamente subjugada, espécie de Chapeuzinho Vermelho em encontro com a criatura demoníaca dos contos de fadas, leitura pertinente para as ilações pretendidas pelo documentário. Mais adiante, há depoimentos sobre as idas e vindas das pessoas nos anos 1970, divididas entre momentos de bem-estar e situações de agouro político e social que trazia uma maré de desânimo. Cenas de cartões de créditos e consumo são intercaladas com trechos de Despertar dos Mortos, filme de George A. Romero que sabemos, alegoriza o consumismo desenfreado, a ilusão do capitalismo e o “fetiche pela mercadoria”.

Entre imagens de arquivo de pessoas digladiando por produtos numa promoção e zumbis dividindo as vísceras de um ser humano atacado, o trecho é um dos pontos mais críticos e formidáveis do documentário, prévia da análise das mudanças ocorridas com a abertura da sexualidade e a intrusão cada vez maior do homem na compreensão da estrutura corpórea das pessoas. David Cronenberg é o foco do capítulo, devidamente cuidadoso ao analisar o tenso Calafrios e o clima de horror de Enraivecida na Fúria do Sexo, filmes alegóricos para outra celeuma que abarcaria a década seguinte, não contemplada na produção: a dimensão do HIV.

Segundo Cronenberg, os parasitas em seus filmes são interpretações para a velha e a nova ordem, ideologias invasivas que dominam o nosso espaço de interação, algo que nos leva ao questionamento: “podemos controlar o contexto político e social que nos cerca?”. Num pulo para 1978, Um Pesadelo Americano analisa Michael Myers e o mal-estar da civilização da época, as incertezas em relação ao famigerado american way of life, tão custoso para as famílias dilaceradas num contexto de revoluções e guerras. A nudez como algo proibido, o sexo como sentença de morte e a violência abrupta que toma o nosso cotidiano anteriormente calmo e tranquilo refletem o subtexto de Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter.

No último capítulo, mais cenas reais de combates em guerra são conectadas aos excertos dos filmes selecionados para diálogo na produção. A bandeira dos Estados Unidos surge numa passagem, limpa e sacolejante, hasteada ironicamente de maneira a representar orgulho, algo conflitante com as abordagens do documentário, posicionado de maneira crítica aos processos imperialistas que prejudicaram a nação durante tanto tempo. Encerrados como abriu, com algumas cenas dos zumbis, alegorias da alienação no filme de George A. Romero, há um depoimento que formidável que sela com chave de ouro a produção: “os filmes dessa época nos mostraram que o apocalipse é uma constante”, isto é, a insegurança nunca se esvai totalmente e estamos sempre em estado de alerta.

Em seus 10 minutos finais, Um Pesadelo Americano perde relativamente o seu ritmo. Mas o que nos importa já foi apresentado, então é uma falha perdoável. Talvez tenha sido proposital, pois o volume de informação é tão grande em sua primeira hora que desconfio da busca por um tom mais ameno para que todos possamos interpretar a quantidade de detalhes expostos pelas imagens de acervo oriundas da pesquisa de Margareth Johnson, editada, juntamente com os depoimentos dos entrevistados, por Paul Carlin. Elucidativo e com um tema fascinante, o documentário é uma aula que mixa produção, recepção, crítica cinematográfica e contexto histórico, num percurso eloquente para que possamos compreender as bases do horror na cinematografia contemporânea.

O Pesadelo Americano (The American Nightmare) — Estados Unidos, 2000
Direção: Adam Simon
Roteiro: Adam Simon
Elenco: Carol Clover, Wes Craven, George A. Romero, David Cronenberg, Tobe Hooper, John Carpenter, John Landis, Tom Savini, Tom Gunning
Duração: 71 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.