Crítica | O Peso do Passado

É comum que intérpretes famosos, especialmente aqueles considerados bonitos pelo público em geral, tentem pelo menos um papel que quebre essa expectativa, muitas vezes como uma forma de se reafirmar como alguém que não depende de sua aparência para entregar bons trabalhos. Há vários exemplos disso, desde notórios “transformistas” como Robert De Niro e Christian Bale até Charlize Theron transformando-se completamente para seu papel de Aileen Wuornos, em Monster: Desejo Assassino.

O Peso do Passado (Destroyer, no original) é o veículo de Nicole Kidman nessa mesma estrada, com uma transformação radical de rosto e cabelo para ela viver a detetive Erin Bell, esmagada pelo peso da culpa que carrega e que tenta expiar parte de seus pecados em uma empreitada pessoal de vingança contra o bandido Silas (Toby Kebbell). E a atriz é realmente o grande foco das lentes de Karyn Kusama em seu primeiro longa desde O Convite e apenas o quarto em seu currículo.

E a diretora sabe disso e tira o melhor proveito possível de uma atriz que se entrega ao papel, com a narrativa sendo contada em dois momentos, no presente com ela investigando o possível retorno de Silas e no passado, com ela e o agente do FBI Chris (Sebastian Stan) infiltrando-se na gangue comandada pelo marginal. Vemos diligência e esperança há 17 anos e raiva e culpa agora, com uma Kidman absolutamente cativante em ambos os momentos temporais, mas particularmente no presente, com o envelhecimento acelerado de sua personagem e sua postura completamente niilista, que afastou sua filha, seu parceiro e seu colega de trabalho. O choque entre as versões da mesma personagem é gritante e assustador e a convergência narrativa vem vagarosamente, sem pressa, abrindo espaço para a atriz mostrar a que veio.

O roteiro de Phil Hay e Matt Manfredi não é exatamente um thriller, mas também não é apenas um drama existencial. A obra trafega entre essas duas pontas, ora lembrando Dia de Treinamento, ora A Qualquer Custo, mas sem realmente chegar à excelência deles. O Peso do Passado é uma obra que não se preocupa muito com os personagens coadjuvantes, de certa forma desperdiçando Stan e também Tatiana Maslany (aliás, falando em atriz transformativa, está aí outro grande exemplo!), que entra mais tarde na narrativa. Há um senso de que nada que não seja Erin Bell realmente importa aqui, o que detrai da impressão de conjunto, mas, por outro lado, reforça a presença magnética de Nicole Kidman.

Kusaman reforça essa impressão trabalhando com a diretora de fotografia Julie Kirkwood em ótimos closes do rosto da protagonista, além de permitir destaque, em planos médios, para a linguagem corporal alquebrada da Erin mais velha, uma assustadora e esquelética sombra de sua versão mais jovem. Kirkwood usa uma paleta de cores árida e desesperançosa nas sequências do presente, criando um “noir desértico”, por assim dizer, e contrastando-a com a paleta levemente mais viva no passado, sem que haja choque. Ao contrário, há um ótimo diálogo entre os dois momentos temporais que Plummy Tucker (que constantemente trabalha com Kusama), na montagem, aproveita ao máximo com um vai e vem bem costurado e fluido.

O trabalho de maquiagem em Kidman carrega nas cores, por assim dizer, talvez exagerando em sua caracterização. Mas a atriz sabe o que está fazendo e não deixa esse pequeno problema atrapalhar sua performance. Sabemos quem é e como a atriz verdadeiramente é, mas sua personagem é suficientemente bem construída para que sua reconstrução facial mescle-se com a pegada de “fim de carreira” e “vingança a todo custo” que é toda a razão de viver de Erin Bell.

No entanto, ao trafegar entre gêneros, sem agarrar-se a algum especificamente a não ser o “filme policial”, o roteiro de Hay e Manfredi acaba dependendo de muitos clichês do gênero que emprestam uma grande sensação de previsibilidade à narrativa. Não é que isso seja ruim por natureza, mas essa escolha acaba contribuindo para que o filme se arraste por mais tempo do que talvez devesse, com apenas Kidman ganhando profundidade e desenvolvimento. E mesmo sua Erin Bell nós já inevitavelmente vimos antes de uma forma ou outra, ainda que o diferencial da atuação de Kidman esteja presente todo o tempo, elevando-a a outro patamar comparativo. Acontece que, como mencionei anteriormente, o preço disso é que os demais são personagens meramente recortados em cartolina que servem de arquétipos para que a narrativa seja desenvolvida sem maiores percalços.

O Peso do Passado coloca todo seu peso em Nicole Kidman em uma performance que a retira de sua zona de conforto, o que automaticamente já o torna merecedor de atenção. Mas tudo ao redor dela é cenário, inclusive os atores, o que potencializa a impressão de muita duração para pouca história e de desperdício de potencial.

O Peso do Passado (Destroyer, EUA – 2018)
Direção: Karyn Kusama
Roteiro: Phil Hay, Matt Manfredi
Elenco: Nicole Kidman, Sebastian Stan, Toby Kebbell, Tatiana Maslany, Bradley Whitford, Jade Pettyjohn, Scoot McNairy, Toby Huss, Zach Villa, James Jordan, Beau Knapp, Shamier Anderson, Chris Fiore
Duração: 120 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.