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Crítica | O Poderoso Chefão, de Mario Puzo

por Ritter Fan
3.520 (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers do romance e dos filmes.

Um dos meus mais resistentes tabus literários era a leitura de livros que serviram de base para filmes e/ou séries depois que eu já os havia assistido. Ou eu lia antes de assistir ou não lia mais. No entanto, com a idade e, em tese (muito em tese), a sabedoria, fui também relaxando essa regra e, hoje, já não me preocupo muito sobre essa questão. E foi por isso que acabei, finalmente, depois de décadas e décadas de relutância, lendo O Poderoso Chefão, romance de Mario Puzo originalmente lançado em 1969 que, como todo mundo sabe, serviu de base direta ao filme homônimo e sua continuação, ambos por Francis Ford Coppola e ambos normalmente considerados obras-primas e invariavelmente presentes nas listas de melhores de quase todo mundo.

Enquanto eu não posso dizer que foi um erro finalmente mergulhar na obra base que é o primeiro livro de sucesso de Puzo, vale dizer, tenho que reconhecer logo de início que foi simplesmente impossível afastar-me mentalmente dos filmes ou mesmo desassociar a presente crítica deles. Os dois primeiros O Poderoso Chefão fazem parte de minha “formação” como cinéfilo e são duas das obras cinematográficas que mais assisti e mais li sobre em minha vida, e que mais analisei, pelo que não havia como eu me desvencilhar da construção imagética que Coppola brilhantemente colocou nas telonas.

E olha que eu fiz todo o esforço possível. Nesse processo, apenas tive mais certeza ainda da qualidade das adaptações cinematográficas feitas pelo próprio Puzo em notória colaboração com Coppola que deram origem a dois roteiros intocáveis e que, sim, já para lidar com a pergunta que muita gente fará, são melhores do que o romance que lhes deu origem, ainda que eu não goste de comparar categoricamente obras de mídias diferentes. No entanto, depois da leitura do livro, ficou claro que O Poderoso Chefão, de 1972, e O Poderoso Chefão II, de 1974, são versões mais apuradas, mais enxutas e mais significativas do material base, resultado de um extenso e detalhado trabalho da dupla que magnificamente depurou um romance que já era muito bom, mas que se tornou sem falhas no audiovisual.

Como antes de começar a escrever a presente crítica eu já havia jogado a toalha em relação à minha capacidade de separar uma coisa da outra, deixe-me logo afirmar que os problemas que detectei no romance de Puzo estão quase que integralmente adstritos ao que não está nos filmes, ou seja, aquilo que o próprio autor e o cineasta deixaram de fora na transposição para os roteiros é o que impede o romance de ser a obra-prima que poderia ter sido. Estou sendo influenciado pelo quanto os filmes me afetaram?  Com certeza. Mas simplesmente não tenho escolha e acho que meus argumentos para justificar a afirmação anterior são pelo menos justos, ainda que muitos possam não concordar.

Mario Puzo usa uma “voz” muito característica em O Poderoso Chefão, emprestando uma sofisticação brega que emula o recorte da sociedade que ele cria, aquela dos chefes ocultos da cidade de Nova York inspirados nas míticas – mas verdadeiras – cinco famílias que comandaram a Costa Leste dos EUA, com tentáculos por todos o país, por décadas e décadas a fio (quem quiser saber mais sobre elas, sugiro a leitura de O Irlandês). Sem usar nomes verdadeiros para evitar complicações pessoais e focando na família Corleone, o autor quase que literalmente cria o mito moderno da Máfia – ou, mais corretamente, Cosa Nostra – formada por descendentes italianos, na maioria dos casos sicilianos radicados nos EUA a partir do final do século XIX e começo do século XX. Digo que ele criou o “mito moderno da Máfia” porque seu trabalho, muito longe de ser realista, pois Puzo não mergulhou em estudos sobre a matéria como ele próprio admitiu, empresta um verniz de nobreza aos personagens e à organização, como um enorme conjunto de “Robin Hoods” que ajudavam a manter sua comunidade unida e feliz por meio de ilegalidades que viviam nas rachaduras da estrutura de uma cidade grande, com códigos de conduta inquebrantáveis e influência em todos os escalões da sociedade.

Nesse contexto de família, O Poderoso Chefão lida eminentemente com sucessão, com a passagem de bastão do patriarca e fundador da família Corleone, Don Vito Corleone, para seu filho mais novo Michael Corleone, ironicamente o único da família que nunca quis se envolver em negócios escusos, permanecendo, até seu retorno da Segunda Guerra Mundial, como um americano seguidor de regras. O “padrinho” do título original, The Godfather, é uma referência dupla tanto ao pai, quanto ao filho, mas o romance é eminentemente sobre o filho, sobre seu amadurecimento, sobre a descoberta do quão inevitável é seu enredamento na famiglia que sempre manteve à distância, inclusive namorando Kay Adams, mulher americana completamente sem antepassados italianos, uma heresia em todos os sentidos e, finalmente, sobre sua transformação no que era o pai ou pelo menos em uma versão do pai.

Essa jornada é fascinante é tem como catalisador a entrada de um novo jogador na estrutura criminosa da cidade, o altamente inteligente e maquiavélico Virgil “O Turco” Sollozzo que deseja criar um império de drogas com a necessária ajuda de Don Corleone – o pai – que, por seu turno, não deseja se envolver com esse tipo de negócio criminoso, levando-o a sofrer um atentado. Não abordarei os detalhes da trama aqui, pois parto do razoável pressuposto que o leitor pelo menos assistiu os dois primeiros filmes, bastando dizer que seus roteiros absorvem essencialmente tudo do romance, com o primeiro filme estando integralmente contido nele e o segundo tendo sua parte sobre o passado de Vito Corleone (antes Andolini) também quase que completamente no romance.

O que realmente interessa para a presente crítica é como Puzo constrói seus personagens de maneira exemplar, especialmente Vito e Michael Corleone, com Santino (ou Sonny), o irmão mais velho e Tom Hagen, o irmão adotivo e consigliere da família, vindo logo atrás, seguidos de perto de uma constelação de pessoas que emprestam ar de verossimilhança narrativa que faz parecer que o autor viveu nesse meio. Essa é a mágica de Puzo. Ele cria um universo galgado na realidade, só que não é verdadeiramente real, mas que, muito em razão dos filmes, claro, “tornou-se” a realidade da Cosa Nostra na percepção popular. É um triunfo como o escritor, mesmo, em razão da trama, sendo obrigado a afastar Michael da história principal, mantém seu protagonista vivo e ativo sem que ele precise ser abordado diretamente. Com a narrativa em terceira pessoa onisciente, ele escreve de maneira a criar uma teia pulsante de pequenos arcos que se interpenetram de maneira muito eficiente, com sua “voz” mafiosa tornando fácil a leitura.

Essa voz, inclusive, funciona para legitimar as sequências mais “fracas” do romance, basicamente todas as que lidam com sexo. Usei as aspas aqui para sublinhar que essa fraqueza não é o problema do livro, já que ela combina com a forma como Puzo narra a história, ou seja, sob o ponto de vista essencialmente masculino de um recorte da sociedade machista ítalo-americana. Ou seja, o ato de fazer sexo é algo que poderia ser facilmente encontrado em folhetins eróticos ou naqueles livros publicados em papel jornal e vendido por quase nada em bancas de jornal. É algo grosso, sem aparo nas arestas, mas que conversa muito bem com a forma como essa Máfia pseudo-sofisticada se comporta em sua história.

Mas eu salientei a forma como o autor escreve o sexo para justamente chegar nos problemas do romance. Quando Puzo sai do núcleo da Costa Leste da família Corleone e investe em personagens coadjuvantes da Costa Oeste, mais precisamente de Los Angeles e Las Vegas, o livro perde seu ritmo e aborda com profundidade determinados assuntos que não deságuam em lugar algum. O exemplo mais saliente disso é como a vida do cantor em decadência Johnny Fontane, afilhado de Don Corleone que pede ajuda a seu padrinho para conseguir papel em um filme resultando na memorável subtrama da cabeça do cavalo que ilustra a presente crítica. No romance, diferente do filme, Puzo insiste no personagem, criando uma longa e tediosa trama paralela que é completamente autocontida e autossuficiente lidando com a vida de Fontane antes e depois do referido papel, em que aprendemos em detalhes sobre o amor que ainda sente por sua primeira esposa e as filhas que têm com ela, o ódio que sente pela segunda e a reconstrução de sua carreira de cantor. O leitor espera que essa narrativa, que consome diversos capítulos, converse com a história maior, mas a grande verdade é que ela no máximo resvala na de Lucy Mancini, amante de Sonny que, depois de sua morte, é enviada para Las Vegas.

E Lucy é justamente a segunda subtrama problemática no romance. O leitor aprende muito sobre a jovem, sobre sua relação hesitante com um médico que teve sua carreira arruinada por fazer abortos e sobre uma condição médica que tem. Novamente, espera-se alguma conexão maior com a trama principal, mas ela nunca vem e nunca verdadeiramente desabrocha. Se Johnny Fontane pelo menos leva à citada trama da cabeça do cavalo na cama do produtor cinematográfico que o odeia, o que por sua vez serve para mostrar o poder do Padrinho, Lucy não tem função narrativa alguma que não seja anedotária para mostrar que Sonny, filho mais velho de Don Corleone, é mulherengo, algo estabelecido logo no começo da história, no capítulo dedicado ao casamento de Constanzia “Connie” Corleone. Saber mais sobre Lucy é 100% desnecessário, especialmente porque Puzo em momento algum consegue fazer a história dela tangenciar com significado a trama principal.

Menos problemática – mas ainda assim problemática – é a forma como Puzo lida com a “queda” de Michael Corleone. Não satisfeito em deixar as ações e sacrifícios do personagem em defesa da família falarem por si mesmos, o autor faz questão de criar um simbolismo visual para ele, fazendo com que o espancamento que ele recebe do Capitão McCluskey, policial no bolso de Sollozzo, seja perpetuado, deixando Michael marcado por quase toda a duração do romance. Em outras palavras, não só o protagonista torna-se um metafórico monstro, como também um literal homem deformado que precisa secar a saliva que pinga descontroladamente de sua boca. Puzo, portanto, reitera o que ele mesmo já havia deixado brilhantemente óbvio, criando um bis in idem que, na prática, não acrescenta nada à história, até porque essa condição é magicamente revertida quando ela não se faz mais necessária (como se tivesse sido em algum momento).

Mesmo com seus problemas, o romance definitivo para a formação do imaginário popular sobre a Máfia ítalo-americana é uma leitura fascinante. Puzo constrói um universo enérgico, rico e vasto cuja trama principal ele desenvolve com maestria e fluidez e com personagens inesquecíveis. Tenho certeza que será no mínimo muito difícil separar livro de filme, mas O Poderoso Chefão é, inegavelmente, uma oferta que ninguém deveria recusar.

O Poderoso Chefão (The Godfather – EUA, 1969)
Autor: Mario Puzo
Editora original: G. P. Putnam’s Sons
Data original de publicação: 10 de março de 1969
Editora no Brasil: Editora Record
Data de publicação no Brasil: 11 de julho de 2012
Tradução: Carlos Nayfeld
Páginas: 610 (versão americana comemorativa de 50 anos, que foi a lida pelo autor da crítica)

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