Crítica | O Príncipe Dragão – 3ª Temporada

Depois de uma 1ª temporada refrescante, mas com um problema técnico e uma 2ª temporada que corrigiu a questão e solidificou a mitologia da série, O Príncipe Dragão volta para definitivamente cravar a criação de Aaron Ehasz e Justin Richmond como uma das melhores animações originais dos últimos anos, bebendo profundamente de fontes clássicas da literatura fantástica para trazer à vida uma história que sem dúvida já vimos antes de várias maneiras diferentes, mas que, aqui, recebe um tratamento audiovisual belíssimo, com personagens cativantes e um perfeito equilíbrio entre seriedade e comicidade. Além disso, a 3ª temporada, também composta de nove episódios, fecha um arco ou uma fase, abrindo caminho não exatamente para uma nova história, mas sim para caminhos diferentes com um tabuleiro que acaba profundamente modificado.

Na terceira parte da jornada dos irmãos humanos Callum e Ezran com a elfa Rayla para levar o pequeno príncipe dragão Azymondias (ou Zym) até os braços de sua mãe com o objetivo de acabar com a guerra milenar entre os humanos e os seres mágicos, a ação se passa quase que completamente no reino de Xadia, até então pouco explorado na série. Como vimos ao final da temporada anterior, o pequeno Ezran, herdeiro do trono, decide voltar para seu povo em Katolis, confiando que seu meio-irmão e a elfa conseguiriam completar a missão e é nela que a temporada tem o foco primordial, começando com o desafio de se passar pelo gigantesco dragão Sol Regem que vigia a incandescente fronteira entre as terras, ao mesmo tempo em que novamente ganhamos um flashback que revela mais sobre a origem da inimizade entre humanos, que passaram a manipular magia negra, e os dragões em um artifício utilizado de maneira cirúrgica quando realmente é necessário para que a mitologia do presente ganhe estofo com eventos de tempos atrás.

Essa jornada épica também é a primeira vez que realmente vemos a magia inata em Xadia que está presente em todos os lugares e que dá oportunidade para que a equipe de animação crie visuais esplendorosos, além de criaturas novas que vão desde bolinhas coloridas que lembram os susuwatari de Meu Amigo Totoro até gigantescas “girafas” que servem de transporte para o grupo no Deserto da Meia-Noite, passando, claro, por novas raças de elfos, além da magnífica cidade de Lux Aurea, lar dos Elfos do Fogo. Nesse “lado” da temporada, o objetivo e fazer o queixo do espectador cair, algo que os showrunners e sua equipe definitivamente conseguem, ao mesmo tempo que expandem e muito a mitologia da série trabalhando tanto aspectos micro como o banimento de Rayla de Silvergrove (impossível não lembrar de Nose Dive, da 3ª temporada de Black Mirror) e a hesitante amizade entre Amaya e Janai, inimigas mortais, como aspectos macro, como a queda do Rei Dragão (outro flashback muito bem colocado) e todos os rituais em Lux Aurea.

Do outro lado, vemos um pouco de Katolis, agora com Viren preso e Ezran no trono, mas sem saber muito bem como agir diante do desejo de vingança contra os elfos demonstrado pelo enfurecido príncipe Kasef, personagem novo que entra para servir de ferramente tanto manipuladora como manipulada. O jovem rei mostra uma impressionante maturidade muito rapidamente, sem jamais deixar de lado seu ar jovial e inocente, algo muito bem marcado por sua gulodice em relação às tortas de geleia do simpático padeiro local. Sua inocência absoluta o leva a decisões que adulto nenhum tomaria em seu lugar: ele faz de tudo para manter a paz ou, quando tudo mais se torna impossível, para minimizar as perdas, indo inclusive contra a memória de seu próprio pai, mas sempre com muito respeito e amor. Claro que as traições monárquicas, com isso, se espalham como um vírus mortal e logo Viren, cada vez mais sob o controle do elfo Aaravos (que passa a manifestar-se também visualmente para o grão-vizir), passa a comandar um exército para invadir Xadia.

Se existe um aspecto negativo na temporada é que ela é curta demais para o arco que é contado aqui. Muita coisa acontece rapidamente demais, abrindo espaço para alguns atalhos que parecem convenientes e reduzindo o tempo do clímax ao sopé de Stormspire, a montanha onde reside Zubeia, a rainha dragão e mãe de Zym. Apenas como exemplo, um episódio inteiro é “desperdiçado” com Callum e Rayla tentando passar por Sol Regem, enquanto que o mesmo tempo é dedicado à gigantesca batalha de proporções de O Senhor dos Anéis. E reparem que usei aspas no termo desperdiçado, pois não é exatamente isso o que acontece, já que essa ação se justifica para aproximar ainda mais Callum e Rayla, além de mostrar que o amargor e a beligerância não vem só dos humanos, mas é que entre esse momento mais “simples” e uma batalha épica, a segunda acabou prejudicada. Teria sido muito mais interessante que ou o número de episódios fosse aumentado para comportar algo mais protraído no tempo, ou que os nove existentes fossem redistribuídos.

Mesmo com tempo apertado, porém, o desenvolvimento dos principais personagens merece todo o destaque. Não só Callum e Rayla fazem uma dupla apaixonante – e apaixonada – como Ezran mostra todo o seu potencial aqui, sem que Isca e o Príncipe Dragão sejam esquecidos. E, do lado mais vilanesco, as tonalidades de cinza que existiam antes tornam-se menos discretas, aumentando a polarização entre o certo e o errado, entre os “mocinhos” e os “bandidos”. Digo isso, pois os irmãos Claudia e Soren sempre andaram no fio da navalha entre um lado e outro, mas, aqui, eles são trabalhados de maneira muito lógico que os leva a tomar posições mais definitivas. Mesmo Viren, um vilão que sempre foi bem menos vilanesco do que a grande maioria dos vilões por aí, veste completamente seu manto de vilania (sim, tenho consciência da quantidade de vezes que escrevi derivados de “vilão” em apenas uma frase) ao abraçar o lado sombrio a partir da tentação representada pelo ainda muito enigmático Aaravos. Mas essa definição de papeis era necessária e funciona muito bem, estabelecendo um conflito que, apesar de ser resolvido na temporada, abre portas potencialmente muito interessantes para futuras temporadas.

Mais uma vez, O Príncipe Dragão mostra-se como um primor da animação serializada, com uma história não só engajante e divertida, como relevante e repleta de simbolismos e críticas sociais que equilibra muito bem o humor e o drama. Além disso, a arte é um literal capítulo à parte, com cada fotograma merecendo ser degustado com calma e prazer, já que um mundo ao mesmo tempo familiar e completamente estranho é amplificado magnificamente diante de nossos olhos.

O Príncipe Dragão – 3ª Temporada (The Dragon Prince, EUA/Canadá – 22 de novembro de 2019)
Criação: Aaron Ehasz, Justin Richmond
Direção: Villads Spangsberg
Roteiro: Aaron Ehasz, Justin Richmond, Neil Mukhopadbyay, Devon Giehl, Iain Hendry
Elenco (vozes originais): Jack De Sena, Paula Burrows, Sasha Rojen, Racquel Belmonte, Jesse Inocalla, Jason Simpson, Jonathan Holmes, Luc Roderique, Erik Todd Dellums, Adrian Petriw, Omari Newton, Nahanni Mitchell, Ellie King, Peter Kelamis, Nicole Oliver
Duração: 234 min. (9 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.