Crítica | O Poder de Shazam! (1994)

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Aqui temos, enfim, a versão final (a terceira!) que se manteria como base da origem de Shazam após a Crise nas Infinitas Terras, mudando seus meios narrativos apenas em futuras ocasiões de crises no Universo DC, e não mais por conta de simples abandono da narrativa pela própria editora, como vimos anteriormente em A Origem Secreta de Shazam (1986) e em Shazam: O Novo Começo (1987). E a escolha para usar esta versão como base tem um motivo muito bom, que além da grande qualidade da história, consegue colocar com muito cuidado os principais elementos em torno da mitologia da Família Marvel e do Universo mágico e vilanesco da antiga Terra-S.

Escrito, desenhado e colorido por Jerry OrdwayO Poder de Shazam! — que também seria o título solo do personagem, que começaria um ano depois e duraria por 47 edições mensais com duas especiais criadas em diferentes ocasiões — é ao mesmo tempo um trabalho de nostalgia, homenagem e respeito aos personagens criados por Bill ParkerC.C. Beck na Whiz Comics #2 e ao longo de toda a jornada do antigo Capitão Marvel e sua família e agregados na Fawcett Publications. Ao pensar em como seria possível elencar todo esse material de uma forma coesa e pertinente para esse novo mundo, Ordway optou pelo serviço mais arriscado, porém, mais interessante: começar diretamente no seio mitológico que traria os poderes de Shazam e Adão Negro à tona.

À primeira vista até pode parecer um caminho mais fácil, mas o autor precisaria ter aqui um enorme cuidado para não desperdiçar munição em torno do cânone egípcio, do Mago e da própria saga dos antigos deuses e suas palavras ou artefatos mágicos. E Ordway tem esse cuidado. Ele nos traz inicialmente a exploração do Templo de Ramsés II (Abu Simbel), no melhor estilo dos clássicos filmes de múmia, e em vez de partir daí para a apresentação majoritária do Universo de Shazam, ele fundamenta todo o passado de Billy Batson (evitando flashbacks rápidos e insossos), refinando a personalidade de Teth-Adam e familiarizando o leitor com as facetas possíveis dessa mitologia, já brincando com o uso de palavras mágicas e a liberação de energia em algumas ocasiões. A tragédia em torno dos pais de Billy (Clarence Charles “C.C.” Batson V e Marilyn Batson) e o desmembramento de sua família justamente no ponto em que eles encontram a magia que em pouco tempo mudaria o garoto e o mundo já é uma escolha forte para começar.

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Diferentes espaços (e tempo) onde os Batson encontram-se com a magia de Shazam…

No corte para o presente e o desenvolvimento da vida cotidiana de Billy + as consequências da morte dos Batson no Egito são vistos de maneira realista e com o tratamento trágico, típico dos heróis cuja motivação para abraçar a causa de ser um dos salvadores da humanidade é uma grande perda. Gosto muitíssimo do desenvolvimento do Dr. Silvana e da forma como a clássica missão de boicote à WHIZ Broadcasting Station é inserida nessa história com a maior organicidade, algo impressionante justamente porque ocorre em um momento em que Billy ainda não está acostumado com os poderes do Mago e mesmo assim precisa lutar pela própria vida e pela permanência da rádio. Aí o leitor já havia visto a excelente recriação da ida de Billy até a Pedra da Eternidade (onde sua atitude após ganhar os poderes é uma das duas coisas de que não gosto nessa graphic novel) e no momento de luta no prédio da rádio, o complemento para o primeiro uso do poder de Shazam pelo garoto é realizado. E de modo a ser aplaudido!

Como a arte de Jerry Ordway é grandiosa, com personagens de rostos e forma física que nos passam uma confiança ou medo inacreditáveis, já temos o fator visual a favor da trama, o que é muito importante para uma saga que mistura fantasia e realismo, comédia e tragédia como a que temos aqui. Então é com prazer que vemos Billy pela primeira vez usar seus poderes, numa luta que se arrasta por diferentes lugares do prédio da rádio — e este é um padrão excelente da arte dessa revista, sempre expandindo ao máximo o espaço de luta, inclusive brincando com a falta de cuidado de Shazam nesse início de uso dos poderes, constantemente quebrando coisas que não deveria e olhando desconfiado e meio ressentido para o cenário.

O Poder de Shazam! é uma calorosa história de origem. Presta as devidas homenagens aos clássicos do personagem e cria uma sólida premissa para que as aventuras do herói sejam expandidas a partir daqui… Exceto pelo já comentado momento negativo, quando o personagem tem a sua primeira transformação ainda na Pedra da Eternidade, adiciono a cena final com o Mago à lista dos dois únicos pontos dessa história de que não gostei. Fora eles, a leitura dessa aventura de origem é um verdadeiro deleite para os fãs de Shazam ou de qualquer trama bem escrita e desenhada que reintroduz, de maneira bastante competente, um personagem icônico de uma grade editora.

The Power of Shazam! (Graphic Novel) — EUA, março de 1994
Roteiro: Jerry Ordway
Arte: Jerry Ordway
Arte-final: Jerry Ordway
Cores: Jerry Ordway
Letras: John Costanza
Capa: Jerry Ordway
Editoria: Mike Carlin
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.