Crítica | O Princípio da Incerteza (2002)

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Segundo a Mecânica Newtoniana, sabendo-se a posição inicial e o momento de todos os corpos de um sistema, é possível calcular suas interações e como eles se comportarão. Já em relação à mecânica quântica, segundo o princípio da incerteza, não podemos determinar precisamente a posição e movimentos de uma partícula. Nem das partículas quânticas, tampouco das personagens de Manoel de Oliveira. De volta à marcante presença de Leonor Silveira, já companheira de muitos filmes, e Leonor Baldaque, também já marcada na filmografia do diretor, Manoel nos agracia com outro de seus jogos de imprevisibilidade burguesa envolvendo grandes personalidades encenadas em seu já conhecido rigor cênico.

Camila, protagonista interpretada por Leonor Baldaque, é dessas incapazes de qualquer precaução, é uma enganadora natural que promove o caos e desordem nesse universo estruturado em cena. Ela se mostra como frágil para persuadir os outros, mas na verdade deixa-os em risco e na mão de uma Femme Fatale. Uma personagem de pouca abertura, que vai de uma ponta à outra do filme recebendo tudo em troca apenas da sua beleza e suposta ingenuidade, dita as regras do jogo tanto quanto o próprio Manoel de Oliveira.

Por outro lado há Vanessa, interpretada pela veterana Leonor Silveira, uma presença cuja chama custa para acender e manter algum fulgor diante de Camila.  Dona de um bordel se vê ameaçada pela nova esposa de seu amante, e apenas ela não cai no papo passivo e elástico da nova personagem do jogo. Vanessa é o filme todo desafiada pela impossibilidade de Camila se afetar pelas provocações da rival, uma imobilidade para quem vê de fora mas uma jogada destrutiva que desordena tudo que gira em volta daquela casa.

Mesmo parecendo trama de filme do século XIX, Oliveira entrega um filme contemporâneo. Não há barreiras para o diretor, que já aos 93 anos entende o tempo como ninguém. Muitas imagens parecem representar outra época, mas logo são superados por paisagens do novo milênio que indiciam o teor atemporal da história, algo marcante em quase toda filmografia do cineasta. As coisas são as mesmas ao longo dos anos mas ainda assim renovam-se, assim como a cidade do Porto estampada por filmagens de toda a carreira de Manoel no filme Porto da Minha Infância (2001).  

Um país de tradições atropelado pela modernidade (relembrando o pouco mais velho A Caixa), imagens de igrejinhas sobrepostas por bordeis, piscinas e hotéis. Manoel mostra ser antiquado nesse aspecto, um cineasta que emprega o clássico para filmar tudo que havia sido filmado e o que havia de novo para impor sua dialética intransigente, a de um país e de um homem velhos sendo sobrepostos pelo novo.

O Princípio da Incerteza – 2002, Portugal
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira, Agustina Bessa-Luís, Jacques Parsi, Júlia Buisel
Elenco: Leonor Baldaque, Leonor Silveira, Isabel Ruth, Ricardo Trêpa, Ivo Canelas, Luís Miguel Cintra, Júlia Buisel, João Bénard da Costa
Duração: 133 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.