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Crítica | O Picolino (1935)

por Guilherme Rodrigues
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Há uma ironia muito fina quando um musical abre em um lugar onde se pede silêncio, onde o mero tilintar de copos de cristal resulta em sussurrados pedidos de desculpa. Não que a ironia seja um elemento muito grande em O Picolino, mas essa cena já demonstra que nosso protagonista, Jerry Traves (Fred Astaire), não se encaixa muito bem nesse cenário, sendo constantemente silenciado por outras pessoas. Nada mais lógico para um dançarino do que não se acostumar muito bem com o silêncio, já que uma de suas principais ferramentas é o som.

Claro que som em musical sempre é importante, mas em O Picolino isso é além das – fantásticas – cenas musicais. É o som do sapateado de Jerry, por exemplo, que faz com que ele conheça a menina dos seus olhos, Dale Travers (Ginger Rogers), que o faz mudar completamente de ideia sobre os rumos da sua vida. A primeira música do longa é sobre como Jerry está muito bem como solteirão, obrigado, mas ao conhecer Dale, tudo muda, e passará boa parte do longa tentando conquistar o coração da donzela.

Mas isso não será uma das tarefas das mais fáceis, já que a trama gira em torno da confusão de identidades dos personagens, pois após se apaixonar por Jerry, os acontecimentos farão Dale acreditar que ele é na verdade, o empresário Horace  (Edward Everett Horton), marido de uma grande amiga sua, Madge (Helen Broderick). É um conflito de fácil solução? É claro, já que bastaria ver os dois personagens um do lado do outro, mas há uma leveza na condução do diretor Mark Sandrich, que torna toda a situação boba uma graça de se assistir, e os atores coadjuvantes carregam muito bem as situações mais anciliares da trama, especialmente Edward Everett e Eric Blore, que interpreta o mordomo de Horace, Bates, responsáveis pelos momentos mais pastelões da trama.

O roteiro consegue conciliar muito bem essa ideia de falha de comunicação, grande motor do conflito principal da trama, com essas situações mais humorísticas e até mesmo como principal característica de alguns personagens, como Bedini (Erik Rhodes), um personagem que frequentemente troca palavras por outras com sons similares. Essa ideia permeia as situações mais tradicionais da narrativa, para nas situações musicais, elas serem calcadas na clareza de sentimentos entre Jerry e Dale. Se em uma cena de diálogos eles não conseguem se entender, na cena de dança seguinte os sentimentos de um pelo outro ficam claros como água. A maior representação disso é a canção “Cheek to Cheek”, em que o par tem a coreografia mais elaborada do filme, completamente em sintonia um com o outro. Não é de graça que a música se tornou icônica e referenciada até hoje, além da própria melodia ser agradável, a cena que acompanha mostra todo o talento da dupla Astaire e Rogers, que realizam a dança em uma só tacada, e faz belo uso do enorme set construído para se passar por Veneza no longa. 

O Picolino foi o maior sucesso das diversas colaborações entre Fred Astaire e Ginger Rogers e é fácil de entender o porquê. Dois artistas no topo de suas habilidades e músicas memoráveis, que inclusive escuto enquanto escrevo esse texto, sem contar o elenco de apoio que também não deixa a bola cair, não tem como dar errado.

O Picolino (Top Hat) — EUA, 1935
Direção: Mark Sandrich
Roteiro: Alan Scott, Dwight Taylor, Ben Holmes, Ralph Spence
Elenco: Fred Astaire, Ginger Rogers, Edward Everett Horton, Erik Rhodes, Helen Broderick, Eric Blore.
Duração: 101 minutos

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