Crítica | O Presidente (O Juiz, 1919)

O Presidente (ou também O Juiz), filme de 1919, marcou a estreia do dinamarquês Carl Theodor Dreyer na direção. Longa profundamente influenciado pela vida pessoal do cineasta (algo que ele, curiosamente, sempre negou em entrevistas), O Presidente traz uma série de ingredientes dramáticos que fariam parte da curta, mas genial filmografia do artista. Com roteiro do próprio Dreyer, baseado na obra de Karl Emil Franzos, a trama se passa em um país não nomeado (mas subtendemos ser a Dinamarca), no final do século XIX. O Juiz-Presidente de uma cidade (Victor von Sendlingen, interpretado por Halvard Hoff) vê sua filha ilegítima sendo julgada por infanticídio. A condenação à morte é inevitável. É diante disso que o protagonista irá mergulhar em um mar de conflitos morais, tendo diante de si os valores conservadores da sociedade em que vive e que tanto defendeu. Para ele, a Justiça será pela primeira vez questionada e desafiada.

Neste filme vê-se quase um exorcismo por parte do diretor. Filho bastardo de uma empregada sueca e seu patrão, Dreyer passaria por alguns orfanatos (já que foi abandonado e sua mãe não tinha condições de criá-lo) até ser adotado pelo casal Dreyer, que o educou de maneira emocionalmente distante e com rígidos ideais luteranos. A temática das mães abandonadas é o verdadeiro cerne de O Presidente, o que de certa forma faz desse filme o mais agressivo do diretor em termos de exposição de uma mensagem social ou íntima que se bifurca entre interesses pessoais, deveres para com a sociedade, histórico moral e camadas religiosa e psicanalítica latentes.

Nós percebemos que a intenção do diretor foi entregar um drama que coloca o abandono e a traição do amor de alguém como cerne das relações, mas existe um certo distanciamento histórico que Dreyer faz questão de ressaltar ao apresentar o drama como a narração de um antigo livro, que abre e encerra o filme. Nessa jornada o único problema é o ritmo, representado pela vontade de o cineasta mostrar o abandono de mulheres grávidas por homens ou a exposição das mulheres como “fonte do pecado”, forçando jovens aristocratas a se casarem contra a vontade, gerando toda uma vida de infelicidades, como se vê na primeira história da saga, o flashback que mais me incomodou. Levando em consideração que a mesma dinâmica seria mostrada através de outras memórias/gerações, me parece redundante essa primeira volta ao passado, o que também vale para os braços quase aleatórios de impasse moral em torno do mesmo núcleo dramático.

Quando enfim o foco é dado para Victor, o tom do filme se torna mais intenso. Nós nos importamos com o personagem e a interpretação de Halvard Hoff favorece essa percepção, afinal de contas, é difícil existir alguém que ainda não foi visitado por erros do passado, alguns deles ligados ao amor. É esse sentimento, portanto, que empurra o protagonista para um estágio de desobediência social e contrariedade pessoal que se torna uma verdadeira revolução. Crendo na importância de uma conservação da ordem através de duros valores, o diretor manteve o escândalo apenas na ameaça, mas impôs a punição ao Juiz-Presidente. Em sua visão, alguns erros podem ser reparados, pessoas podem ser salvas pelo amor, mas outras — aquelas que renunciaram a tudo o que sempre acreditaram — não podem se dar ao luxo de viver incólume à quebra desses valores. Uma vez guardião dessas chaves, o indivíduo deve permanecer digno delas até o fim da vida. Ou morrer para que esse valor incorruptível se mantenha na memória dos outros.

Apesar de O Presidente ser a estreia de Dreyer na direção, é importante dizer esta que não foi a sua estreia no cinema. Ele já vinha escrevendo roteiros desde 1912, então tinha uma sólida noção de como uma história poderia ser contada para chamar a atenção do público e expor determinadas ideias com forte apelo emocional. No olhar para o passado, considerando a redundância narrativa, não vejo o diretor ir muito longe aqui. Mas no aspecto visual, só existem elogios para a forma como ele inseriu essas regressões, como dirigiu os atores e como utilizou de uma estética gótica e bastante opressiva para narrar essa quase-ópera de nobres tendo que enfrentar as consequências de suas ações. O nascimento tímido de um Mestre do cinema.

O Presidente (Præsidenten) — Dinamarca, 1919
Direção: Carl Theodor Dreyer
Roteiro: Carl Theodor Dreyer (baseado na obra de Karl Emil Franzos)
Elenco: Richard Christensen, Christian Engelstoft, Hallander Helleman, Halvard Hoff, Jon Iversen, Jacoba Jessen, Betty Kirkeby, Carl Lauritzen, Axel Madsen, Carl Walther Meyer, Peter Nielsen, Fanny Petersen, Elith Pio, Olga Raphael-Linden
Duração: 75 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.