Crítica | O Que Aconteceu ao Homem de Aço?

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Entre 1985 e 1986, a DC Comics publicou aquele que seria o maior marco/evento cronológico da editora, a saga Crise nas Infinitas Terras. Como consequência desse evento, a casa iria reformular a maior parte de suas publicações, sob diversos aspectos: mudando editores, equipe criativa e até mesmo reescrevendo uma nova versão para alguns personagens. O Superman, claro, estava na lista desses medalhões que ganharam novas figurações na Casa das Sombras, dando ao editor Julius Schwartz a dificílima tarefa de finalizar duas publicações lendárias da editora, as revistas Action Comics Vol.1 (que seguiria com o mesmo título e numeração, mas em uma nova série/fase, com um novo Homem de Aço, reformulado por John Byrne) e a Superman Vol.1. (que manteria a numeração mas mudaria de título, transformando-se em Adventures of Superman).

Com Jerry Siegel impossibilitado de escrever a história (vale dizer que ele foi formalmente convidado), a finalização dessa Era de publicações e o ‘fim’ de um personagem do porte do Superman caiu no colo de um famoso mago britânico que à época arrancava suspiros de qualquer leitor de quadrinhos que se prezasse. E na pena de Alan Moore, a versão pré-Crise do Superman encontrou um belíssimo fim. O Que Aconteceu ao Homem de Aço? foi concebida como uma história fora da cronologia oficial da DC, com aquela piscadela de que “não aconteceu, mas é possível que aconteça“. Porém, no Compêndio da Crise, lançado em novembro de 2005, ficou estabelecido que esta história de fato aconteceu, mas na Terra-423. Ah, a DC…

Em 1997, Lois Lane está casada com Jordan Elliot e ambos têm um filho, o pequeno Jonathan. Ela está aposentada do Planeta Diário, mas foi testemunha ocular de algo muito importante que aconteceu há 10 anos, a crise que fez com que o Superman enfrentasse uma série de inimigos de sua galeria e, depois da dura batalha com perdas imensas, simplesmente desaparecesse. Alguns diziam que ele havia morrido. Outros, que tinha saído da Terra, exilando-se em outro planeta. Outros, que ele ainda estava na Terra, disfarçado… Trabalhando com essas versões sobre o “fim de uma Era e de uma Lenda” que Alan Moore conseguiu criar o cenário de dúvida, uma aura de mistério para o término da carreira do Superman pré-Crise, tudo isso sem ter que inventar absurdos temporais e/ou espaciais a fim de validar o período em que o herói esteve em atividade e o bem que trouxe para o mundo. A trama é repleta de grandes encontros, tanto de vilões, heróis e equipes que, ao longo dos anos, fizeram parte da vida do Superman e que era lícito que estivessem também em seus últimos momentos.

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Curt Swan desenha toda a história como uma aventura íntima, destacando os personagens em ações solo, em duplas ou grupos cheios de preocupação, mostrando seu ódio ou lealdade ao Superman. Mesmo quando o roteiro se torna um tantinho atropelado, na reta final do drama de Brainiac, a arte mantém uma boa relação entre indivíduos e espaço, contendo um excelente jogo de emoções, especialmente porque o roteiro carrega um tom elegíaco, validando esse tipo de aproximação. Aos poucos, o leitor também vai se entristecendo. Nuances de um grande passado do Superman começam a vir à tona e tudo o que ele foi e representou começa a fazer falta antes mesmo da partida. Mas o autor não estava interessado em trabalhar com a despedida apenas sob um ponto de vista de plena ausência, quase melodramática. Era preciso algo mais, uma espécie de trampolim para a Lenda, um impulso, o raio de esperança que sempre foi o grande trunfo nas tramas do herói (e quem quer que tenha feito diferente, fez errado: Superman é para ser um personagem luminoso, positivo, esperançoso, gentil, nunca algo diferente disso). E todas essas coisas vêm em um inteligentíssimo epílogo.

Mesmo para um leitor que não conhecesse muito as histórias do Homem de Aço após a Crise, fica claro o que Alan Moore fez ao final dessa história. Existe algo, porém, em uma brincadeira do pequeno Jonathan, que é capaz de nos arrancar o mais largo dos sorrisos. Não é preciso longos textos ou discursos engajadores para que o objetivo geral da história seja alcançado. Aquele único quadro faz todo o serviço. Ao fim, temos aqui um excelente mistério sobre o que aconteceu ao Homem de Aço, e uma excelente piscadela sobre… bem… como o Homem de Aço deixou de acontecer. Uma história sóbria, emotiva, esperançosa e muito respeitosa com o que foi e o que representou o Superman para o mundo, dentro e fora da ficção. O final digno de uma grande Era.

O Que Aconteceu Ao Homem de Aço? (Whatever Happened to the Man of Tomorrow?) — EUA, setembro de 1986
Contendo: 
Superman Vol.1 #423 e Action Comics Vol.1 #583
No Brasil: Panini, 2013 / Eaglemoss, 2018
Roteiro: Alan Moore
Arte: Curt Swan
Arte-final: George Pérez / Kurt Schaffenberger
Cores: Gene D’Angelo
Letras: Todd Klein
Capas: Curt Swan, Murphy Anderson
Editoria: Julius Schwartz
48 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.