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Crítica | O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle (1963)

por Ritter Fan
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estrelas 5,0

Pierre Boulle, escritor francês falecido em 1994, foi o verdadeiro responsável pela febre símia que assolou os Estados Unidos a partir de 1968, com o lançamento do primeiro de muitos filmes baseado em seu livro La Planète des Singes ou, simplesmente, O Planeta dos Macacos (mais precisamente, “dos símios”, mas usarei ” dos macacos” pela maior familiaridade e em conformidade com a tradução oficial no Brasil). Sempre notei que, em todas as adaptações cinematográficas e televisivas sobre o mundo dos macacos, o nome de Pierre Boulle aparecia com grande proeminência mas nunca me dei ao trabalho de ler o livro, até porque nunca o encontrei em português. No entanto, com as facilidades da vida moderna, acabei adquirindo o livro digital de uma versão em inglês da obra francesa e posso dizer que me diverti muito.

Para começar, é incrível que Pierre Boulle, em 1952, já tivesse escrito outro livro que se tornou um clássico do cinema: A Ponte do Rio Kwai. Normalmente imaginamos que autores de ficção científica ficam restritos ao gênero, mas, pelo que pude aprender sobre Boulle, O Planeta dos Macacos foi, para ele, uma espécie de exceção. E que exceção!

E, de fato, lendo o livro, temos a nítida impressão que, apesar de ser do gênero ficção científica, não há muita preocupação com o lado científico, mas sim com o lado da ficção. Boulle não se interessa muito em dar explicações detalhadas sobre como, por exemplo, viagens interplanetárias acontecem em seu universo. O que ele quer – e muito sabiamente, aliás – é abordar os aspectos antropológicos de sua ideia de colocar símios no lugar de homens (de certa maneira, isso foi feito antes dele por Aldous Huxley, em O Macaco e a Essência, em 1948, mas que não vem ao caso aqui). Vamos à história.

O livro começa com um casal de astronautas literalmente velejando pelo espaço em um futuro distante. Estão lá puramente por prazer, como se tivessem saído para dar uma volta de carro no campo. Seus nomes são Jinn e Phyllis e, em um momento relaxado, eles reparam que há algo estranho flutuando no espaço. Ao se aproximarem, percebem que é uma garrafa e eles correm para capturá-la. Dentro da garrafa, encontram um manuscrito longo que começam a ler em voz alta. E aí começa a história propriamente dita: ouvimos a narrativa de Ulysse Mérou, um repórter francês que, no ano de 2.500, partiu em viagem interplanetária quase na velocidade da luz, juntamente com o Professor Arthur Levain e um assistente dele.

A viagem tinha como objetivo o sistema planetário de Betelgeuse e levaria 2 anos para ser completada. No entanto, pela teoria da relatividade de Einstein, 350 anos passariam na Terra. Ao chegarem em Betelgeuse, eles escolhem um planeta que, aparentemente, tem as mesmas propriedades da Terra e pousam com um pod, deixando a nave em órbita. Obviamente, logo descobrem que os humanos que lá existem são como animais e não falam além de alguns urros e a espécie mais desenvolvida é a dos símios. Mas, diferente do que vemos nos filmes, mas igual à série animada da TV, os símios do planeta Soror (nome que significa “irmã” em latim e que é usado pelo viajantes para batizar o planeta) são tão desenvolvidos como os humanos do planeta Terra mais ou menos da década de 1960.

Depois de encontrarem uma bela humana que batizam de Nova, Ulysse é capturado pelos símios e levado para pesquisas científicas. Em cativeiro, ele consegue fazer amizade com a cientista chimpanzé Zira, a quem revela que é um humano “pensante”. Zira, então, tenta convencer o orangotango Zaius (o cientista chefe) que Ulysse é inteligente. Zaius, porém, apenas acha que Ulysse imita os símios muito bem e que só fala aquilo que ouve. Zira, então, juntamente com seu noivo Cornelius (um chimpanzé arqueólogo) começam a montar um plano para revelar ao mundo que Ulysse é um homem e que vem de outro planeta onde a lógica é inversa e os humanos são os seres dominantes.

Pela descrição acima, é fácil ver que todos os filmes sobre da franquia Planeta dos Macacos, inclusive o de 2001 (e com a exceção da aberração que é o segundo filme), retiraram elementos do livro de Boulle. Obviamente, o filme original de 1968 é o mais próximo ao livro, apesar de mostrar uma sociedade símia ainda muito primitiva. Na época de pré-produção do filme, a idéia era mostrar a sociedade avançada dos símios, mas, por questões de orçamento, decidiu-se mostrar símios mais primitivos, ainda em evolução. No entanto, lendo o livro, tenho para mim que a decisão foi mais do que orçamentária. Boulle, falando pela voz de Ulysse, faz um enorme – mas bem sucedido – esforço para convencer o leitor de que os símios vestidos como humanos não são ridículos como macacos de circo com um chapéu panamá e uma gravatinha (isso é escrito no livro). E, de fato, pensando bem, fico imaginando como seria nossa reação – certamente fruto do exato preconceito de Ulysse quando vê os símios pela primeira vez – se víssemos macacos vestidos de terno e outras roupas no primeiro filme. É bem verdade que lá os símios também eram vestidos, mas o que vemos na fita de 1968 são roupas próprias para os símios, diferentes daquelas que os humanos comumente usam. No final das contas, a escolha no filme, por uma razão ou outra, foi muito acertada.

Mas o livro de Boulle tem elementos que só acrescentam à mitologia dos macacos. Para começar, a cena inicial em que Ulysse se depara com a maneira com que os humanos vivem, é antológica: são verdadeiros animais, vivendo como se fossem gorilas em uma floresta no Congo. Os humanos de Soror não usam roupas e acham muito estranho humanos usarem roupas e aninham-se em buracos cavados no solo. Boulle consegue, de maneira muito mais chocante do que qualquer filme, passar aquela sensação de estranhamento e, porque não, de vergonha alheia por haver humanos portando-se como “meros” animais. E o choque continua quando Boulle descreve a cena de caçada, que acontece logo em seguida. Os símios – em sua maioria gorilas – usam técnicas de caçada muito parecida com as técnicas que, imagino, sejam usadas por caçadores mesmo hoje em dia. Ulysse, com toda a inteligência e civilização humana em seus ombros, quase não consegue suportar a visão e por instantes perde o controle, meio que revertendo para uma forma mais primal. É claro, porém, que ele consegue manter a calma e a vida.

E Boulle não usa saídas fáceis para a barreira linguística. Os símios falam língua própria que Ulysse, porém, acaba aprendendo. E, em determinados momentos, Ulysse é retratado como arrogante e preconceituoso, achando-se superior aos símios. Não é um personagem fácil de se gostar, mas que, com a evolução da trama, acabamos nos afeiçoando a ele.

O livro é curto – apenas 216 páginas na versão impressa brasileira – mas a trama é bem mais complexa do que a que passei acima. No entanto, contar mais é estragar as surpresas. No entanto, para quem quiser saber o que acontece no final, continuem lendo.

SPOILERS adiante.

Ulysse aprende a língua símia e, durante um congresso de cientistas, quando será apresentado como grande atração, pega o microfone e faz um grande discurso, planejado por ele, Zira e Cornelius, que torna irrefutável a conclusão de que ele é inteligente. Para a raiva de Zaius, ele ganha a liberdade e uma espécie de cidadania. Em determinado momento, porém, aprendemos que a sociedade símia passou por um enorme período de estagnação científica, algo como a nossa Idade Média, só que por 10 mil anos. E, pior, antes desse período, não há quaisquer relatos. Cornelius, o arqueólogo, desconfia que há algo de errado e acaba descobrindo um sítio arqueológico mais antigo do que 10 mil anos em que há uma boneca humana de porcelana que fala “papa” (igualzinho ao final do primeiro filme). Ulysse, que estava acompanhando Cornelius nessa pesquisa, vê a boneca e conclui a mesma coisa que Cornelius sem que os dois precisem trocar uma palavra sequer: os homens dominavam aquele planeta antes dos símios e, por alguma razão, involuíram ao passo que os símios tornaram-se os seres dominantes.

Essa descoberta afasta Cornelius de Ulysse um pouco pois mesmo Cornelius sente a ameaça que Ulysse pode representar. De volta à cidade, Ulysse descobre que Nova está grávida dele e, assim como em Fuga do Planeta dos Macacos (mas ao contrário, claro), os símios passam a ficar inquietos com a possibilidade de os humanos passarem a dominar o planeta novamente (como em A Conquista do Planeta dos Macacos). Começa, por um lado, uma trama de Zaius para acabar com Ulysse, Nova e o filho dos dois e, do outro, uma trama de Cornelius e Zira para salvar os três humanos.

Os chimpanzés acabam triunfando e, usando um foguete para colocar um satélite no espaço, conseguem contrabandear Ulysse, Nova e Sirius (o filho dos dois) de volta para a nave que havia ficado em órbita de Soror. Os três partem em direção à Terra e, ao chegar, pousam no aeroporto de Orly e, para o horror de Ulysse, descobrem que a Terra havia sido dominada por macacos.

O final acima, igual até certo ponto ao do filme de 2001, de Tim Burton, nos deixa coçando a cabeça, mas poderia ser explicado pela evolução dos símios do futuro ao longo de mais centenas e centenas de anos, eles dominarem então a viagem interplanetária e a viagem no tempo, voltarem para milênios antes para a Terra, na aurora do tempo, e dominado nosso planeta desde o começo. Boulle não explica, só deixa para a especulação é essa é a minha versão para o que ele quis fazer.

Mas o autor não parou nesse final surpresa. Ele revela finalmente, bem nos últimos parágrafos da obra, que Jinn e Phyllis, que estavam lendo o relato de Ulysse, são, na verdade, dois chimpanzés altamente evoluídos e que esnobam o texto que acabaram de ler como mera ficção já que é impossível um ser humano pensar. Fim do livro.

Fim dos SPOILERS

A leitura do livro de Boulle é altamente recomendada aos fãs de ficção científica em geral e aos amantes da mitologia dos macacos em particular. É uma leitura fácil, gostosa mesmo, que flui rapidamente. O mais importante, porém, é que, mesmo tendo visto todos os filmes sobre a mitologia, o livro surpreende e nos deixa desesperados para virar a página e saber o que vai acontecer. Não dá para largar o trabalho do autor, que tem capítulos curtos, até seu surpreendente final (ou finais). Para os fãs dos macacos, o livro dá uma nova perspectiva às histórias e mostra de maneira ainda mais clara como foram bem feitas as adaptações de 1968 e também, porque não, a de 2001 e as mais recentes, a partir de 2011.

Versão original publicada em 23 de agosto de 2011 fora do Plano Crítico. Publicada pelo pela primeira vez no Plano Crítico, em versão completamente revisada, 12 de julho de 2014.

O Planeta dos Macacos (La Planète des Singes, França – 1963)
Autor: Pierre Boulle
Editora (na França): Pocket France
Editora (no Brasil): Editora Aleph
Tradução: André Telles
Páginas: 216

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13 comentários

Planetas dos Macacos (1968) – Cultura Projetada 19 de julho de 2019 - 08:09

[…] J. SchaffnerRoteiro: Michael Wilson, Rod Serling (baseado em romance de Pierre Boulle)Elenco: Charlton Heston, Roddy McDowall, Kim Hunter, Maurice Evans, James […]

Responder
JJL_ aranha superior 26 de setembro de 2017 - 23:46

O que eu interpretei, me avisem caso esteja errado, é que os símios aperfeiçoaram suas naves, baseados no veículo que havia ficado no planeta, conseguindo viajar no espaço em um tempo menor, podendo dominar a terra antes da chegada do ulysse. Ou os macacacos evoluíram na terra também

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planocritico 27 de setembro de 2017 - 20:07

Essa é uma forma de interpretar. Não está errado não!

Abs,
Ritter.

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JJL_ aranha superior 27 de setembro de 2017 - 21:44

É que, nesse caso, eu gosto de algo mais concreto, tipo, eu não lembro de no livro terem apresentado o portal de viagem do filme do burton.

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planocritico 29 de setembro de 2017 - 20:54

Não tem um portal propriamente dito não. O livro de Boulle não entra em detalhes.

Abs,
Ritter.

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cristian 18 de agosto de 2017 - 16:12

Gostei do livro no geral. Acho que o final é o que desperta mais a nossa curiosidade em “decifrar” o que aconteceu na Terra. Eu particularmente, acho que ocorreu o mesmo que em Betelgeuse, os humanos naturalmente foram superados pelos macacos, uma resposta muito mais alinhada com o pensamento antropológico do livro. Agora não acho que seja um livro espetacular, longe disso, seja pela escrita, seja por alguns personagens semi desenvolvidos e pela própria questão filosófica proposta que não chega a ser tão profundamente retratada e pelo comparativo que este livro esteja no mesmo nível de outros muito mais merecedores.

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planocritico 19 de agosto de 2017 - 22:29

@disqus_3giNDWryIu:disqus , eu gosto muito da simplicidade de Boulle. Ele foca na humanidade e na crítica social e não se afunda em conceitos tipicamente sci-fi, criando uma história rica, mas sem os exageros pseudo-científicos do gênero. Ele, para mim, fez mais com menos.

Abs,
Ritter.

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Alessandro Dias 27 de março de 2015 - 13:10

Finalmente li o livro! Infelizmente, devido a minha “fome” em relação a qualquer coisa sobre “Planeta dos Macacos”, já conhecia o final (finais) do mesmo. Porém, isso em nada atrapalhou essa experiência que foi enormemente prazerosa e instigante do início ao fim. Claro que, sendo curioso como sou, senti falta de algumas explicações durante os acontecimentos, mas sei também que a maioria dessas se estivesse lá, faria perder muito do fator surpresa arrebatador, que em tantos níveis está presente nessa obra! Mas algumas poucas explicações poderiam estar tranquilamente lá, por exemplo, como o brilhante cientista responsável pela viagem até Soror regrediu de forma tão rápida e chocante para um estado bestial? Obviamente, para quem viu o filme (1968), o exemplo do companheiro de Taylor que sofre uma lobotomia, caberia muito bem no personagem do livro, mas esse detalhe acaba passando. Se bem que, o autor do livro conseguiu tantas proezas nesse sentido de explicações durante toda a jornada, e com tanta fluidez que, minhas observações acabam soando como injustiça. Pierre Boulle merece todas as congratulações!

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planocritico 28 de março de 2015 - 04:33

@alessandro_dias:disqus, que bom que você gostou! É mesmo uma baita história com dois finais surpresa muito bacanas.

Particularmente, gosto das poucas explicações de Boulle. Ele faz um texto menos científico e mais filosófico, com muita crítica social e foi isso que me chamou mais atenção. Nada de “technobabble”, só uma narração original, fácil de ler, mas que dá o que pensar e que pode gerar muita discussão interessante.

Abs,
Ritter.

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Alessandro Dias 28 de março de 2015 - 13:20

Realmente, olhando por esse lado, ouso dizer que o livro é perfeito. É uma infinidade de situações que levam o leitor a refletir profundamente, e todos com riqueza de detalhes.

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planocritico 29 de março de 2015 - 04:13

@alessandro_dias:disqus, sim, o livro faz pensar e é fascinante como ele gerou tantas obras interessantes do Universo Símio por décadas a fio.

Abs,
Ritter.

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Ricardo Correa 13 de julho de 2014 - 23:00

Eu já postei alguns comentários sobre Kubrick e Deus meu : nunca soube como as duas ficções científicas de maior apelo pscicológico que eu já vira ( as implicações imorais destas tramas são ainda mais relevantes que seu puro entretenimento – e curiosamente um campo nunca fere ou atrapalha o outro ) puderam ser concebidos no mesmo ano …Ah e claro : a apoteótica introdução de 2001 caberia de maneira espetacular em qualquer filme sobre qualquer planeta de macacos óbvio. Mas o que sempre estas jóias mais me evidenciaram foram suas duras críticas ao modus operandi do ambíguo ser humano…

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planocritico 15 de julho de 2014 - 00:43

Nem tinha me tocado da coincidência do ano! Realmente, você tem razão. Abs, Ritter.

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