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Crítica | O Príncipe Dragão – 2ª Temporada

por Ritter Fan
323 views (a partir de agosto de 2020)

O maior problema da 1ª temporada de O Príncipe Dragão foi de ordem técnica: os showrunners reduziram o frame rate da animação para tentar amplificar a sensação de desenho clássico, das antigas, mas acabaram errando na dose e potencialmente afastaram espectadores que eventualmente não tenham conseguido se adaptar à escolha ou permitiram que esse aspecto nublasse os demais. Mas isso é completamente resolvido na 2ª temporada, com a normalização da velocidade de projeção, o que permite a apreciação integral e sem distrações da série pelo que ela efetivamente é, ou seja, uma excelente amálgama de clichês e artifícios narrativos relacionados ao sub-gênero da fantasia medieval em uma  história com personalidade própria, cativante e, diria mais, viciante, capaz de agradar marmanjos e crianças igualmente.

Começando de onde a temporada anterior parou, os showrunners Aaron Ehasz e Justin Richmond continuam a jornada dos humanos Callum e Ezran, príncipes de Katolis, do lagarto de estimação permanentemente zangado Isca e da elfa Rayla, com quem se aliam, para levar o irresistivelmente simpático príncipe dragão Azymondias, ou Zym para os íntimos, até seus pais no reino mágico de Xadia. Mas, no lugar de apenas trabalhar a viagem de um ponto a outro, os showrunners aproveitam a temporada para expandir a mitologia desse mundo que criaram trabalhando bem inseridos flashbacks para momentos importantes do passado recente envolvendo o falecido (até prova em contrário) Rei Harrow, pai de Ezran e padastro de Callum, e seu braço-direito e manipulador de magia negra Viren, que é, também, o veículo pelo qual essa volta ao passado é facilitada. Além disso, Viren é o pivô da introdução de outro personagem misterioso e mágico na história, que parece abrir uma narrativa completamente nova, mas que não é desvelada ao longo dos breves nove episódios que formam o arco batizado de Livro 2 – Céu, mas que promete ser determinante em vindouras temporadas.

O cuidado com a história pregressa da inimizade milenar entre humanos e elfos é admirável. Se a longa introdução da 1ª temporada nos dava um panorama genérico do que aconteceu, é apenas na 2ª temporada que entendemos mais detalhes que inclusive servem de elementos para lentamente fazer com que Harrow e Viren caminhassem por rumos diferentes e, também, para nos ensinar sobre as diferenças da magia canalizada pelos elfos e pelos humanos. É Callum, em sua perseguição do que entende ser seu destino, depois que provou da mágica na temporada anterior, que abre espaço narrativo para compreendermos a diferença vital entre a magia negra, tornada possível a partir da morte e a magia branca, natural, vinda da conexão dos elfos com o chamado arcanum. Callum, porém, não se conforma quando aprende que humanos não têm essa conexão natural e que ele só fora capaz de fazer magia em razão da esfera que roubara do castelo. Seu drama é ainda composto pela descoberta da morte de Harrow e sua dúvida sobre contar ou não para Ezran.

O pequeno príncipe, por sua vez, é o personagem que menos ganha desenvolvimento e parece até tornar-se redundante ou, talvez melhor afirmando, um adendo à história sendo contada que faz aquela composição impossivelmente “fofa” com o simpaticíssimo dragãozinho branco e o emburrado lagarto multi-colorido. Os showrunners, porém, perceberam isso e fazem Ezran, até surpreendentemente, caminhar para uma resolução no último episódio que promete levá-lo a uma posição de destaque e com clara função narrativa já na próxima temporada, pelo que sua presença, aqui, ganha uma boa justificativa ao olharmos em retrospecto.

Mas e Cláudia e Soren, os irmãos filhos de Viren que foram enviados pelo pai para recuperar os príncipes, mas com Sorem tendo a missão secreta de matá-los, como eles funcionam? Faço a pergunta, pois a dupla, que funcionou como alívio cômico na temporada anterior, não tinham um lugar muito bem definido. Apesar de Soren ser o valentão, era possível entrever sua alma boa e Claudia, por mais vilanesca que ela possa parecer às vezes, especialmente quando manipula magia negra, fugia do estereótipo clássico de seu tipo. No entanto, eles não chegaram a encontrar seus respectivos lugares antes e, agora, na nova temporada, eles são caracterizados como aliados hesitantes e vilões ocasionais muito mais por sua fidelidade ao pai do que em razão de suas respectivas índoles. O encaixe da dupla no plano maior dos showrunners ainda não é evidente e seus tons de cinza permanecem também ao longo dessa 2ª temporada, ainda que eles tenham mais oportunidades de organicamente atravessarem a narrativa principal da jornada dos príncipes.

Isso, na verdade, não é algo muito diferente de Viren, já que o grande vilão não é exatamente o que esperamos de um grande vilão. Sim, o personagem sinistro que ele contacta literalmente através do espelho mágico em seu porão (aliás, o guarda acorrentado lá embaixo é hilário!) tem muito mais características vilanescas que esperamos encontrar nesse tipo de personagem, mas é exatamente por não ser óbvio em suas intenções que Viren é fascinante. Enquanto o Rei Harrow é o clichê ambulante do rei bondoso e amoroso, algo que a carta para Callum não deixa espaço para dúvidas, Viren é o segundo-em-comando cujas ações não sabemos exatamente se têm fundamento em sua visão deturpada das coisas ou se são frutos daquela vilania maquiavélica clássica, com objetivos ulteriores. Sua construção tem sido surpreendente e ela tem tudo para continuar nessa linha.

A animação continua da mais alta qualidade, com uma grande imaginação na criação de novos personagens, como a fênix Fe-Fe e, claro, o pirata duplamente caolho (sim!) Villads, com D mudo (Peter Kelamis), nome do próprio diretor dos episódios, e seu papagaio Beto. As sequências de ação, especialmente no flashback contra o titã de pedra e o embate entre Claudia e Soren contra um dragão, são muito bem coreografadas, com momentos tensos e de tirar o fôlego, bem dentro do espírito de aventura fantasiosa que essa série tem para esbanjar.

A 2ª temporada de O Príncipe Dragão corrige o maior problema da anterior e, de quebra, consegue eficientemente expandir esse fascinante universo que inevitavelmente já conhecemos de outras obras, notadamente de Tolkien, mas que sem dúvida tem vida própria e nos deixa presos à telinha do começo ao fim. Uma cativante jornada que não pode ser perdida pelos apreciadores de boas animações e de fantasias medievais.

O Príncipe Dragão – 2ª Temporada (The Dragon Prince, EUA/Canadá – 15 de fevereiro de 2019)
Criação: Aaron Ehasz, Justin Richmond
Direção: Villads Spangsberg
Roteiro: Aaron Ehasz, Justin Richmond, Devon Giehl, Iain Hendry, Neil Mukhopadbyay
Elenco (vozes originais): Jack De Sena, Paula Burrows, Sasha Rojen, Racquel Belmonte, Jesse Inocalla, Jason Simpson, Jonathan Holmes, Luc Roderique, Erik Todd Dellums, Adrian Petriw, Omari Newton, Nahanni Mitchell, Ellie King, Peter Kelamis
Duração: 234 min. (9 episódios no total)

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25 comentários

Luís Vicente 29 de novembro de 2019 - 15:07

Vai ter critica da terceira temporada?

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planocritico 29 de novembro de 2019 - 15:23

Acabou de entrar no ar. Confere lá no site!

Abs,
Ritter.

Responder
Gabriel Filipe 13 de setembro de 2019 - 22:27

Eu não gostei mesmo da primeira temporada, pra mim ela é uma das piores coisas feitas pela Netflix, mas essa segunda ficou muito melhor, apesar de não gostar do último episódio e ter muitos problemas com o uso de humor nessa série o arco dos personagens ficou melhor, a animação não é mais travada e a história é mais engajante, em geral. Mas essa temporada me deixou receoso pro futuro, ficou com um gosto de que vão arrastar muito essa história iniciada na primeira temporada. Porque dava facilmente pra termina-la nessa. Eu daria uma nota 3 de 5, no máximo, 3,5, acho 4,5 muito grande.
PS: Cláudia e o Soren são os personagens mais chatos q já vi em um desenho

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planocritico 14 de setembro de 2019 - 18:55

Não poderia discordar mais, @disqus_Xvut7oPM56:disqus !

Abs,
Ritter.

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Cleison Miguel 5 de março de 2019 - 11:33

Vi a temporada inteira em duas sentadas, fica o gosto de quero mais que alguns comentaram abaixo.

Há uma significativa melhora em relação a primeira e não digo isso apenas no aspecto técnico, que parece ter incomodado muita gente, mas da história e dos personagens.

Ainda é impossível distanciar as comparações com Avatar: A lenda de Aang, mas elas diminuíram, o que é uma ótima coisa para essa nova história.

Também sou do coro que deveriam, urgentemente, fazer a critica das temporadas de Avatar, aquele desenho mais que merece, são daquelas perolas que nos fazem obrigatoriamente revisitar todos os arcos de tempos em tempos (vi duas vezes já e tenho certeza verei novamente no futuro).

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planocritico 9 de março de 2019 - 19:29

Mais um fazendo pressão por Avatar!!! Ai, ai… Tanta coisa, tão pouco tempo!!!

Abs,
Ritter.

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Mateus 26 de fevereiro de 2019 - 02:18

Cara faz a critica do desenho avatar a lenda de aang!!!é uma série muito incrível

Responder
planocritico 26 de fevereiro de 2019 - 14:12

Depois da qualidade demonstrada em O Príncipe Dragão, eu me animei para Avatar e coloquei na minha lista, ainda que não tenha planos no momento de assisti-la.

Abs,
Ritter.

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Gabriel Filipe 13 de setembro de 2019 - 22:27

É muito melhor que essa animação meia boca da Netflix

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Matheus Bezerra de Lima 25 de fevereiro de 2019 - 11:52

Vocês vão fazer reviews de Avatar – O Último Mestre do Ar, aproveitando a onda da nova série Live-action?

Responder
planocritico 25 de fevereiro de 2019 - 15:15

Não temos planos no momento não, mas é possível.

Abs,
Ritter.

Responder
Mariah Costa 24 de fevereiro de 2019 - 01:28

Magia sombria*

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Krauser Hellclown 23 de fevereiro de 2019 - 17:36

Houve uma melhora considerável para a primeira temporada. Depois que Avatar acabou, ficava procurando um seriado com essa temática de fantasia pra assistir e finalmente posso dizer que encontrei o seu sucessor. Ótima crítica aliás.

Responder
planocritico 23 de fevereiro de 2019 - 18:38

@krauserhellclown:disqus , obrigado!

É uma série daquelas irresistíveis mesmo!

Abs,
Ritter.

Responder
Lord Galahad 23 de fevereiro de 2019 - 13:36

Tá muito boa essa série. Ótima segunda temporada. Aguardando ansiosamente desde já pela próxima!

Mas acho que deveria ter mais episódios por temporada. Nove é muito pouco! A pessoa fica querendo mais.

Responder
planocritico 23 de fevereiro de 2019 - 15:02

Acho que a estrutura é parecida com a de Voltron. Menos episódios para reduzir o intervalo entre temporadas. Acho uma ótima troca!

Abs,
Ritter.

Responder
Lord Galahad 24 de fevereiro de 2019 - 01:16

Pensando por esse lado, até que não é mau negócio.

Responder
ABC 22 de fevereiro de 2019 - 20:56

Callum vai aprender todos os tipos de magia e se tornará o 1º Avatar… oops, serie errada.

Acho que o periquito esconde segredos que serão revelados ao príncipe Doolittle.

Saudações.

Responder
planocritico 22 de fevereiro de 2019 - 22:59

Mas pior é que eu acho que ele vai mesmo aprender todos os tipos de magia!

Abs,
Ritter.

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Wagner 22 de fevereiro de 2019 - 18:28

Há spoilers
———
Eu gostei muito dessa temporada. Algo que devo destacar aqui é a sensação de confiança que a série passa entre os personagens. Ela foge totalmente do clichê não acredito que você não me falou isso, vamos ficar cinco episódios sem nos falar. Callum e Ezran buscam entender porque algumas coisas foram escondidas deles e se colocam no lugar dos outros antes de julgar. Acho isso sensacional. Lembrando também que os primeiros episódios se passam em apenas um lugar e movimentam a trama muito bem.

Ez, mesmo com menos destaque, ainda continua a criança perspicaz que foi na temporada anterior. Eu mesmo tinha me esquecido que um dos braceletes da Rayla tinha saído após a morte do rei. Eu queria que ele seguisse sua jornada com o Zym, mas ele de fato encontrou o seu lugar

Eu já gostava do Callum, mas passei a gostar ainda mais. Aquele sonho para entender o arcanum do céu foi muito bem feito. mas eu preferia que ele conseguisse o arcanum da Lua rsrs. Aquela elfa do Nexus da Lua o usava de uma maneira muito legal. Quem sabe ele não passa a aprender e ter controle de outras magias.

Rayla continua a mesma coisa (o que é um ponto positivo), em sua busca para disfarçar o quinto dedo.
Claudia REALMENTE gosta e se importa com Callum e Ez. Apesar de ainda achar o Soren um pé no saco, eles não são de fato vilões e foi legal ver a série explorando esse lado deles.
Eu jurava que aquele ser do espelho era uma mulher kkkkkkkkkkkkkk. Creio que Aaravos seja o criador da magia negra
Viren poderia ter um destaque a mais, mas a garotinha o colocando em seu lugar foi impagável

Ainda tenho a sensação que o frame rate pode melhorar. Não me incomodou boa parte do tempo, só num momento de câmera lenta em que as duas rainhas morreram contra o dragão no flashback. E creio que a “mini trama” dos guardas na fronteria contra os Elfos do Sol foi finalizada muito abruptamente.

Mas de resto foi muito boa. Fiquei muito ansioso pela terceira temporada
Excelente crítica.

Responder
planocritico 22 de fevereiro de 2019 - 18:42

Obrigado, @disqus_FQxmlZ5D0B:disqus !

SPOILERS

SPOILERS

Cara, na hora que o Aaravos fala pela primeira vez eu soltei um “como assim?” e voltei a cena para ver se eu não estava ficando maluco. Eu tinha CERTEZA que o sujeito era uma mulher… Acho que até agora não me acostumei com ele sendo homem…

Sobre o frame rate, não tive problema algum.

Abs,
Ritter.

Responder
Lord Galahad 23 de fevereiro de 2019 - 13:35

Kkkkk também tinha certeza de que era uma mulher! Mas… E se for mulher mesmo? A voz pode estar alterada ao insetofone.

Responder
planocritico 23 de fevereiro de 2019 - 15:02

Insetofone! BOA! hahahaahahahahah

Mas se, depois de eu me acostumar com ele homem, ele me aparecer de voz fina vou ficar muito cabreiro!

Abs,
Ritter.

Responder
Laís S. 22 de fevereiro de 2019 - 18:27

Curti demais essa temporada. Mais que a primeira. Acho que por ter mais vislumbres de Xadia e do passado do reino humano.

Mas, como você bem colocou, houve pouco desenvolvimento de alguns personagens. Me dou a ousadia de incluir todo o trio principal. Mesmo com a descoberta de Callum, o novo “objetivo” de Rayla e da nova “função” de Ezran, achei que poderia ter sido mais, sabe? Sobretudo em relação à Rayla. Esperava, inclusive, um desentendimento maior nas duas situações em que os príncipes descobriram sobre a morte do pai.

Entretanto, isso tudo não apaga o brilhantismo da temporada. As três rainhas reinaram (desculpe o trocadilho) demais em cada aparição, com a quarta – Annya – fechando com chave de ouro.

Estou curiosíssima sobre Aaravos e o porque de ser ele quem abre o pergaminho no início da abertura. Sinto um potencial vilão ali.

Responder
planocritico 22 de fevereiro de 2019 - 18:43

@disqus_XZ2dve1FjD:disqus , também curti mais essa temporada do que a anterior.

Sobre o desenvolvimento do trio principal, realmente andou pouco, mas acho que o objetivo maior nessa temporada foi expandir o universo criado. Acho que a terceira temporada terá mais tempo para lidar com eles, especialmente levando em conta o final.

Também estou curioso para ver o que o Aaravos planeja…

Abs,
Ritter.

Responder

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