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Crítica | O Preço do Perdão (Ndeysaan)

por Luiz Santiago
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Em O Preço do Perdão (Ndeysaan), o diretor Mansour Sora Wade mescla elementos da mitologia senegalesa com um conto de amor moderno, que se passa em uma vila onde dois homens apaixonam-se pela mesma mulher. Adaptação da obra de Mbissane Ngom, o filme assume desde o início o seu tom de parcial fantasia, narrativa que nos é passada através do olhar de um homem já velho, que lembra-se dos eventos que aconteceram em sua infância, partindo de um ponto muito peculiar: o momento em que a região costeira dessa vila ficou imersa por dias em uma névoa.

O roteiro não permite que a narração interfira negativamente no desenvolvimento do filme, já que essas memórias servem apenas como costura para toda a trama e ajudam a ressaltar a ideia da passagem do tempo, mostrando vidas que se foram, sofrimentos e alegrias que passaram por aquelas areias e os mistérios que as águas do mar guardavam para os bons e os maus homens. Esse julgamento ético-moral, inclusive, também aparece aqui revestido de uma aura fabular, sendo cada ato julgado por uma força, por um Deus que irá cobrar, em algum momento, o mau ato cometido. Mesmo fora da cultura senegalesa podemos facilmente entender esse tipo de pensamento, mas aqui o processo de “pagamento de um pecado” recebe uma figuração bem distinta, igualmente tratada pelo diretor como fábula.

É interessante observar que os dois homens que ‘se enfrentam’ aqui possuem uma ligação direta com o mar. Ambos são pescadores e seguem levados pelas ondas da vida para um estágio diferente; um para o mundo dos ancestrais e outro para a maturidade e o sofrimento causado pela vinda de um perdão. Apesar de terem temperamento distinto e agirem de formas distintas, esses homens parecem ligados por uma força maior, e um empurra o outro para uma fase diferente, uma nova realidade. O melhor de tudo é que o roteiro não se fixa apenas nesse caminho de “crime e castigo“, ao contrário, desenvolve bem demais os seus personagens para que outros aspectos de suas vidas sejam considerados e tenham o devido peso ao longo da narrativa.

O círculo de adequações e mudanças propostas pelo diretor aqui em O Preço do Perdão é completado por um conflito curioso no coração do filho do griô da vila. Ele quer ser pescador, mas tem diante de si a responsabilidade de seguir a carreira do pai. Isso é deixado mais ou menos em aberto, mas há um fio de ironia aí (e talvez seja mesmo a resposta sobre o seu destino) já que quem narra esses acontecimentos é justamente esse garoto, em sua velhice, lembrando-se dos tempos onde uma névoa que durou dias mudou o destino de algumas pessoas naquele povoado costeiro.

Mansour Sora Wade explora com grande beleza os papéis simbólicos neste filme, primeiro através dos figurinos e depois através da música e da própria representação, seja através da narrativa oral (há uma lindíssima cena noturna onde os dois homens contam a história de seus antepassados, com direito a umas poucas cenas de animação), depois através do retorno do jovem morto em forma de tubarão, e também na recriação “teatral” de um conto onde uma besta é amansada. A força da narrativa em várias formas está espalhada pelo filme e, ao término, temos uma delicada e nostálgica conclusão que olha não apenas para o passado, mas para as mudanças que a vida reserva para cada um de nós — juntamente com o preço que temos que pagar por determinadas coisas nessa vida.

O Preço do Perdão (Ndeysaan) — Senegal, França, 2001
Direção: Mansour Sora Wade
Roteiro: Mansour Sora Wade, Nar Sene (baseado na obra de Mbissane Ngom)
Elenco: Hubert Koundé, Rokhaya Niang, Gora Seck, Alioune Ndiaye, Nar Sene, Thierno Ndiaye Doss, James Campbell, Dieynaba Niang
Duração: 90 min.

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