Crítica | O Príncipe, de Nicolau Maquiavel

Em tempos de reflexões turbinadas sobre poder, política e manipulação na ficção e na vida real, haja vista os impactos da última temporada de Game of Thrones, do lançamento de Vingadores: Ultimato e das nossas celeumas cotidianas diante de propostas e declarações políticas despreparadas e subservientes aos Estados Unidos, O Príncipe, do italiano Nicolau Maquiavel, é uma obra basilar, ainda na contemporaneidade, mesmo escrita há eras. Tal como Homero e Shakespeare, as ideias esboçadas pela publicação ainda são pertinentes.

Não desgastadas pelo tempo, os seus 26 capítulos ganharam traduções, leituras e interpretações tão plurais e interessantes quanto deturpadas. Foi Maquiavel o responsável por trazer ao mundo a noção de Estado que conhecemos hoje, termo já delineado por Sun Tzu em A Arte da Guerra, mas não específico como as denominações do militar de Florença. Ao longo do texto, escrito em 1513 e publicado postumamente, em 1532, Maquiavel retrata a teoria moderna do Estado, dando sugestões e conselhos de como chegar e se manter no poder.

Entende-se por Estado, qualquer país soberano, estruturado com independência, permeado por políticas organizadas em meio às instituições que controlam e administram a nação. Representação máxima da organização humana, o Estado, teorizado por Max Weber, Thomas Hobbes, John Locke, Jean-Jacques Rousseau, Immanuel Kant, Karl Marx, Jurgen Habermas, Antonio Gramsci  dentre outros, só não transcende às comunidades internacionais.

Desta maneira, a leitura nos faz trilhar pelos caminhos dos negócios públicos, internos e externos, ponderações relevantes para permanência na esfera pública, com propostas de centralização do poder que não significam necessariamente aderir ao absolutismo político. Apesar de tênue, há uma linha fina que separa as duas coisas. Do 1º ao 14º capítulo, o autor traça um amplo conceito sobre as formas de poder vigentes e delineia as estruturas da monárquicas e republicanas. Para Maquiavel, a postura é uma das maiores qualidades de um representante ao principado, pois deve-se transmitir aos súditos a sensação de bem-estar e a segurança, necessária para que haja fidelização e confiança.

O capítulo 16 faz um panorama da estrutura financeira de um principado. Maquiavel alega que as finanças devem ser tratadas com muita cautela, pois o povo não pode perceber que encontra-se diante de dificuldades enquanto o seu líder esbanja e cobra impostos absurdos. É pólvora em excesso para a explosão de um motim e a história francesa está aí para nos mostrar que Maria Antonieta não aderiu aos ensinamentos do italiano. Caso parta para uma batalha juntamente com os seus soldados, todo cuidado é pouco com posturas ligadas ao âmbito da generosidade. Seja justo, ou trará desconfiança e incredulidade aos seus soldados, a linha de frente que lutará a sua batalha juntamente com você.

Importante também são as considerações ao longo do capítulo 17. Se o medo da punição faz os seus súditos recuarem diante de uma traição, você está no caminho certo no que concerne aos mandamentos básicos do principado. Piedade, humanidade, integridade: três características básicas do pilar imagético de um príncipe. Mesmo que tenha de agir com dissimulação diante das articulações políticas cínicas e apodrecidas, a encenação é necessária para a sobrevivência. Tais observações fazem parte do conteúdo disposto no 18º capítulo, predecessor das ideias presentes logo em seguida, no 19º: um príncipe jamais deve demonstrar avareza, confiscar propriedades, tampouco desinteresse. O que seria, em especial, esse desinteresse?

Se trouxermos para o tecido político brasileiro contemporâneo, teremos pano para manga, não é mesmo, caro leitor? Apesar da massa de alienados, temos um vulcão prestes a explodir diante do desinteresse por assuntos ligados à economia, política externa, direitos civis, dentre outros, comprovação mais que tácita da falta de leitura de um grupo de representantes. Não se lê Maquiavel, Sun Tzu, na verdade não há sequer interpretações para as alegorias da Bíblia Sagrada, tampouco as regras de etiqueta de livros mais basilares, responsáveis por nos mostrar como se portar diante das redes sociais, a grande esfera pública na era da cibercultura. Não há cautela, humanidade, generosidade, interesse por avanços, ao contrário, há apenas uma tsunami de retrocessos. Alguém deveria fazer a lição de casa e ler Maquiavel para uma autocrítica, mas creio que não seja capaz disso, para a infelicidade e integridade de nosso Estado.

Desta maneira, nos encontramos diante da balbúrdia, onde supostamente alguém está forçando a barra de tal forma, tendo em vista comprovar que “os fins justificam os meios”. Curiosamente, um dos termos mais famosos atribuídos ao tratado é a máxima “os fins justificam os meios”, parte da interpretação que não está no livro, é associado ao que se diz sobre se manter no poder independente de qualquer ação, tendo em vista a manutenção da autoridade, interpretação utilizada por políticos neoconservadores dos anos 1970 para justificar a expansão agressiva, rejeitadora do pacifismo, do liberalismo e do relativismo moral, e assim, dar conta dos projetos de política externa focados nas intervenções militares em outros países, num comportamento típico de superpotência bélica.

Nas linhas do 20º ao 23º capítulo, Maquiavel trata dos bajuladores e dos membros de suas secretarias. O controle é necessário. Não é preciso tomar para si todos os problemas, mas dispersá-los entre a sua equipe, sem deixar, entretanto, de supervisionar constantemente. Bajuladores não são bem vindos. Fora! O povo é quem manda, delineia Maquiavel. Por isso, mantenha a massa feliz, pois assim não correrá o risco de ser derrubado. Tais ideias conectam com as abordagens anteriores e parecem espelho de nossa realidade, prova viva da importância de ler esse tratado para manter-se munidos das alegorias que nos ajudam a interpretar o tempo presente.

Nos capítulos finais, Maquiavel expõe que é preciso conhecer as regras do seu tempo para adaptar as suas estratégias governamentais. Manter-se na obscuridade e atuar por meio de posturas obsoletas não permitirá a manutenção do principado. O autor trata de questões pontuais sobre a Itália de sua época, com destaque para as considerações do 24º capítulo, trecho onde Maquiavel versa sobre os erros cometidos por alguns poderosos de sua época e do passado, com lições ilustrativas do que não se deve ser feito para agir erroneamente mais vezes. Há, também, a advertência sobre estar preparado para o ataque a qualquer instante. Na busca incessante pelo poder, o príncipe e seus aliados devem farejar de longe qualquer ameaça.

Se não for para ser respeitado por amor, que seja pelo medo. Contemporaneamente, podemos associar tais ideias ao desfecho de Game of Thrones, série que em suas oito temporadas, articulou grupos dentro de uma dimensão geográfica fictícia, todos em conflito pelo poder representado na figura alegórica do Trono de Ferro. Para esta parte da reflexão em questão, desfecho da crítica, resgato o conceito de virtú, uma das partes mais importantes das ideias de Maquiavel. É dele a máxima “um líder deve ser perspicaz como uma raposa e feroz como um leão”, no caso de Daenerys Targaryen, a única personagem aparentemente não idealista no desfecho da série em 2019, “perspicaz como uma raposa e feroz como um dragão”.

Semelhante ao contexto renascentista de Maquiavel, a guerra pelo trono apresentada nas obras literárias de George Martin, traduzidas para o suporte semiótico televisivo se assemelham muito aos conflitos bélicos e as manobras de ordem política da época de Maquiavel. Enquanto alguns caem por não possuir virtú descrita por pelo autor, outros conseguem sublimar os adversários e manter a relevância. Importante observar, no entanto, que até mesmo Daenerys e outros personagens com mesma carga dramática podem sucumbir, pois podem ser desafiadas por alguém mais competente, além de toda a vulnerabilidade proveniente de um ser humano. Como traz Marcus Schulzke em “Jogando o Jogo dos Tronos: Algumas Lições de Maquiavel”, parte integrante da coletânea A Guerra dos Tronos e a Filosofia, organizado por Henry Jacoby, o que há é a constante lutar pelo poder. E claro, a sua manutenção como parte importante do processo.

Há também uma relação do conceito no terceiro episódio da segunda temporada da série Westworld. O programa trata de um parque de diversões futurista que permite aos visitantes viverem as suas fantasias por meio dos recursos da consciência artificial. Independente do grau de ilicitude, a criatura que se permite viver tais possibilidades fantasiosas pode mergulhar sem medo e culpa. A proposta é uma viagem sem consequências no mundo real. Será mesmo? O episódio em questão resgata ideias de Maquiavel e nos mostra o quanto seu pensamento continua vivo e atuante na contemporaneidade.

A postura de Thanos, vilão de Vingadores: Guerra Infinita também é prova cabal da presença do florentino nas reflexões ficcionais da cultura audiovisual do século XXI. Ao se posicionar de maneira tóxica, o soberano atiça o ódio dos super-heróis da história, membros que acreditam ser mais relevantes lutar contra tais forças impiedosas a se submeter. Inflexível, o “mega” antagonista da narrativa deixa qualquer virtude de lado para conquistar absolutamente o poder.

Na cinebiografia de Abraham Lincoln, personagem esférico representado por Daniel Day-Lewis na produção de Steven Spielberg, podemos ver claramente a postura maquiavélica do político ao enviar assessores que garantissem adesão dos parlamentares na aprovação da 13ª emenda, movimentação na estrutura política que talvez não fosse do interesse pessoal de Lincoln, mas representava uma manobra importante em suas articulações com aliados. Antes de encerrar, no entanto, torna-se importante refletir sobre o termo maquiavélico, alcunha dada aos personagens citados ao longo deste texto. Mas, afinal, o que é ser maquiavélico?

Utilizada para denominar pessoas e posturas hipócritas, desleais, sujas e malévolas, costuma-se dizer que são características específicas de pessoas maquiavélicas. Perversa, sedutora e diabólica, a pessoa maquiavélica. Diferente dos idealismos de filósofos anteriores, tal como Platão, Maquiavel foi extremamente realista ao retratar os acontecimentos e posturas políticas de sua época no tratado O Príncipe, infelizmente mais comentado que lido, problema que faz muita gente associar o seu nome e sua obra a coisas que sequer estão exatamente descritas em seu livro. Como disse certa vez a advogada Ana Clara Cabral, “Maquiavel sequer era maquiavélico”.

O Príncipe (Il Principe/Itália, 1532)
Autor: Nicolau Maquiavel
Editora no Brasil: Martins Fontes
Tradução: Maurício Santana Dias
Páginas: 232

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.