Crítica | O Preço da Traição

As adaptações culturais de nomes de filmes geralmente são muito criticadas quando as produções estreiam aqui no Brasil. The Blind Side é conhecido por Um Sonho Possível, The Hangover no Brasil é Se Beber, Não Case e The Sound of Music é A Noviça Rebelde. Títulos questionáveis que demonstram mudanças bruscas numa tentativa de adequação comercial, tal como O Preço da Traição, originalmente Chloe. Neste caso, entretanto, a adaptação cultural consegue se adequar bem. Primeiro porque depois que o filme acaba não nos importamos muito, pois a qualidade da produção é bastante irregular, além disso, o título brasileiro consegue dar conta da reflexão moralista deste suspense anticlimático, afinal, no desfecho a lição óbvia é “há um alto preço para os traidores”.

Creio ser impossível não associar este tipo de narrativa com dois pontos altos do suspense hollywoodiano entre o final dos anos 1980 e o começo da década de 1990: Atração Fatal e Instinto Selvagem. Ambas as produções traziam os riscos do sexo numa era pós-AIDS, além de flertar com jogos psicológicos e personagens envolvidos em jogos perigosos. Em O Preço da Traição, a discussão acerca da infidelidade sob um ponto de vista moralista demarca o destino dos personagens ao passo que a narrativa avança. A sensação, para os que conhecem outros filmes da temática, é a de que estamos diante de uma trama que processa todos os clichês possíveis do subgênero “mulheres obcecadas”.

Em pleno século XXI, após perfis tão intrigantes, haja vista os desempenhos de Glenn Close e Sharon Stone, a “pequena vadia” interpretada por Amanda Seyfried faz o possível para dar dignidade ao filme que leva o seu nome, mas a falta de identidade própria torna a trama mais uma tentativa frustrada de emular o clima de tensão dos filmes citados anteriormente. Dirigido por Atom Egoyan, as imagens de O Preço da Traição funcionariam bem como material publicitário para lingerie, ou então, como videoclipe de qualquer cantora pop genérica contemporânea que tenta resgatar o legado erótico de Madonna nos anos 1990. No entanto, o que temos é um filme e diante disso, precisamos analisar as suas estratégias narrativas. Vamos nessa?

Catherine (Julianne Moore) é uma ginecologista que desconfia da fidelidade do seu marido David (Liam Neeson), um professor que há tempos não cumpre algumas “tarefas maritais”. Distante e frio, ele não se dá conta do problema que vai se estabelecer quando a sua esposa contrata a prostituta Chloe (Amanda Seyfriend) para seduzi-lo. Doentia e carente, a jovem prestadora de serviços sexuais vai reverter o jogo e começar a chantagear Catherine, o que culmina em toda a perseguição do filme, repleto de reviravoltas e decisões absurdas. A antagonista até consegue despertar o lesbianismo da “boa esposa”, tudo em prol do seu desejo de controle e alimentação de suas obsessões. Para quem já conhece os mecanismos que engendram as narrativas desta linhagem, sabe que é preciso ser muito bom para conseguir extrair algo de relevante neste argumento exaustivamente explorado pela indústria nas ultimas décadas.

Primeiro, o cineasta Atom Egoyan não consegue fazer muito com o roteiro ruim assinado ela dupla formada por Joe Eszterhas e Erin Cressida Wilson.   Ao longo dos 99 minutos de filme, o profissional enquadra bem as suas atrizes, mas os diálogos ruins exigem muito pouco do elenco que faz bastante esforço para dar o mínimo de dignidade ao que assistimos. Os envolvidos assinaram os roteiros de A Secretária (mediano) e A Pele (questionável), mas com O Preço da Traição descem alguns degraus abaixo no padrão de qualidade.

Em meio ao confuso emaranhado de imagens há a inclusão de Michael (Max Thieriot), filho problemático do casal, personagem mal explicado que ao tentar trazer mais complexidade para a narrativa, acaba por revelar a sua fragilidade. Sem desapegar de nenhum clichê, o filme se apoia num argumento batido para uma história que já foi contada em grandes e pequenas produções hollywoodianas ao longo dos últimos quarenta anos. A questão não é utilizar o clichê para contar a história, mas a forma como se conta. Até as referências são subaproveitadas: repare no picador de gelo e na montagem que, ao criar simbiose entre determinados pontos da fotografia e do som, emula alguns elementos do cinema noir. Se você pensou em Instinto Selvagem, creia, acertou, mas as estratégias metalinguísticas falham por completo. Inspirado no canadense Nathalie X, esta versão estadunidense deixa de lado a paranoia e a sensação de desconfiança para focar em erotismo barato e numa obsessão vulgar, como já dito, temas tratados constantemente pelo cinema mega-ultra-hiper comercial.

O Preço da Traição — (Chloe) Estados Unidos, 2009.
Direção: Atom Egoyan
Roteiro:  Erin Cressida Wilson
Elenco:  Amanda Seyfried, Arlene Duncan, Julianne Moore, Julie Khaner, Kathy Maloney, Laura DeCarteret, Liam Neeson, Max Thieriot, Meghan Heffern, Mishu Vellani, Natalie Lisinska, Nina Dobrev, R.H. Thomson, Rosalba Martinni, Tiffany Lyndall-Knight
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.