Crítica | O Príncipe Dragão – 2ª Temporada

O maior problema da 1ª temporada de O Príncipe Dragão foi de ordem técnica: os showrunners reduziram o frame rate da animação para tentar amplificar a sensação de desenho clássico, das antigas, mas acabaram errando na dose e potencialmente afastaram espectadores que eventualmente não tenham conseguido se adaptar à escolha ou permitiram que esse aspecto nublasse os demais. Mas isso é completamente resolvido na 2ª temporada, com a normalização da velocidade de projeção, o que permite a apreciação integral e sem distrações da série pelo que ela efetivamente é, ou seja, uma excelente amálgama de clichês e artifícios narrativos relacionados ao sub-gênero da fantasia medieval em uma  história com personalidade própria, cativante e, diria mais, viciante, capaz de agradar marmanjos e crianças igualmente.

Começando de onde a temporada anterior parou, os showrunners Aaron Ehasz e Justin Richmond continuam a jornada dos humanos Callum e Ezran, príncipes de Katolis, do lagarto de estimação permanentemente zangado Isca e da elfa Rayla, com quem se aliam, para levar o irresistivelmente simpático príncipe dragão Azymondias, ou Zym para os íntimos, até seus pais no reino mágico de Xadia. Mas, no lugar de apenas trabalhar a viagem de um ponto a outro, os showrunners aproveitam a temporada para expandir a mitologia desse mundo que criaram trabalhando bem inseridos flashbacks para momentos importantes do passado recente envolvendo o falecido (até prova em contrário) Rei Harrow, pai de Ezran e padastro de Callum, e seu braço-direito e manipulador de magia negra Viren, que é, também, o veículo pelo qual essa volta ao passado é facilitada. Além disso, Viren é o pivô da introdução de outro personagem misterioso e mágico na história, que parece abrir uma narrativa completamente nova, mas que não é desvelada ao longo dos breves nove episódios que formam o arco batizado de Livro 2 – Céu, mas que promete ser determinante em vindouras temporadas.

O cuidado com a história pregressa da inimizade milenar entre humanos e elfos é admirável. Se a longa introdução da 1ª temporada nos dava um panorama genérico do que aconteceu, é apenas na 2ª temporada que entendemos mais detalhes que inclusive servem de elementos para lentamente fazer com que Harrow e Viren caminhassem por rumos diferentes e, também, para nos ensinar sobre as diferenças da magia canalizada pelos elfos e pelos humanos. É Callum, em sua perseguição do que entende ser seu destino, depois que provou da mágica na temporada anterior, que abre espaço narrativo para compreendermos a diferença vital entre a magia negra, tornada possível a partir da morte e a magia branca, natural, vinda da conexão dos elfos com o chamado arcanum. Callum, porém, não se conforma quando aprende que humanos não têm essa conexão natural e que ele só fora capaz de fazer magia em razão da esfera que roubara do castelo. Seu drama é ainda composto pela descoberta da morte de Harrow e sua dúvida sobre contar ou não para Ezran.

O pequeno príncipe, por sua vez, é o personagem que menos ganha desenvolvimento e parece até tornar-se redundante ou, talvez melhor afirmando, um adendo à história sendo contada que faz aquela composição impossivelmente “fofa” com o simpaticíssimo dragãozinho branco e o emburrado lagarto multi-colorido. Os showrunners, porém, perceberam isso e fazem Ezran, até surpreendentemente, caminhar para uma resolução no último episódio que promete levá-lo a uma posição de destaque e com clara função narrativa já na próxima temporada, pelo que sua presença, aqui, ganha uma boa justificativa ao olharmos em retrospecto.

Mas e Cláudia e Soren, os irmãos filhos de Viren que foram enviados pelo pai para recuperar os príncipes, mas com Sorem tendo a missão secreta de matá-los, como eles funcionam? Faço a pergunta, pois a dupla, que funcionou como alívio cômico na temporada anterior, não tinham um lugar muito bem definido. Apesar de Soren ser o valentão, era possível entrever sua alma boa e Claudia, por mais vilanesca que ela possa parecer às vezes, especialmente quando manipula magia negra, fugia do estereótipo clássico de seu tipo. No entanto, eles não chegaram a encontrar seus respectivos lugares antes e, agora, na nova temporada, eles são caracterizados como aliados hesitantes e vilões ocasionais muito mais por sua fidelidade ao pai do que em razão de suas respectivas índoles. O encaixe da dupla no plano maior dos showrunners ainda não é evidente e seus tons de cinza permanecem também ao longo dessa 2ª temporada, ainda que eles tenham mais oportunidades de organicamente atravessarem a narrativa principal da jornada dos príncipes.

Isso, na verdade, não é algo muito diferente de Viren, já que o grande vilão não é exatamente o que esperamos de um grande vilão. Sim, o personagem sinistro que ele contacta literalmente através do espelho mágico em seu porão (aliás, o guarda acorrentado lá embaixo é hilário!) tem muito mais características vilanescas que esperamos encontrar nesse tipo de personagem, mas é exatamente por não ser óbvio em suas intenções que Viren é fascinante. Enquanto o Rei Harrow é o clichê ambulante do rei bondoso e amoroso, algo que a carta para Callum não deixa espaço para dúvidas, Viren é o segundo-em-comando cujas ações não sabemos exatamente se têm fundamento em sua visão deturpada das coisas ou se são frutos daquela vilania maquiavélica clássica, com objetivos ulteriores. Sua construção tem sido surpreendente e ela tem tudo para continuar nessa linha.

A animação continua da mais alta qualidade, com uma grande imaginação na criação de novos personagens, como a fênix Fe-Fe e, claro, o pirata duplamente caolho (sim!) Villads, com D mudo (Peter Kelamis), nome do próprio diretor dos episódios, e seu papagaio Beto. As sequências de ação, especialmente no flashback contra o titã de pedra e o embate entre Claudia e Soren contra um dragão, são muito bem coreografadas, com momentos tensos e de tirar o fôlego, bem dentro do espírito de aventura fantasiosa que essa série tem para esbanjar.

A 2ª temporada de O Príncipe Dragão corrige o maior problema da anterior e, de quebra, consegue eficientemente expandir esse fascinante universo que inevitavelmente já conhecemos de outras obras, notadamente de Tolkien, mas que sem dúvida tem vida própria e nos deixa presos à telinha do começo ao fim. Uma cativante jornada que não pode ser perdida pelos apreciadores de boas animações e de fantasias medievais.

O Príncipe Dragão – 2ª Temporada (The Dragon Prince, EUA/Canadá – 15 de fevereiro de 2019)
Criação: Aaron Ehasz, Justin Richmond
Direção: Villads Spangsberg
Roteiro: Aaron Ehasz, Justin Richmond, Devon Giehl, Iain Hendry, Neil Mukhopadbyay
Elenco (vozes originais): Jack De Sena, Paula Burrows, Sasha Rojen, Racquel Belmonte, Jesse Inocalla, Jason Simpson, Jonathan Holmes, Luc Roderique, Erik Todd Dellums, Adrian Petriw, Omari Newton, Nahanni Mitchell, Ellie King, Peter Kelamis
Duração: 234 min. (9 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.