Crítica | O Poder da Sedução

Depois de Instinto Selvagem, a ordem do dia no cinema estadunidense era o investimento em tramas sobre mulheres fatais e perigosas, algo que ocupa a pauta da história narrativa da humanidade desde os tempos bíblicos. Todas, herdeiras de Eva, a pecadora original: Madonna em Corpo em Evidência, Glenn Close em Atração Fatal, Jamie Lee Curtis em Paixão Assassina. O painel é variado e na primeira metade dos anos 1990, a morena Linda Fiorentino interpretou duas dessas criaturas destinadas a gozar vigorosamente da vida, tendo os homens aos seus pés. Ela foi Jade, suspeita de assassinatos no filme de William Friedkin e Bridget, personagem da produção que compõe a análise em questão, isto é, O Poder da Sedução, ambas perigosas e mortais.

Responsáveis por uma trilha de crimes e desordens diante das pessoas e suas existências comuns e tradicionais, as personagens interpretadas por Fiorentino circularam por filmes visualmente interessantes, mas exageradamente “fatais”, o que não vejo como um problema, pois a sua versão mortal em O Poder da Sedução segue mais uma linha humorada, irônica, sem abandonar os elementos que a própria narrativa transforma, tendo em vista atender às demandas do enredo. Mulheres fatais, sabemos, existem há eras no cinema, desde o estabelecimento do noir como um padrão posterior ao advento da Segunda Guerra Mundial, subtexto para o patriarcado castrado e toda a reconstrução dos papeis sociais entre homens e mulheres.

No entanto, ela é diferente de alguns personagens maléficas, interessadas até mesmo em assassinato quando o lance é faturar alguns trocados em cima da miséria alheia, sem culpabilidade, remorso ou os comuns traumas do passado para justificar as suas escolhas desonestas. Bridget Gregory (Linda Fiorentino) é burlesca, mas fascinante. Sob a direção de John Dahl, acompanhamos, ao longo de 110 minutos, a transformação do roteiro de Steve Barancik num filme de atitudes e decisões tenebrosas, mas adornado por muito senso de humor e “certa leveza”, haja vista o domínio da ironia do texto, da direção e do desempenho do elenco em ação.

Aparentemente inspirada na personagem de Sharon Stone, a trama nos apresenta uma mulher inescrupulosa, de postura forte, decidida e prepotente, dona de si e ciente de seu potencial num mundo ainda regido por muitas regras patriarcais, todas colocadas no chinelo quando o assunto é a perigosa Bridget. Ela eleva o arquétipo da mulher fatal aos extremos, transformando, tal como uma curiosa crítica expõe sobre o filme, as personagens de Pacto de Sangue e Corpos Ardentes, cinema noir por excelência, em meras figuras encantadas da Disney. Ela não é loira, mas é fatal, fria, age de maneira calculista e abusiva, dialoga e fala sobre sexo de maneira aberta e desinibida, além de se tornar capaz de cometer assassinatos quando obstáculos são postos em seu caminho.

Para a “América” conservadora da época, aliás, de sempre, Bridget Gregory é o símbolo da impureza e do fruto proibido, a própria versão contemporânea da serpente do paraíso. Esposa de Clay (Bill Pullman), um médico de carreira decadente que ganha a vida a vender receitas para viciados, Gregory trabalha numa empresa e comanda seus funcionários de maneira firme, impondo-se de maneira que todos a respeitam em seu cargo. Essa é uma dimensão de pouca interação, pois logo mais vamos observar os desdobramentos de uma ação planejada com o seu marido. Ela o convence a roubar drogas de um hospital e com o dinheiro, algo em torno de U$700 mil dólares, o casal pretende viver de maneira tranquila e respirar os privilégios de quem tem grana. O problema é que ela já havia planejado dar uma de Marion Crane e fugir com o valor, algo que deixa o seu esposo à mercê dos agiotas e outros credores.

Refugiada em Beston, região interiorana, ela precisa ter cuidado para não ser descoberta por meio dos rastreamentos de ligações realizadas para seus contatos importantes em Nova Iorque. Sob as lentes perseguidoras, mas falhas, Clay organiza uma caça sem sucesso, pois ela consegue driblar os detetives colocados em sua trajetória. O primeiro, por sinal, protagoniza uma discussão racial bem contundente. Captada pelo personagem, ela segue o seu caminho num diálogo sobre o pênis do detetive, algo que mexe com a sua curiosidade, pois nunca tinha comprovado a fama dos negros e seus pênis enormes. Objetificação pura, numa cena que mescla humor e horror, pois os homens comprovam a sua ineficácia diante da chantagem de uma vagina pulsante, mas perigosa, a promover a tentação que o levará ao “pecado”.

Do noir, O Poder da Sedução resgata o detetive burro e despreparado, ironicamente colocado para nos divertir. A sua próxima vítima, cabe ressaltar, antes do tal detetive negro, é o abobalhado Mike (Peter Berg), jovem viril que segue a cartilha do estereótipo “caipira”, outro preconceito social trabalhado no filme. O rapaz atua numa empresa durante o dia e passa as noites num bar, na companhia de outros homens casados e solteiros, todos a beber e jogar sinuca. Em sua primeira parada, Bridget adentra este espaço e pede uma bebida, mas é ignorada pelo barman, provavelmente irritado por sua arrogância ao pedir um “Manhattan”, drinque pouco comum no local. Auxiliada por Mike, ela consegue a sua bebida, mas após ser salva do atendimento ruim, não consegue ninguém que a ajude a driblar o assédio de Mike, interessado em sua presença vibrante.

Ela testa o jovem numa situação constrangedora. Pede para ver o seu “pau”, mexe em suas calças em público, cheira os dedos para testar a higiene e chama o jovem para transar em sua casa. No local, bebe, fuma, alimenta-se e parte, sem dar satisfação ao rapaz que acreditava na moça como uma possível chance de relacionamento, já que ele, descobriremos numa virada final extremamente divertida, possui um problema em seu passado, oriundo do casamento apressado e frustrado. Adiante, ela consegue um emprego na cidade, torna-se gerente, muda o nome, continua a se encontrar com o rapaz e até mesmo o alicia para o seu passo derradeiro: o assassinato de seu marido, alguém que ainda atrapalha os seus planos.

Bem na linha noir, ela consegue organizar as coisas ao seu modo, numa tentativa de sair ilesa de tudo. E consegue. Mas algumas reviravoltas não permitirão que as coisas aconteçam de acordo com o planejado, para o melhor e o pior dentro de suas expectativas. Bridget quer dinheiro, conforto, viver bem e sem preocupações. Ela é desonesta porque simplesmente é, sem explicações sociológicas ou psicodramáticas que delineiem o seu perfil, tendo como proposta nos fazer compreender as suas ações. A garota simplesmente “não presta”, está em sua “natureza”.  Amoral, ela se diverte com as próprias ações inescrupulosas, captadas pela ótima direção de fotografia de Jeffrey Jur, imagens acompanhadas pela condução sonora de Joseph Vitarelli.

Os espaços também são trabalhados de maneira que favorecem a experiência imersiva. O design de produção de Linda Pearl, eficiente, traz Terry Dresbach nos figurinos, conjunto de vestimentas aliadas ao trabalho da maquiagem e cabelo que tornam Linda Fiorentino uma personagem digna de colocar os sentimentos masculinos no chinelo. Ela, como dito, vai do casual ao executivo, com trajes entre escuros, joias, saltos, toda indumentária para justificar a sua postura de mulher sedutora. Numa de suas tramoias, ela entra em contato com um grupo de mulheres que sofrem abuso de seus maridos. A ideia é orientar a mata-los e ganhar uma comissão com o dinheiro do seguro. Já pensou? Por fim, achei curioso o ponto de vista de um determinado crítico, ao alegar que na época, a produção parecia uma vingança contra o Código Hays, responsável por impedir muitos clássicos de exibirem cenas consideradas impróprias para as plateias estadunidenses. Confesso que a alegoria é interessante, delineada por uma lógica repleta de lucidez.

O Poder da Sedução (The Last Seduction/Estados Unidos, 1994)
Direção: John Dahl
Roteiro: Steve Barancik
Elenco: Linda Fiorentino, Bill Pullman, Michael Raysses, Peter Berg, Dean Norris, Brien Varady, Dean Norris, Donna W. Scott, Mik Scriba, Bill Nunn, J.T. Walsh
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.